Em 5 de dezembro, a cápsula Orion fez seu primeiro voo de testes no espaço: ela chegou a 6.000 km acima da Terra, fez duas órbitas e voltou à atmosfera, caindo em algum lugar no Oceano Pacífico. No mesmo dia, a marinha dos EUA capturou o módulo de tripulação da Orion, usando o navio anfíbio USS Anchorage.

E agora? A espaçonave pode um dia transportar uma tripulação humana para Marte ou para um asteroide. Mas, em meio ao hype, ainda há uma confusão imperdoável sobre o futuro da Orion.

Lançamentos de novas naves espaciais são geralmente motivos para celebrar – e nós explicamos aqui porque a Orion é tão inspiradora. Agora vem a parte difícil: descobrir até onde ela pode nos levar, e fazer isso realmente acontecer.

Vamos para Marte?

A NASA não envia seres humanos para fora da órbita baixa da Terra desde a década de 70, no programa Apollo. E desde 2011, ela não leva nenhum humano para o espaço, devido ao fim do programa de ônibus espaciais (é a Rússia quem transporta astronautas para a ISS).

A Orion é a resposta para esta estagnação. A cápsula é projetada para escapar da gravidade da Terra e levar seres humanos ao espaço profundo, com a ajuda do poderoso foguete SLS (Sistema de Lançamento Espacial), ainda em desenvolvimento.

O plano atual é laçar um pequeno asteroide com uma nave robótica e colocá-lo em órbita ao redor da Lua. O SLS e a Orion, então, levariam astronautas para visitar o asteroide.

Nave robótica captura asteroide
Representação artística de uma nave espacial capturando um asteroide. NASA/Advanced Concepts Lab

A NASA espera que o conhecimento adquirido na missão Asteroid Redirect os ajude a levar a Orion até Marte – se a agência tiver o dinheiro necessário, o que ainda não é o caso. Seu orçamento atual é bem limitado, mas criar naves gigantes para levar humanos ao espaço é muito caro.

A ideia de começar com um asteroide é, na verdade, um prêmio de consolação. Eis o que aconteceu: em 2004, antes de as guerras no Iraque e no Afeganistão destruírem o orçamento dos EUA, o então presidente George W. Bush pediu à NASA para desenvolver um novo plano para o voo espacial de humanos. A agência criou o Constellation, um programa que deveria colocar seres humanos na Lua até 2020, e em Marte nos anos seguintes. A Orion seria a nave espacial que nos levaria até lá.

Mas em 2009, um painel concluiu que não havia como a NASA ter dinheiro o suficiente para chegar a Marte. O custo de construir um foguete não deixaria recursos para desenvolver as coisas que o foguete poderia transportar. O presidente Barack Obama acabou cancelando o Constellation, substituindo-o pelo “Caminho Flexível” (Flexible Path) até Marte.

É por isso que Orion vai primeiro para um asteroide… ou será que vai?

Pouca empolgação pelo asteroide

Por um lado, resgatar partes funcionais de um plano cancelado é admirável. Por outro lado, há pouco entusiasmo dentro da NASA pela missão Asteroid Redirect. Até mesmo o próprio conselho consultivo disse que ela é um “beco sem saída” para uma missão a Marte.

Mark Sykes, presidente do Instituto de Ciência Planetária, disse à Scientific American: “É um desperdício de dinheiro. Não adianta de nada, e todos os seus benefícios poderiam ser obtidos por outros meios mais baratos e mais eficientes.” Ele disse o mesmo a um comitê do Congresso americano.

Um astronauta da NASA contou ao Houston Chronicle sobre uma reunião só para os astronautas no Centro Espacial Johnson, em 2013:

Lori Garver, que foi conselheiro de Obama e depois se tornou vice-administrador da NASA, foi visitar o Centro Espacial Johnson. Após algumas observações cômicas, Garver perguntou aos cerca de cinquenta astronautas no local até onde eles queriam ir. Um asteroide? Ninguém. Marte? Três pessoas. A Lua? Todo mundo.

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A NASA ainda tem muito trabalho à frente para realizar uma missão com a Orion. Em primeiro lugar, é necessário identificar um asteroide adequado: ele precisa ser pequeno, quase do tamanho da própria Orion; e sólido, em vez de uma coleção de detritos. Para isso, é preciso enviar uma sonda. Tem mais: ainda é preciso desenvolver e construir a nave robótica que vai rebocar o asteroide, que deve custar alguns bilhões de dólares.

Isso é muito esforço para um “beco sem saída”. E agora que os republicanos estão no comando do Congresso americano, eles também têm todo motivo para não financiar um plano espacial aprovado por Obama.

É claro que arremessar uma cápsula a 6.000 km no espaço e vê-la pousar com segurança é um feito notável de engenharia. O voo de testes é certamente um avanço… mas não sabemos para onde. Ainda há muitas outras peças – e dinheiro – que precisam ser acertadas antes de irmos para algum lugar, seja Marte ou apenas um asteroide.

O sucesso da Orion foi uma prova da engenhosidade humana, uma ocasião que podemos e devemos comemorar. Isto foi um triunfo; agora é torcer que ele não seja desperdiçado.

Imagem inicial por Mass Communication Specialist 1st Class Gary Keen/U.S. Navy