Uma coisa legal sobre ursinhos de pelúcia é que, se o seu cachorro arranca a cabeça do urso favorito do seu filho, você pode simplesmente costurar de volta. Mas você não sai por aí exibindo sua conquista como um “grande sucesso”. Em vez disso, você diz algo como: “Aqui, toma seu brinquedo sem vida”.

Ainda assim, quando o assunto é Sergio Canavero, o controverso médico italiano que acabou de anunciar ter feiro um transplante de cabeça em um cadáver, isso acontece. O anúncio de Canavero veio com uma avalanche de noticias alegando que o feito foi o primeiro transplante de cabeça bem-sucedido.

Cientistas têm brincado com a ideia desde que o transplante de órgãos existe. O próprio Canavero anunciou que transplantes humanos seriam possíveis em 2015. Ele diz que centros de pesquisa nos Estados Unidos não dão apoio, segundo o USA Today. O médico alegou ter feito a cirurgia em um macaco em 2016, mas sem reatar a medula espinhal e sem publicar estudo algum sobre isso. Posteriormente, ele publicou vários artigos afirmando cortar e reatar medulas espinhais de animais, mas os artigos não deixam claro se ele as separa completamente ou se são apenas cortes na medula antes do procedimento. Esses artigos também não tinham controles. Sua equipe publicou outro estudo neste ano, mas, mais uma vez, não relatou se havia completamente separado a cabeça.

Não precisa nem dizer que a comunidade científica está cética.

Na manhã desta sexta-feira (17), Canavero alegou em uma coletiva de imprensa que havia “realizado o primeiro transplante de cabeça humana”, noticia o Telegraph. E que “uma troca completa de cabeça entre doadores de cérebros é o próximo passo”. Ele prosseguiu a fala, determinando como “iminente” um transplante completo de cabeça.

Se você tira um tumor de um cadáver, você não curou o cadáver do câncer que tinha, só tirou um pedaço de carne de um defunto. Se você troca a cabeça de cadáveres, isso não é diferente de costurar uma coxa de galinha no frango assado errado.

O USA Today afirma que Canavero tem um voluntário para sua tentativa: um russo chamado Valery Spridonov, que está paralisado. E o procedimento aconteceria da seguinte maneira:

O beneficiário e o doador serão colocados sentados para facilitar o que devem ser mais de 24 horas de um trabalho sangrento e laborioso para separar e então reconectar ossos vertebrais, veias jugulares, a traqueia, o esôfago e outras estruturas do pescoço. O beneficiário receberá ajuda para respirar, e o sangue será bombeado pelo corpo com máquinas. O paciente será mantido em um coma induzido por medicamentos por um período de recuperação não especificado.

É completamente possível que tudo que Canavero tenha feito tenha sido honesto e que um transplante de cabeça esteja iminente; que seu procedimento funcione; e que nosso ceticismo seja injustificado. Afinal de contas, ele é basicamente a única pessoa que está fazendo esse procedimento, e, em última instância, ideias malucas precisam ultrapassar os limites.

Mas isso aqui é ciência. Foram feitos pouquíssimos estudos sobre esse procedimento e seus riscos. E com algo tão radical, se não é estudado de uma forma transparente, honesta e realista, é difícil para os outros levar isso a sério. Então, até que vejamos mais provas de um transplante de cabeça de fato, em que uma espinha seja completamente separada e reatada a algo que não seja carne crua, vamos continuar céticos.

[via The Telegraph, USA Today]

Imagem do topo: AP