Enquanto seus Windows Phones não chegam, a Nokia quer aplacar a sede de novidades dos fãs da marca com o N9, smartphone anunciado mês passado e apresentado à imprensa brasileira hoje. Como é, afinal, este aparelho com Meego? O que a Nokia pretende com ele?

Antes de tudo, é preciso dizer: ele é provavelmente o smartphone mais bonito que eu já pus as mãos. Feito de policarbonato em uma “chapa única”, não há muita definição de onde acaba a bela tela de AMOLED de 3,9”e começa o resto, já que não há botões na frente. Há uma câmera de 8MP atrás, com a promessa de bom desempenho com as lentes Carl-Zeiss, um processador rápido, NFC, touchscreenbem responsivo, até 64 GB de memória. Ele chega no fim de agosto para pré-venda nas lojas e site da marca no Brasil, e em setembro para o varejo e operadoras. O preço não está definido, mas como não foi prometido nada “surpreendente” ou “competitivo”, e ele não será fabricado aqui, chutaria algo na faixa dos R$ 2.000, como o N900.

A Nokia não dá muita ênfase ao fato de ele rodar Meego, um sistema que foi preterido internamente para a adoção do Windows Phone 7. E como ele funciona na prática?

http://www.youtube.com/watch?v=Eezt-gmZs3s

Há três homescreens apenas (não vi indícios que poderiam ser mais), cada um com uma função. O do meio é o que tem todos os aplicativos, com ícones arredondados (como serão os da atualização do Symbian Anna), o da direita é onde ficam as miniaturas de cada app aberto – basta clicar e restaurar –  algo certamente mais bonito, informativo e rápido do que tanto iOS quanto o Android fazem. Na primeira à esquerda, há widgets de clima, agenda, últimos e-mails ou tweets. É mais ou menos uma metáfora não tão bonita quanto os “tiles” do Windows Phone 7.

E é isso. Não dá para dizer que o N9 é um aparelho desinteressante. A ideia de eliminar totalmente os botões é boa, e com alguns ajustes pode funcionar bem – mas ela certamente não é mais “prática”. E fora isso e a proposta meio limitante de 3 telas, ele não é exatamente inovador. Posso estar sendo duro aqui, considerando uma experiência de 15 minutos com o aparelho na mão, mas ao mexer nele ficou claro que a Nokia deveria mesmo abandonar este barco se quisesse brigar de igual para igual com Apple, Samsung e companhia no topo da cadeia alimentar.

Vamos aos problemas. Eu simpatizo com a ideia de um aparelho que venha “pronto”, com todos os apps que você precisa, e isso o N9 faz bem, com tudo que você deseja para usar redes sociais e multimídia e mais alguns bônus. Mas e além disso? Qual a chance de produtores de conteúdo atenderem uma plataforma que terá um único smartphone (mesmo baseado no razoavelmente popular QT), caro, e que não será o carro-chefe da empresa?

Para além do mundo dos apps, a verdade e que este N9 parece demais com os meus pesadelos nokianos dos últimos anos. Os “widgets” servem, como sempre no Symbian, para muito pouco. A não ser que você siga 5 pessoas no Twitter e elas não atualizem constantemente, qual o motivo de ter uma tela mostrando 2 updates? Ou um quadradinho mostrando o remetente e assunto dos dois últimos e-mails que você recebeu, outro widget nada informativo herança do Symbian? Fora o calendário, a tela inicial pode ser bonita, mas com aparentemente poucas opções de customização, parece bem pouco útil – e é um terço do espaço disponível.

Widgets no Symbian sempre foram complicados, e o mesmo pode ser dito dos menus. Eu incluí minha conta do Twitter no painel de atualizações e para conseguir desabilitá-la levei uns bons 3 minutos até achar a opção enterrada em algum menu que não deveria estar (não estava no app do Twitter ou em “configurações de aplicativos”, por exemplo). A fonte mais bonita e ícones arredondados não disfarçam a herança, e problemas comuns e clássicos dos Nokias, como a falta de maneiras de organizar a lista de apps (como em pastas), UPDATE: sim, existem formas de organizar os apps por pastas em outras versões do sistema, ela só não é elegante. Aqui ela simplesmente não existe. Como elas arbitrariamente só cabem em uma tela, imagino que depois de um tempo procurá-las vai ficar algo tedioso. O swipe também não funcionou o tempo inteiro, e por 3 vezes a tela travou por alguns segundos até eu conseguir apertar em alguma opção.

Tudo isso pode ser uma doença comum de aparelhos finlandeses, chamado de “síndrome do primeiro firmware” – há anos a Nokia não manda produtos totalmente prontos para o mercado. Pense no N97 que não tinha acentos, ou o 5800 que travava sem parar, ou mesmo o N8 com teclado virtual que bizarramente só funcionava na horizontal. Então, leve isso em conta sobre minhas considerações um bocado céticas.

Filosoficamente, o N9 faz um caminho oposto à pegada quase-computador do N900. Ele foi feito para ser simples, não muito customizável, com tudo que você precisa tirando da caixinha. Somando a isso temos um hardware bastante confiável, boa construção, e no papel temos um campeão, ao menos para a enorme plateia de brasileiros que confia na marca e prefere usabilidade intuitiva a mil configurações e aplicativos.

E por isso eu quero gostar do N9, de algum forma. Ele é lindo, para começar. O problema é que, nessa minha primeira volta com ele, a tal plataforma em chamas queimava na minha mão. Ele não está maduro, e o “1.0” é muito, muito aparente. Certamente daremos outra chance e, quando ele se desenvolver, poderá ser uma indicação viável para os meus parentes órfãos da Nokia, anti-Apple e ávidos por entrar no mundo dos smartphones. O problema é que antes de ele ter tempo de amadurecer, Nokias com Windows Phone 7 estarão no mercado, ao lado de iPhone 5, e, entre outros, o Galaxy SII. Quem vai esperar? Algum de vocês?

 

UPDATE: Nossos amigos do ZTop destrincharam alguns elementos do hardware e tiraram um monte de fotos. Passem lá.