Nós chegamos à Lua dentro de uma latinha, construímos uma humilde estação espacial e temos planos de chegarmos a Marte em uma outra latinha, só que um pouco maior. Mas nós precisamos chegar às estrelas. E nós chegaremos.

Sim, eu sei o que você está pensando: "é impossível".

E, por ora, você está certo, Nossos propulsores atuais são, sem meias palavras, patéticos. Nós ainda estamos na Idade da Pedra da viagem espacial. Não importa quão bacanas eles sejam, os foguetes – que ejetam gás a altas velocidades por uma saída na parte traseira de uma espaçonave – são extremamente ineficientes, exigindo enormes volumes de combustível que é consumido antes de você poder dizer "Leve-me para cima, Scotty".

Nós liberamos a torre
Propulsores sólidos, foguetes bipropulsores, monopropulsores, híbridos….todas estas opções seriam impossíveis de se usar em viagens interestelares, com velocidade máxima de no máximo 9 km/s. Foguetes não funcionarão, mesmo usando o efeito da gravidade planetária para ganhar impulso. A Voyager – a espaçonave mais rápida feita pelo homem, voando a 17 km/s – precisaria de 74 mil anos no espaço para chegar a Proxima Centauri, a estrela anã vermelha localizada a 4,22 anos-luz adentro do sistema de Alfa Centauri, o mais próximo do nosso Sol.

Mas mesmo que possamos construir uma espaçonave tão grande com a tecnologia de propulsão experimental – porém factível – de hoje, ainda levaríamos milhares de anos para chegar a Alfa Centauri. O uso de explosões nucleares – como as propostas no projeto Orion – seria mais eficiente que foguetes, atingindo um máximo de 60 km/s. Com isto ainda levaríamos longos 21.849 anos e dois meses.

O uso de propulsores iônicos – que utilizam força eletromagnética ou eletrostática para acelerar íons, que por sua vez impelem a espaçonave para a frente – só reduziria esta quantidade ligeiramente. Até mesmo tecnologia teórica – como propulsão por pulso nuclear, com velocidades de até 15.000 km/s – não funcionaria. Isso se assumirmos que conseguiremos encontrar uma maneira para estes motores durarem tanto tempo. E não vamos nem entrar no mérito dos recursos e da engenharia necessária para criar uma nave capaz de sustentar vidas por períodos de tempo tão longos.

Tudo isso para chegar a uma estúpida anã vermelha sem nenhum planeta para explorar. É melhor nem irmos, sério. Sabe, vamos só salvar a Terra da nossa própria destruição e vamos colonizar Marte ou Titã ou Europa (se os alienígenas nos deixarem fazer isso, claro).

Nossa ignorância é a nossa única salvação
As coisas ficam um pouco piores. A nossa compreensão atual da Física – que nos diz que nada consegue viajar mais rápido que a luz – basicamente estabelece que nunca seremos capazes de desenvolver a viagem espacial de maneira que seja significativa para a humanidade. Em outras palavras, mesmo que consigamos descobrir um método de propulsão que possa fazer com que uma espaçonave chegue a velocidades próximas à da luz, ainda levaríamos centenas de anos para chegar a um sistema estelar com planetas semelhantes à Terra. Quando a notícia chegar aqui, todos já estaremos mortos.

E isto é exatamente a chave para a nossa única esperança de chegarmos às estrelas. A nossa ignorância. Por mais que já estejamos avançados, não fazemos a menor ideia sobre muitas coisas. Os físicos ainda estão lutando para entender o universo, descobrindo novos eventos estelares que não conseguimos explicar e tentando entender o sentido das coisas, buscando aquela teoria perfeita que fará tudo se encaixar direitinho.

O fato é que, como não sabemos como tudo funciona, pode ainda haver algo que abra o caminho para a nossa viagem espacial mais rápida que a luz. Descobrir o desconhecido – como os físicos têm feito desde os gregos – e captar uma nova matemática e novas teorias para novas tecnologias é a única maneira de nos espalharmos pelo universo de maneira que faça sentido para a humanidade como um todo. Sabe, tipo Star Trek ou Battlestar Galactica ou Star Wars.

