Dá pra resumir em três palavras o aspecto mais frustrante de ser um cliente da Apple: "Conecte ao iTunes".

Enquanto cliente do Google, a vida é fácil: um login para todos os serviços, acesso a todos seus arquivos a partir de qualquer computador e, em breve, fronteiras cada vez menos definidas entre aparelhos mobile e desktop enquanto o Android vira um elegante complemento à sua experiência de navegação no computador de casa. Enquanto você tiver internet, você terá o Google — e todos os dados que você deixou com ele. 

Quando 300.000 pessoas ligaram seus iPads pela primeira vez no mês passado, porém, a primeira experiência que eles tiveram não foi mágica nem revolucionária. Foi depressivamente retrô. Aquela pequena fatia do futuro estava inutilizável assim que era tirada da caixa, porque ainda é escrava de um computador desktop, precisando ser ligada com o mesmo cabo branco usado pelo primeiro iPod há quase dez anos. 

A vergonhosa experiência de primeiro momento com o iPad é a mais recente e uma das mais pronunciadas manifestações do mais profundo problema da Apple. Um que está para ficar mais e mais perigoso, como o Google tornou tão claro semana passada: a Apple está se debatendo contra a internet. Mas há uma maneira de consertar a situação, agora mesmo. 

Como a Apple chegou até aqui

Quando Steve Jobs disse "nós não achamos que o PC está perdendo o seu espaço central" durante a sua apresentação no Macworld de 2001, pronunciando o Mac como o "hub digital" de um "estilo de vida digital", a Apple ainda era essencialmente apenas uma empresa de computadores. Eles não fabricavam iPods, iPhones ou Apple TVs. Aquela frase seria uma bizarra ironia hoje, exceto que ainda é basicamente uma verdade sobre a Apple, uma década depois. Tudo que eles vendem precisa se conectar a um Mac ou PC.

A Microsoft e a Apple começaram suas vidas como empresas de computador. Os computadores pessoais estão nos seus DNAs. Para eles, o PC está "apenas evoluindo", como disse Steve. O iPad pode ser o futuro para a Apple, mas ainda é um computador pessoal. O Google, amplamente reconhecido como o grande antagonista atual da Apple, é uma empresa de internet. Para o Google, os PCs (ou Macs, ou iPhones, ou despertadores metidos a besta) são apenas modos de se conectar à internet. A internet é o início, o meio e o fim. Para lutar contra o Google, a Apple precisa ser mais do que a Apple Inc., fabricante de PCs evoluídos. Ela precisa ser a Apple Inc., a empresa de internet.

MobileMe

O MobileMe é o serviço de nuvem da Apple "para o resto de nós". Mas custa 100 dólares por ano. O pior é que tudo que ele oferece — email, sincronia de contatos, fotos, armazenamento online —, algum outro serviço faz de graça, e muitas vezes melhor. (Exceto o muito útil serviço Encontrar Meu iPhone.) O Google sincroniza contatos e empurra emails, usando o Exchange; o Flickr tem muito mais recursos e uma grande comunidade; e a simplicidade da sincronia de arquivos e armazenamento online do Dropbox entre PCs, Macs, iPads e telefones faz o iDisk passar muita vergonha.

Os serviços do MobileMe, a grosso modo, não são mais vantagens. São carne de vaca. Se você compra um Mac ou iPad ou iPhone, ele deveria vir com MobileMe. Não é absurdo esperar sincronia de contatos online, galerias de fotos online ou uma migalha de armazenamento de arquivos online — serviços básicos de internet — incluídos como parte do pacote do seu novo computador. Especialmente vindo da empresa que deveria estar tornando a computação mais fácil. Um computador, para boa parte das pessoas, atualmente é simplesmente uma maneira de entrar na internet. Por que não fazer disso uma experiência melhor e mais agradável?

Nós não esperamos que o MobileMe fique subitamente muito melhor, então a solução óbvia é o modelo freemium: emails, sincronia de contatos e 5GB de espaço para armazenar fotos e arquivos, tudo gratuito. As funções realmente opcionais — mais espaço e Encontrar Meu iPhone — poderiam custar de 60 a 100 dólares anuais. Isso tornaria a experiência com Mac muito mais poderosa, ao mesmo que direcionaria a Apple um pouco para ser uma empresa de internet. (Não somos os únicos que tiveram esta ideia.)

E se o MobileMe é grátis, a Apple passa a ter uma nova trincheira, um ponto inicial para algo bem maior.

