Vamos, por um momento, fingir que não sabemos como achar todas as músicas online. Que não existe bittorrent e Comunidade Discografias (a versão 2.0). Esqueça que você é um iniciado e delete dos favoritos essas comodidades (ilegais, diga-se). Pois bem. Com essa amnésia temporária, você se sente como um dono de celular comum no Brasil, a média da população – que só conhece música "pirata" via CDs de coletâneas e arquivos passados por amigos. Para essa pessoa, a idéia de poder baixar qualquer música que quiser, a hora que quiser, sem pagar nada é, sem uma palavra melhor, revolucionária. E mesmo para quem conhece os meandros do Pirate Bay, um serviço assim seria mais rápido que qualquer outra solução e, para alívio das consciências mais pesadas, totalmente legal. Isso é o Comes With Music, uma idéia que vai na linha do que o Brian Lam pedia alguns dias atrás, pois entende que a única forma de fazer os piratas deixarem de ser piratas é dar-lhes uma interface rápida e opções ilimitadas por um preço baixo. De graça, tanto melhor. O Comes With Music – CWM, de agora em diante, é essa solução?

Antes, vale falar do Nokia Music, espécie de iTunes que não usa 3 GB de RAM, plataforma de compra de música (e tocador, como o programa da Apple) também lançado hoje. Se você tem o CWM, o serviço funciona exatamente igual ao iTunes, mas não é preciso pagar nada pelo que é consumido. Já um usuário comum compra discos a uma média de R$ 25 por lançamento e álbuns famosos (caro) ou R$ 10 por catálogo e coisas independentes, não importa a quantidade de faixas – R$ 2,50 é o preço de qualquer música avulsa. O cardápio do Nokia Music é maior que seus concorrentes diretos, como o iMusica (que diz ter 3 milhões de faixas), UOL Megastore e o Sonora. Pois é, o Nokia Music não é um acessório. A Nokia não chegou para pegar uma fatiazinha do ridículo mercado de vendas digitais de música no Brasil – estimado em R$ 43 milhões. Ela entrou chutando a porta pra fazer o bolo crescer. "Nós entramos no music business… Não estamos aqui só para promover os devices", afirmou Liz Schimel, vice-presidente global de música da Nokia.

Tá, legal. Mas sério, quem está disposto a pagar R$ 2,50 por música no Brasil? Pouquíssima gente. Por isso a solução mais plausível é: pague uma vez, coma o quanto quiser. O CWM.

Mas quanto custa ter a loja desbloqueada para levar o que quiser? Nada. "Basta" comprar um aparelho – o único habilitado a isso é o 5800, mas outros virão. Hummm… Parece bom! E se eu tiver um celular da Nokia e quiser usar o serviço? A assinatura é cara? Não há essa possibilidade. E quando acabar o ano de downloads ilimitados do meu Nokia 5800, eu posso renovar, pagando uma assinatura? Não. Bastará comprar um outro aparelho. "O que é normal, já que costuma-se trocar de aparelho uma vez por ano", raciocinou Almir Narcizo, presidente da Nokia do Brasil, durante a coletiva de hoje. Não, senhor Narcizo. Não é a melhor solução – se o meu Nokia 5800 é um bom celular, pra que eu vou querer trocá-lo ano que vem?

Esse é talvez o maior defeito do CWM: ele se limita a um único aparelho. Liz Schimel deixou escapar que a alternativa de "assinatura" é bem possível num futuro próximo. Esse seria o melhor dos mundos. Mas, do jeito que está, o serviço ainda é bem bom. Ele só resolveu criar uma entrada diferente. Para você ter acesso à festa, basta comprar um aparelho que é possivelmente mais barato (dependendo do plano) e certamente mais útil que um iPod. Ok, as músicas são em .WMA (não MP3), 192 kbps, com DRM – só podem ser tocadas em um computador e em um celular. É claro que a trava já foi quebrada. Mas a Nokia está pouco se importando. "Não é o nosso foco. Quem fica se esforçando para quebrar isso é bobo. Há outras opções para quem quer baixar músicas ilegalmente", disse Liz.

Como eu falei, é bem mais fácil procurar músicas entre as 3,6 milhões de faixas da Nokia Music que em qualquer Mininova da vida – há a opção de ouvir o preview, baixar a capa bonitinha, essa coisa toda. E para isso funcionar a Nokia teve de combinar com BASTANTE gente. Para garantir Britney Spears, Victor e Léo, Claudia Leitte e Fresno, os grandes vendedores, a empresa finlandesa combinou o pagamento um valor (não revelado) às majors, como Universal, EMI, Sony e Warner. Mas a Nokia foi além e conseguiu acordos com 2 mil selos independentes, sendo 150 brasileiros, da Biscoito Fino e Azul Music à Monstro e Maritaca. Então há coisas que realmente é mais fácil de achar no Nokia Music do que baixando ilegalmente na internet. É bem verdade que ainda falta muitas bandas famosas no cenário independente brasileiro (tipo quase todas), mas há coisas menos comuns de samba e choro, por exemplo. A bolada que as gravadoras ganham na história é redistribuída entre os artistas que fazem mais sucesso no serviço, segundo a Nokia. A conferir.

Nesse cenário, eu queria que fizessem um experimento antropológico. Se as pessoas tivessem acesso ilimitado à música, o que elas consumiriam? A hipótese está sendo testada nos cinco países que lançaram o serviço antes do Brasil. E o resultado é de encher os olhos: normalmente as pessoas consomem 3 gêneros musicais diferentes. No CWM, abrem suas fronteiras, vão para 7 gêneros, explorando inclusive a janela de "downloads recomendados", um Last.fm ainda imperfeito, mas interessante. O velho formato de 10% de bandas venderam 90% das músicas cai por terra. Enfim, a tal Cauda Longa se manifesta. 

Mais opções de músicas, mais educação musical, mais cultura, e dinheiro chegando aos artistas. Não é lindo? Sim, o negócio poderia ser mais barato, poderia ser em mais aparelhos, poderia ser uma assinatura, sem DRM, com mais músicas, o que seja. Imperfeito como está, o Comes With Music aponta para um caminho novo. Uma revolução que não foi trazida nem pelo gênio Steve Jobs, nem pelos piratas descolados do Pirate Bay, nem pelas gravadoras desesperadas por dinheiro. Mas por uma empresa de celulares. Bizarro, mas bom. E promissor.