Como vermes malditos mecânicos e bonzinhos, uma equipe de oito Tunel Boring Machines estão avançando lentamente pela capital da Inglaterra e deixando túneis ferroviários por seu caminho. Melhor do que caos, morte, destruição e Kevin Bacon.

A cidade de Londres vem cogitando a ideia de uma rota ferroviária subterrânea leste-oeste desde o final da Segunda Guerra Mundial — apesar de só ter enviado formalmente a proposta ao Parlamento na década de 70 — e só em 2007 que o plano passou pelo órgão legislativo. Em 2008, o consentimento real ao projeto foi dado e a construção de verdade começou no ano seguinte. A parte subterrânea irá passar por baixo do centro de Londres e conectar a Linha Central do Oeste próxima a Paddington com a Linha Central do Leste próxima a Stratford.

O projeto usa um conjunto de oito Tunnel Boring Machines (TBM, também conhecidas por aqui como Tatuzões) de 150 metros de comprimento e 7 metros de diâmetro e 1000 toneladas para cavar 118km de sujeira e rochas. Cada máquina custa cerca de 29 milhões de reais.

O projeto na verdade irá empregar dois tipos diferentes de TBMs, dependendo da composição do solo que elas irão passar. Passar pela argila que constitui e linha do Tâmisa irá exigir uma TBM que funcione na lama, enquanto areia e cascalhos irão precisar de uma Earth Pressure Balance Machine (EPBM ou Megatatuzão).  O par de máquinas que funciona na lama são diferentes das outras seis EPBMs, já que elas separam a cabeça escavadora do resto da máquina e bombeiam Bentonita, uma mistura de argila e água, para ajudar na escavação. Elas bombeiam para fora o material escavado também, ao invés de usar esteiras.

Os EPBMs funcionam de uma maneira similar, sem toda a lubrificação com líquidos. A cabeça de corte rotativa frontal é revestida em Trimay/Hardox e seus acessórios de corte têm pontas de carboneto de tungstênio – não é tão forte quando Diamondillium, mas é parecido. Ela solta o solo conforme um transportador helicoidal move a sujeira através da cabeça até uma esteira que deposita o detrito na traseira do veículo para que ela possa ser evacuada na superfície para eliminação. Estas máquinas são tão grandes que incluem um banheiro e uma cozinha a bordo.

Enquanto isso está acontecendo, um braço rotativo posiciona segmentos de concreto pré-fabricado que irá fazer as paredes do túnel, com oito segmentos que compõem cada anel de 22 toneladas. Mais de 250 mil segmentos serão usados ao longo do projeto. Cada vez que um novo anel é completado, um conjunto hidráulico gigante empurra a máquina para frente com força de 58.000kN – o suficiente para levantar 2.900 táxis londrinos.

Estas máquinas têm inúmeros sensores para garantir que elas permaneçam na rota e fazer com que os túneis escavados por elas se curvem para evitar as linhas de esgoto e outros obstáculos subterrâneos. Sensores de pressão monitoram o volume e a densidade do solo que está sendo escavado para garantir que partes iguais sejam removidas – daí o nome Earth Pressure Balance (Equilíbrio de Pressão da Terra) – balanças para pesar na esteira, escaneamento laser, e medidores de densidade também relatam em tempo real para os operadores. O progresso das máquinas é monitorado na superfície via GPS.

Perfurar o subsolo não para só porque o sol se pôs. Estas máquinas funcionam 24 horas por dia e precisam de uma equipe rotativa de 20 pessoas. Cada máquina faz cerca de 100 metros por semana, o que significa que o projeto completo deve levar cerca de três anos para ser concluído. Os Tatuzões terão que percorrer a infraestrutura subterrânea já existente em Londres, incluindo esgotos e outros obstáculos, para chegar a até 40 metros abaixo da superfície.

A linha deve ser inaugurada em 2018 e transportará cerca de 200 milhões de pessoas por ano – cerca de 1.500 passageiros simultaneamente durante os horários de pico – aumentando assim a capacidade de transporte ferroviário da cidade em cerca de 10%.

No fim, os tatuzões removerão seis milhões de toneladas de terra. E diferente de projetos de escavação similares em Nova Iorque, estas máquinas serão revendidas para os fabricantes para serem reformadas e revendidas para outros projetos. [BBC NewsCrossrail.pdf – Crossrail Wiki – Imagem: BBC]