Todo mundo sabe que os computadores eram enormes e pesados no meio do século XX. Mas muito da terminologia que não valorizamos hoje teve que ser inventado em algum momento. Este é o caso do termo “computador desktop”, que surgiu muito antes de “computadores pessoais (PCs)” se tornarem comuns nos lares americanos e, depois, do mundo todo.

Você provavelmente nunca pensa nisso agora, no século XXI, mas o termo “computador desktop”, cujo registro mais antigo data de 1958, entrou para o léxico técnico mais amplo na metade da década de 1960, com a transição dos computadores de dispositivos que ocupavam uma sala inteira para aqueles que cabiam em uma mesa.

A edição de novembro de 1966 da revista Computers and Automation teve uma ótima reportagem que não apenas explorou esses computadores “desk top” futurísticos, como também abordou outros avanços que estavam revolucionando a tecnologia computacional da época.

A seção sobre super-armazenamento e super-recuperação na reportagem serão particularmente interessantes para aqueles de nós que só pensam em armazenamento nos termos do século XXI. Quando o armazenamento consistia de fitas, não era muito difícil armazenar informações. Mas e quando chegava a hora de encontrar o que você estava procurando? Não era assim tão fácil.

Somos mimados com dispositivos de armazenamento como pendrives, que você pluga, arrasta e clica. Mas, de novo, cada geração é um pouco mais tecnologicamente mimada que a anterior.

Alguns excertos da edição de novembro de 1966 da revista Computers and Automation:

Era uma vez, não tanto tempo atrás, uma época em que o estado das empresas de computador era determinado por quantos metros quadrados de espaço seu equipamento ocupava e de quanto ar-condicionado ele precisava. Os computadores com “quase um bloco de comprimento” eram os líderes indiscutíveis. Um pouco depois, computadores com o transistor mais alto eram considerados o último nível de sofisticação.

Isso não é mais verdade. Conforme a arte e as aplicações avançam, tal “sofisticação” se torna cada vez mais desnecessária.

Agora, o que está na moda é chamar o computador de alguém de “desk top” – embora frequentemente seja preciso uma “mesa” muito especial sob a máquina ou ao seu lado para suportá-la fisicamente e eletronicamente.

E aí temos a parte realmente divertida. Mesmo enquanto o computador estava evoluindo para algo que pudesse caber em uma mesa, ainda havia muitos ajustes que precisavam ser feitos para que coubesse.

Computadores Desk-Top

Um grande número de computadores desk-top fizeram sua aparição durante 1965-66. Um grande ponto de publicidade tem sido que eles são rápidos e sem barulhos, comparados com seus antecessores mecânicos. Em alguns modelos, essa é a única vantagem.

Muitos fabricantes, no entanto, oferecerem vantagens adicionais significativas:

1. A capacidade de armazenar vários números.

(É difícil armazenar mais do que alguns números em um computador desk-top mecânico.)

2. A capacidade de aceitar inputs de máquina e produzir outputs de máquina; ou seja, os outputs podem ser usados novamente como inputs tanto em parte quanto em sua totalidade.

As fitas perfuradas, os cartões perfurados ou as inserções especiais são as mídias de input/output da máquina mais comumente utilizadas. Mesmo que relativamente lentas, elas são flexíveis, compatíveis e econômicas; elas expandem bastante as capacidades de memória e programação do pequeno computador e fornecem uma chave essencial para o crescimento futuro dos computadores pequenos.

Input e output automáticos são muito importantes, mesmo para computadores pequenos, porque o tempo para digitação manual para input e leitura e transferência manuais de output, em grande parte, ofusca o tempo para computação. Além disso, esse tipo de trabalho manual é muito inadequado para o cérebro humano, que aqui é famoso pela quantidade de seus erros.

Se você conversa com alguém que trabalhou com computação nos anos 1970, essa pessoa vai te falar sobre levar pilhas enormes de cartões perfurados para colocar dentro de um computador. Hoje em dia, é difícil imaginar que fazer tal coisa fosse considerado como a alternativa fácil e “automática”.

Compartilhamento de tempo, 1966

Este foi um ano em que ouvimos mais sobre compartilhamento de tempo do que qualquer outro assunto de computador. Mas ainda resta muito mais prazer e aceitação por vir por parte dos usuários, em vez dos departamentos de publicidade.

Em alguns casos, um processador de dados central é, definitivamente, a solução certa, por causa da natureza centralizada do problema. Entretanto, na maioria dos casos, a logística de usar um computador remoto, junto com o custo extra e a complexidade da programação e da comunicação de dados, torna a aceitação universal do compartilhamento de tempo uma conclusão menos precipitada.

Onde exige-se capacidade computacional, o computador pequeno será a resposta, porque ele não tem problemas de comunicação de dados. Além disso, ele também está livre dos problemas de logística de ter que compartilhar uma instalação central.

