2012 é o ano da Amazon no Brasil. A gigante varejista norte-americana desembarcará por aqui com a não tão difícil missão, dado o estado letárgico dos players nacionais, de agitar o mercado de ebooks, repetindo o que fez no final da década passada nos EUA. Mas antes de começar a operar, a Amazon já tem um monte de desafios e desafetos para superar.

Jeff Bezos quer fincar presença na Lua e no Brasil, mas no que depender da Saraiva será mais fácil o fundador e CEO da Amazon levar a primeira nave da Blue Origin ao nosso satélite natural do que abrir as portas virtuais da vindoura loja brasileira. Mauro Widman, engenheiro eletricista de 42 anos, foi tirado da Livraria Cultura por Bezos para fazer o meio de campo entre Amazon e editoras nacionais, mas apesar do trabalho e alinhamento à cultura fechada da empresa, ele ainda está longe da sua meta — das 100 editoras desejadas para o lançamento, foram fechados apenas 10 contratos até agora. Eis o motivo, pois, pelo qual a estreia, antes cogitada para abril, não rolou ainda.

Nos bastidores, corre a conversa de que a Saraiva estaria fazendo pressão junto às editoras para que elas não assinem com a varejista americana. E parece estar funcionando, já que a adesão delas tem sido baixa, o que tem irritado o pragmático e explosivo Jeff Bezos. O representante de uma editora que não quis ser identificada disse que, caso ela fechasse com a Amazon, a Saraiva faria uma “reorganização” de prateleiras e jogaria seus livros para as mais obscuras e distantes do público. Poderia não ser nada, mas para essa editora a Saraiva representa 50% do seu faturamento. A Saraiva nega esse tipo de ação.

A Saraiva pode ser a grande vilã da Amazon no Brasil (e essa já estuda saídas para driblar os entraves, incluindo até representação no CADE contra a rival local), mas não é a única. Há um certo temor por parte das editoras quanto aos termos da loja e seus planos futuros. Enquanto a praxe do mercado é ter contratos curtos de uma folha com comissões de 35% do preço de capa, a Amazon joga um “camalhaço” de 20 na mesa das editoras e pede 50% de comissão, além de direitos e compromissos fortes de digitalização do acervo. O Amazon Direct Publishing, serviço que corta a editora da equação e permite que autores publiquem diretamente na Amazon, também levanta a sobrancelha dos seus proprietários. A nova estratégia da Amazon deve ser a flexibilização desses termos, embora nada ainda tenha sido decidido. Pedro Huerta, diretor da Amazon para a América Latina, viaja esta semana aos EUA para compôr a nova proposta da empresa às editoras nacionais junto com Bezos.

Apesar dos complicadores, há um terreno fértil para o crescimento de ebooks aqui. Prova disso é a disparidade nas vendas do best seller digital, a biografia de Steve Jobs por Walter Isaacson, em relação à sua versão de papel: enquanto foram vendidas apenas 6 mil cópias do ebook, o livro físico vendeu 200 mil unidades. Somando esse dado a sistemas ruins atrelados ao Adobe Digital Editions e e-readers bem caros, a Amazon, caso chegue aqui com o Kindle a R$ 149 ou R$ 199 e seu sistema de compras com um clique, entrega imediata sem burocracia e sincronia via Whispernet, terá um belo cenário para prosperar.

E isso é só o começo. A longo prazo a intenção da Amazon é vender no Brasil itens dos 131 departamentos que operam nos EUA, de eletrodomésticos a jogos, passando por toda a sorte de produtos que se vê por lá. Ante planos tão ambiciosos, dá até para entender a apreensão de Saraiva, B2W e Nova Pontocom. [ISTOÉ Dinheiro. Foto: Philip Wong]