Os primeiros mamíferos surgiram durante o domínio dos dinossauros, adotando um estilo de vida noturno para se manterem salvos. Apenas depois dos dinossauros serem extintos do planeta que certos mamíferos começaram a aparecer durante a luz do dia, de acordo com uma nova pesquisa.

Novas evidências publicadas na Nature Ecology & Evolution sugerem que os primeiros mamíferos diurnos emergiram entre 52 e 33 milhões de anos atrás. O período sugere que os mamíferos ficavam “presos” a um modo noturno de existência durante o domínio dos dinossauros, que acabou há 66 milhões de anos, e o súbito desaparecimento destes animais permitiu aos mamíferos viver durante o dia. O novo estudo melhora nosso entendimento da evolução mamífera, mas outros pesquisadores alegam que é necessário buscar mais evidências para que possamos ter absoluta certeza do período desta importante transição.

Fósseis mamíferos que datam este período são difíceis de encontrar, mas mesmo que paleontólogos e biólogos evolucionistas tenham toneladas de fósseis, é difícil determinar o comportamento de um animal por uma pilha de ossos – incluindo se um animal era ativo durante a noite ou o dia. Dito isso, cientistas estão confiantes que os primeiros mamíferos eram noturnos, baseados nos poucos fósseis que eles têm. Eles apenas não têm certeza quando que nossos distantes ancestrais começaram a emergir da escuridão.

Para entender melhor quando isso aconteceu, uma equipe de pesquisadores da Universidade de College-London e Universidade de Tel Aviv construíram múltiplas árvores filogenéticas baseadas nas 2.415 espécies de mamíferos vivos hoje.

“O estudo usa relações evolucionárias para determinar quando mamíferos começaram a se mover durante a luz do dia”, disse ao Gizmodo P. David Polly, professor adjunto de biologia e antropologia na Universidade de Indiana que não esteve envolvido na pesquisa. “Estes cientistas queriam entender se este grupo, que nos inclui, evoluiu uma visão que funciona bem durante a luz do dia antes ou depois da extinção dos dinossauros. A principal questão é determinar se os dinossauros atrasaram a diversificação mamífera”.

“É muito difícil relacionar as condições ecológicas do período e mudanças comportamentais em mamíferos que viveram há tanto tempo, então não podemos afirmar que a morte dos dinossauros fez com que os mamíferos começassem a ser ativos durante o dia. Entretanto, temos uma clara correlação em nossas descobertas”.

As duas árvores filogenéticas construídas pelos pesquisadores apontam para a mesma conclusão: mamíferos mudaram para o modo diurno apenas depois da extinção dos dinossauros. A mudança foi gradual, no entanto, necessitando de milhares de anos de evolução; a “grande mudança” aconteceu entre 52 e 33 milhões de anos atrás (o que é uma grande janela, até mesmo para a biologia evolutiva).

“Ficamos muito surpresos em descobrir uma correlação tão próxima entre o desaparecimento dos dinossauros e o começo das atividades diurnas dos mamíferos, mas encontramos o mesmo resultado de forma unanime usando… análises alternativas”, explicou em um comunicado Roi Maor, autor líder do estudo.

Os primeiros ancestrais símios, como gorilas, gibões e saguis, estão entre os primeiro que rejeitaram a vida noturna. A nova análise é consistente com o fato que primatas símios são os únicos mamíferos que evoluíram adaptações para ver bem durante a luz do dia.

“É muito difícil relacionar as condições ecológicas do período e mudanças comportamentais em mamíferos que viveram há tanto tempo, então não podemos afirmar que a morte dos dinossauros fez com que os mamíferos começassem a ser ativos durante o dia”, disse a coautora do estudo Kate Jones. “Entretanto, temos uma clara correlação em nossas descobertas”.

Muito do que o estudo mostra já era conhecido, diz Polly, especialmente que ancestrais dos mamíferos eram noturnos e que os primeiros grupos que utilizavam o entardecer ou a luz do dia provavelmente surgiram depois da extinção dos dinossauros. “O que é legal sobre o estudo é que os autores abordaram a questão quantitativamente usando dados de muitos mamíferos vivos em combinação com a árvore filogenética”.

Dito isso, Polly diz que o estudo é baseado em filogenia controversa em termos de quais subgrupos diferentes de mamíferos emergiram.

“Ambas árvores usadas pelos autores colocam muitas divisões no período mesozoico, antes dos dinossauros serem extintos, enquanto muito cientistas, especialmente paleontólogos, colocariam estas divisas depois da extinção”, disse Polly ao Gizmodo. “Por exemplo, [os pesquisadores] assumem que o grupo de primatas que inclui macacos, símios e társios originaram antes da extinção, o que é muito improvável dado a qualidade dos fósseis registrados destes primatas. Se corretas, as datas [dadas pelos pesquisadores] para os primeiros mamíferos diurnos seriam mais novas se a própria analise fosse ajustada”.

Apesar disso, Polly diz que o estimado entre 52 e 33 milhões de anos é razoável, e que “a diversificação em especialização da visão pode ter ocorrido em um intervalo de tempo mais comprimido do que a análise sugere”.

David Grossnickle, um biólogo evolucionista da Universidade de Chicago quase não envolvido no estudo, concorda com Polly, dizendo que um estudo baseado exclusivamente em filogenética tem suas limitações.

“A maioria das espécies mamíferas da era mesozoica (a era dos dinossauros) foram extintas e não tem descendentes vivos”, disse Grossnickle ao Gizmodo. “Basicamente, muito da árvore evolutiva dos mamíferos não é representada em estudos que apenas usam dados das espécies modernas, como este estudo. É difícil definir o comportamento dos mamíferos de milhões de anos atrás com este tipo de dado, porque a maioria das espécies vivendo milhões de anos atrás possuem representantes vivos… Eu acho que o estudo deles é uma forte contribuição ao nosso entendimento das primeiras evoluções mamíferas, mas eu recomendo cautela ao deduzir traços de mamíferos anciões com os dos modernos”.

Além disso, como apontou Grossnickle, essa nova pesquisa contradiz um recente estudo que argumenta que o comportamento diurno dos mamíferos emergiu 10 milhões de anos depois da extinção dos dinossauros. “A questão de quanto o comportamento diurno surgiu permanece indeterminado, apesar de recentes estudos terem feito um grande progresso para responder esta questão”.

O biólogo Stephen Brusatte da Universidade de Edinburgh diz que a equipe fez um “bom trabalho” em mapear os padrões dos mamíferos modernos em uma árvore genealógica, e ao simular uma variedade de testes estatísticos para estimar quando diferentes padrões de atividade, como o comportamento diurno, evoluíram.

“Mas até descobrimos uma maneira de avaliar fósseis e diretamente identificar como estes animais extintos se comportavam, teremos de continuar com previsões” disse Brusatte ao Gizmodo. “Pode ser que a extinção da era Cretácea tenha causado uma grande mudança no mamíferos noturnos, mas não me surpreenderia se alguns mamíferos que vivessem junto dos dinossauros também fossem ativos durante o dia e apenas não temos uma boa maneira de determinar isso ainda. Este será o próximo grande passo em testes estes resultados”.

Imagem de topo: Zhao Chuang