Na exposição comercial do Mobile World Congress, em Barcelona, vimos duas marcas de smartphones antes grandes — Nokia e BlackBerry — tentarem conquistar seu caminho de volta ao coração dos consumidores com o relançamento de gadgets antigos. A BlackBerry Mobile, cujo nome é licenciado pela fabricante de eletrônicos chinesa TCL, introduziu seu mais novo retrô, o BlackBerry KeyOne, um telefone Android que parece uma versão atualizada e mais moderna do BlackBerry 9900. A Nokia, agora controlada pela HMD Global, decidiu logo trazer de volta o 3310, mas com uma tela colorida, uma câmera e uma autonomia de bateria maluca.

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Eu sou uma grande fã de gadgets retrô — o NES Classic Edition foi um dos meus lançamentos tech preferidos de 2016 —, mas sou decididamente contra a moda de ressurgimentos de marcas em nome da nostalgia. Uma coisa é lançar um console retrô que lhe permite jogar jogos clássicos por um bom preço; outra é tentar competir com smartphones de verdade simplesmente com um nome que era popular há dez anos.

Aliás, esse ressurgimento de nostalgia tech sublinha bastante um problema gigante com o mundo tech em geral: inovação. Em vez de tentar trazer um smartphone inovador e de ponta em 2017, parece que a TCL espera que as Kim Kardashians do mundo, com muito medo de mudanças para comprar uma droga de um iPhone de uma vez, vão de repente, aparecer em grandes números. Um telefone Android de US$ 550 com características medíocres, cujas únicos destaques são o teclado e a tão falada pilha de dispositivos de segurança do BlackBerry, provavelmente não trará legiões de fãs de volta para a marca. Além disso, o BlackBerry (antigo) já tentou a jogada nostálgica com o Priv, em 2015. Ninguém comprou o telefone, o que é parte dos motivos pelos quais o BlackBerry terceirizou todos seus dispositivos mobile à TCL em primeiro lugar. O teclado de um telefone alcança as manchetes, mas tem pouco a oferecer aos consumidores.

E isso porque maioria das pessoas deixou o teclado físico para trás. Claro, sempre haverá os indivíduos que resistem, mas, após anos de desenvolvimento, os teclados virtuais são simplesmente melhores. Um teclado limita o quanto de vídeo você consegue assistir, o quanto de uma mensagem é mostrada na tela e torna meio dolorosa a tarefa de tirar fotos. A TCL fabrica alguns dispositivos Android bem decentes, especialmente por seu preço. Mas é decepcionante ver a marca BlackBerry Mobile tão focada em retrôs, em vez de tentar inovar no aparelho ou no design.

O caso da Nokia é quase ainda mais triste. Eu amava o 3310 quando eu era criança e fiquei meio animada com o retorno ao modelo antigo, mas o produto de fato é um telefone bem comum e estúpido que parece muito com algo que eu carregava no último ano do ensino médio. O mercado para algo assim, mesmo como acessório retrô, parece incrivelmente pequeno. Sim, há partes no mundo em que um telefone 2.5 G pode fazer sentido, especialmente quando o acesso à eletricidade é limitado, mas o grande fator de diferença entre o Nokia 3310 e outros telefones tontos vendidos sob o nome da marca Nokia ao longo dos anos parece ser o design. Além disso, se você quer gastar pouco em um celular, você ainda consegue achar coisa melhor do que o que o 3310 está oferecendo.

E para qualquer um que estivesse esperando que a marca Nokia estaria pronta para bater de frente com outros fabricantes principais de telefone quando se trata de dispositivos Android, pense duas vezes. A linha da HMD de dispositivos Android da Nokia está muito mirada em mercados emergentes e inferiores. Eu aprecio o fato de que os telefones parecem ter uma boa qualidade de construção e estejam rodando o Android, mas os consumidores esperando por um equivalente Android e moderno ao N8 ou ao Lumia 800 terão que seguir procurando em outro canto.

Mais uma vez, a Nokia já foi uma das marcas de telefone mais inovadoras no planeta. Mesmo com os smartphones, ela fez uns excelentes produtos no passado. Aliás, o N95 tinha características como a gravação de vídeos e o copiar e colar, algo que levaria anos para o iPhone trazer. É triste ver uma empresa que era inovadora até o fim se reduzir a uma jogada de nostalgia em 2017.

E encaremos o fato: lançamentos tech nostálgicos são ruins. Eu sei, alcançamos o ápice em smartphones, e pedaços básicos de vidro e metal são chatos. Mas a solução não é simplesmente voltar a tempos mais simples. Em vez de focar no que costumava ser legal, a inovação deveria seguir em frente, em busca de novos dispositivos, novas interfaces e ideias.

No ano passado, a Motorola nos aplicou uma peça, com um grande comercial retrô que fazia parecer que iriam lançar um smartphone moderno em formato flip. Mas tudo não passou de uma provocação para um telefone que ninguém queria. Toda a jogada nostálgica foi para nos lembrar que a Motorola costumava ser descolada e, agora, está sofrendo para encontrar uma identidade no mundo dos smartphones.

Não obstante, essas jogadas nostálgicas NUNCA funcionam. Lembre-se que a TCL comprou de volta a marca Palm em 2015, com o intuito de revivê-la para uma nova geração de usuários. Mas, um ano depois, ela pareceu perceber que o mercado para os fãs do Palm Treo era muito menor do que o imaginado e decidiu arquivar os planos inteiramente.

A Sony, uma empresa que já passou por vários altos e baixos ao longo dos anos, repetidamente tentou ressuscitar a marca Walkman — assassinada pelo iPod há mais de 15 anos. Cada tentativa era um pouco mais e mais ridícula e triste.

E, é claro, o exemplo mais notável do que acontece quando uma empresa de gadgets simplesmente é minada pela nostalgia aconteceu com a Polaroid. Na CES 2017, a Polaroid teve uma cabine espalhafatosa cheia de más ideias, incluindo headsets de Realidade Virtual e tablets Android de qualidade inferior com o símbolo da Polaroid. Neste caso, tudo o que esse licenciamento consegue fazer não é nada mais do que depreciar as coisas genuinamente legais que a empresa estava lançando.

Devemos esperar por coisas melhores do que o que aconteceu à Polaroid. A TCL e a HMD também deveriam esperar por mais do que isso. Não é algo bom que maior parte das manchetes em torno do MWC deste ano tenha estado tão ligada a marcas envelhecidas de smartphone tentando reacender um interesse tech que esquecemos há cerca de uma década. Eu quero a próxima geração de grandes smartphones, não lembretes de uma era passada.

Imagem do topo: Getty