A Black Friday é o momento de celebração da cultura de consumo dos EUA. Desde 2005 é o dia com mais vendas para o comércio no ano. No país de trilhões de dólares movimentados todo ano, esta é uma data importantíssima para comerciantes e, principalmente, consumidores. E esta é uma história que ilustra isso:

Todos os anos, Dev Shapiro, 31 anos, moderador dos fóruns Black Friday do GottaDeal.com, monta um mapa da sua presa favorita, a loja da Best Buy a alguns quilômetros da sua casa. Ele começa a operação cedo, com 100 horas de antecedência, ainda na segunda-feira anterior ao dia de Ação de Graças. Chegando à loja, ele monta seu acampamento: barraca, fogãozinho a gás de uma boca, banheiro portátil alugado. ("Eu cobro um dólar de quem quiser usar", diz. "O negócio acaba se pagando".)

Usando reconhecimento de campo de dentro da loja, assim como informações retiradas do GottaDeal — que começa a postar material promocional vazado da Black Friday com bastante antecedência —, ele arquiteta um plano de ataque. Ele junta a sua lista de compras pessoal com a de alguns amigos que se juntam a ele nas horas finais de espera. Quando as portas se abrem, a sua equipe se move com a precisão mortal de uma operação especial policial — um homem para os laptops, outro para os GPSs, outro para os DVDs, outro para os Blu-Rays e assim por diante. Em uma ocasião, Shapiro levou para casa três unidades de GPS, uma câmera digital, quatro laptops, três TVs de tela plana e vários gigabytes de RAM — quase 10.000 dólares em produtos, por menos de US$ 1.500. "O segredo da Black Friday é informação e planejamento prévio", diz ele. "Você precisa saber onde estar, e quando".  

Essa abordagem violenta e metódica para as suas compras vem, de certa forma, da profissão de Shapiro: ele é um "diretor de logística e inteligência" na Congregational Security, uma firma de Dallas especializada em proteger locais de culto religioso de terrorismo e crimes financeiros.

A história acima é parte de uma sensacional reportagem da Wired de dezembro descrevendo um imenso grupo de "hackers do varejo": gente que passa muito tempo planejando como tirar imensas vantagens de promoções: dos (agora clássicos) compras coletivas às promoções do Black Friday, passando por copiar e compartilhar cupons mandados por e-mail ou impressos em jornais. O grupo lá é tão organizado que há gente que consegue economizar 98% em compras de supermercado. Mas isso é assunto para outra história.

Para quem se pergunta como que a Black Friday, com descontos tão agressivos, se sustenta, aqui uma explicação mais técnica em economês, cortesia da Economist:

Promoções temporárias são muitas vezes uma ferramenta de discriminação de preço. Se você precisa de algo específico agira, você vai comprar estando “em promoção” ou não. Mas se você tem a opção, se não é algo fundamental, você só vai comprar se estiver em promoção (esta é a diferença entre o consumidor não muito sensível e o sensível à variação do preço). Normalmente as lojas mantêm um preço mais alto que a tabela, para conseguir lucro dos consumidores não muito sensíveis ao preço. Elas colocam itens “em promoção” em ocasiões raras, na expectativa de pescar a atenção de compradores sensíveis ao preço. A estratégia não é perfeita porque as pessoas que comprariam de qualquer forma acabam visitando a loja no dia da promoção. Mas isso não acontece exatamente na Black Friday. A beleza deste dia é que as lojas sabem que muitos consumidores insensíveis ao preço ficarão longe do comércio para “evitar as multidões”. Então você pode faturar com os caçadores de promoções sem sacrificar o que ganharia com os consumidores que rendem um lucro maior.