Tô pisando fundo!
Uma destas coisas ainda a serem reveladas direito é o Big Bang, a origem do próprio universo. A nossa origem, a maior das perguntas que temos tentado responder desde que saímos da caverna e olhamos para o céu acima. Nós ainda não sabemos exatamente o que aconteceu, mas a observação do universo da Terra e das sondas espaciais fez com que alguns físicos propusessem muitos modelos diferentes. Um destes modelos diz que, durante o período inicial no qual o universo se inflava, o espaço-tempo se expandiu mais rápido que a luz. Se isto for verdade, então seria possível criar propulsores de dobra.

Sim, aqueles propulsores de dobra.

Propulsores de dobra foram propostos pela primeira vez de maneira lógica pelo físico mexicano Miguel Alcubierre. Ele teorizou que, em vez de deslocar algo mais rápido que a luz – o que não é possível de acordo com a teoria da relatividade de Einstein – nós poderíamos deslocar o espaço-tempo ao redor deste algo mais rápido que a própria luz. A espaçonave estaria dentro de uma bolha de dobra, um espaço plano que seria deslocado pela expansão do espaço atrás e a contração do espaço à frente. A espaçonave não se deslocaria mais rápido que a luz: dentro da bolha, tudo seria normal.

Uma maneira de entender o efeito, como explica Marc Millis (ex-chefe do projeto de Física de Propulsão Avançada do Centro de Pesquisa Glenn da NASA), é ver como um barco de brinquedo reage dentro de uma banheira quando você coloca um pouco de detergente atrás dele. As bolhas expandirão o espaço atrás do barco, o impulsionando para frente. De maneira semelhante, uma espaçonave com um propulsor de dobra seria capaz de fazer a mesma coisa: expandir e contrair o espaço para chegar a qualquer parte do universo mais rápido que a velocidade da luz.

Mas apesar de já ter havido alguns experimentos no laboratório que sugiram que isto de fato pode vir a ser possível, nós ainda estamos muito, muito longe de desenvolver a tecnologia que tornaria os propulsores de dobra uma realidade. Pra começar, a quantidade de energia necessária para dobrar o espaço assim é bem além de qualquer coisa que conseguimos produzir atualmente. No entanto, alguns cientistas sugerem que a antimatéria possa ser o combustível que fará com que isto seja possível.

Novamente, há um sem fim de pontos de interrogação em torno da antimatéria, mas esta é precisamente parte da nossa única esperança: em algum lugar, ainda escondido, está a revelação que possibilitará a viagem interestelar. A possibilidade ainda existe.

Por que devemos ir às estrelas?
Pode me chamar de otimista, se quiser. Pode ser todo este Sol que tem feito estes dias. Ou então é porque vi Star Trek ontem (e foi tão bom quanto eu esperava e ainda muito melhor). O fato é que estou convencido de que a viagem interestelar algum dia vai ser possível. Pode ser que nem eu nem você estejamos aqui para vê-la, mas se a humanidade conseguir sobreviver à nossa autoaniquilação, tenho certeza de que conseguiremos.

Não, "será que chegaremos às estrelas?" não é a pergunta a ser respondida. Nós chegaremos, sem dúvida. A pergunta mais importante é: por que precisamos ir?

A resposta a ela é o motivo pelo qual celebramos os humanos no espaço durante a semana passada inteira. Como eu disse quando demos início a Tire-me Deste Rochedo, a exploração espacial é a aventura mais épica e mais importante que a humanidade possa vir a embarcar. Quando viajamos para o espaço, nós estamos abrindo caminho para a preservação da humanidade. Nós estamos tentando entrar em contato com outras civilizações. Nós estamos tentando responder às maiores perguntas de todas: quem somos? Por que estamos aqui? Como viemos parar aqui? Estamos sozinhos neste rochedo que chamamos de Terra?

Mas, por fim, a coisa mais importante de todas não será obter as respostas a estas perguntas eternas. A coisa mais importante será o processo de chegar às estrelas. Se algum dia conseguirmos chegar lá, isto significaria que conseguimos sobreviver como espécie. Esta é a única maneira de desenvolvermos a engenharia e os recursos necessários para construirmos algo como a Enterprise.

Somente se conseguirmos ir além das nossas pífias altercações e guerras estúpidas, somente se trabalharmos juntos em prol de um futuro melhor é que conseguiremos ir aonde nunca nenhum outro homem já tenha ido. E voltarmos para contar a respeito antes que o jantar se esfrie.

Leitura recomendada: Wikipedia (em inglês), O Propulsor de Dobra: viagem hiper-rápida dentro da relatividade geral por Miguel Alcubierre (PDF – inglês), Estimando Potenciais Métodos de Propulsão (PDF – inglês)