Como mencionei antes, a ideia de poder armazenar informação até facilmente mas ter dificuldade de recuperá-la é fascinante na história dos computadores.  A reportagem fala disso e, talvez, nos faz refletir sobre as maneiras como temos dificuldades com recuperação de informações hoje, no século XXI. Às vezes, essas dificuldades não vêm estritamente de um ponto técnico, dada a relativa facilidade com que podemos rapidamente copiar um arquivo de um drive. A dificuldade hoje, em 2017, mais frequentemente vem de encontrar a informação que estamos procurando entre documentos que podem ainda não serem legíveis por máquinas, como um documento escaneado com um caractere que ainda não passou por um software OCR.

Super-Armazenamento e Super-Recuperação

A maioria dos avanços no trato com a informação na última década foi na aplicação, no custo e na confiabilidade da transformação da informação. A capacidade de armazenar mudou relativamente pouco.

O super-armazenamento sempre esteve disponível, mas não a super-recuperação. Enormes quantidades de informação podem ser armazenadas em fita ou, nesse caso, em forma impressa; mas a acessibilidade, até agora, tem sido algo inversamente proporcional à capacidade de armazenamento.

Apesar dos vários esforços de melhoria, a recuperação de informações continua um grande entrave técnico e conceitual em tecnologia da informação. A solução para a tão popularmente chamada “explosão de informação” é severamente dificultada pela falta de tecnologia de recuperação e por uma falta básica de definição e compreensão do que é e o que não é informação.

Quando os computadores começaram a se tornar mainstream nos círculos de negócios como máquinas grandes, houve exemplos em que empresas compraram as coisas, mas não tinham uso de verdade para elas. Talvez essa seja simplesmente a natureza do capitalismo, mas isso era um problema bastante real que valia ser resolvido quando nem todo mundo havia sido convencido por essa revolução do computador.

A reportagem de 1966 explica essa situação difícil, apontando que as pessoas podiam chegar até a se gabar de ter um computador no canto, sem utilização:

Computador grande, computador pequeno, nenhum computador?

Vozes de desencanto levantaram-se nos últimos meses. Pela primeira vez, entrou na moda jogar o computador fora e repô-lo novamente com um “toque pessoal”. “Nossas tentativas de utilizar processamento eletrônico de dados na cobrança de nossas contas não foi bem-sucedido e fez com que nos tornássemos muito mecânicos em nosso trato com nossos assinantes”, escreve um serviço de atendimento aos consumidores. Isso está em grande contraste com hábitos anteriores de se gabar por causa do computador parado no canto, embora tivesse acabado de ser tirado da caixa.

Muitos desses problemas foram causados por vender em excesso computadores grandes de propósito geral para consumidores que tinham problemas limitados e especiais; e os consumidores então se viram embaralhados em esforços de programação inacabáveis em vez de resolver seus problemas.

Vale mencionar, para cada consumidor de processamento de dados bastante insatisfeito, existem dez satisfeitos. Tem até alguns que não conseguiam mais operar sem o processamento eletrônico de dados. Independentemente disso, é de interesse de todos envolvidos na indústria evitar clientes insatisfeitos e considerar “quando não usar um computador”.

Outra coisa que não valorizamos hoje, no século XXI, é o teclado moderno. Mas isso foi outra coisa que teve que ser inventada e só depois foi adotada pela comunidade mais ampla de usuários de computador.

A máquina de escrever computadorizada

A era da “máquina de escrever computadorizada” está chegando. No passado, dispositivos de máquina de escrever foram usados para várias probabilidades e fins na periferia dos sistemas informáticos. Os próximos anos verão uma tendência reversa. Máquinas de escrever com capacidade de computação, memorização, seleção e processamento farão com que a máquina de escrever computadorizada entre em competição de popularidade com a máquina de escrever elétrica atual.

Tecnicamente, pode não haver nada novo. De maneira prática, a máquina de escrever computadorizada pode significar uma mudança tão grande quanto o sucesso das máquinas de cópia desk-top – mesmo que a capacidade técnica de fazer cópias já existisse há décadas.

Mais uma vez, é fascinante ler sobre o surgimento da “máquina de escrever computadorizada” em 1966, uma época em que um monte de gente via coisas como a caneta óptica como um dispositivo de input útil e que mais do que provavelmente predominaria no futuro.

Quando se trata de tecnologia, tem muita coisa que não valorizamos hoje em dia. Mesmo um termo como “internet” está tão enraizado na gente que nos esquecemos que ele teve que ser inventado, competindo com outros potenciais apelidos, como a “catenet“. Mas nenhuma tecnologia simplesmente nasce. As pessoas precisam construí-la, nomeá-la e desenvolvê-la. E como foi o caso do computador desktop, as pessoas tiveram que decidir que queriam continuar o chamando daquele jeito.