O iTunes e a crise de iDentidade

O iTunes foi uma loja online desde o início. Suas raízes estão na web. Então não é surpreendente que ele tenha se provado ser o membro mais flexível da Apple, crescendo, inchando e se ramificando como um demoníaco vilão de anime, se transformando de uma simples loja de músicas online para um bazar completo com música, filmes, TV, livros, apps e mais. 

A propriedade mais valiosa do iTunes não é nada disso, porém. São os iTunes ID, que existem em muito maior número que as contas do MobileMe. Você já deve ter adivinhado: que tal unificar os iTunes ID e as contas do MobileMe? (Sim, ao que parece não fomos os primeiros a ter esta ideia também.) Parte do poder do Google é que uma única identidade online amarra todos os seus serviços — GMail, Reader, Talk, Wave, Docs, YouTube, Orkut. A nova Apple que estamos propondo deveria ser igual. Uma conta só, com acesso a email, música, armazenamento, iWork — tudo, basicamente.

O outro problema com o iTunes é que ele está alicerçado em uma aplicação. O iTunes é a maior loja de música dos EUA, mas um americano pode comprar CDs de verdade da Amazon — usando basicamente qualquer aparelho conectado à internet — em mais lugares do que ele poderia comprar um álbum do iTunes. A demonstração do Google na semana passada, mostrando sua loja de músicas baseada no navegador empurrando músicas sem cabos para um aparelho Android, e o seu serviço Simplify Media que consegue transmitir sua coleção inteira de músicas para o seu telefone via streaming também sem fios, fizeram o iTunes em seu estado atual parecer simplesmente arcaico. 

Nos enche de esperança o fato da Apple ter comprado o Lala, um verdadeiro serviço de músicas baseado na web — dá para comprar músicas, fazer upload da sua biblioteca e fazer streaming dela de qualquer computador (tinha até um app de iPhone nos planos) —, e estar lentamente movendo partes do iTunes para o navegador. A promessa de um iTunes Live (ou mesmo um verdadeiro iTunes.com) é uma loja de músicas que te deixaria comprar e ouvir trechos das músicas que você quiser a partir de qualquer navegador, sem um aplicativo, e um serviço de músicas que pode oferecer as suas músicas por streaming para qualquer dispositivo. 

(A pontencial nova Apple TV, uma caixinha de US$99 com iPhone OS que faz streaming de vídeo, acaba fazendo bastante sentido neste contexto, e fixa ainda mais a noção do iTunes como mais provável ponto pivotal de uma nova Apple, focada em serviços de internet.)

O serviço de streaming ideal do iTunes, em conjunto com uma unificação das contas do MobileMe e iTunes ID e integração mais profunda com os serviços de nuvem do MobileMe, traria incorporados todos os melhores aspectos do Lala, espalhando a sua biblioteca de músicas pessoal para qualquer aparelho, assim como do Spotify, o serviço de músicas que atualmente só funciona na Europa, oferecendo streaming da sua coleção de músicas para o seu iPad/iPhone/computador. E isso tornaria cada vez menor a diferença entre conteúdo local e por streaming, fazendo coisas como cache das suas músicas favoritas para que você possa ouvir offline. Streaming de vídeo para aparelhos com iPhone OS seria legal também. É claro que o alcance deste iTunes redefinido seria limitado pela vontade das relutantes gravadoras de brincar junto, mas a Apple consegue realizar um monte destas coisas por si mesma.

Só o essencial

Um minuto depois de eu tirar qualquer telefone Android da caixa, ele já está carregado com meus contatos e emails, no mínimo. Para algumas pessoas, a configuração inicial de um iPad pode demorar horas.

Isso é sinal de um dos problemas fundamentais do iPhone e do iPad: eles não conseguem existir sem um computador de mesa, o aparelho que eles mesmos deveriam substituir. Qualquer vontade de dar de presente para os seus pais um iPad — um computador muito simples que é fácil de usar e dá conta da maior parte das coisas que eles usam, como emails, fotos e navegação básica — é destruída por este único fato. É embasbacantemente idiota, visto que é muito óbvio que o único computador grande com o qual o iPad deveria ter que se conectar é um datacenter em algum lugar da Carolina do Norte.  

É aqui que um serviço grátis e universal do MobileMe serviria como a poderosa conexão da qual dependem o iPhone e o iPad, substituindo um desktop. Assim como no Android, bastaria digitar meia dúzia de caracteres para preencher o seu aparelho com todas as suas informações. Além do MobileMe, o Facebook é hoje em dia o novo catálogo de contatos de muita gente, incluindo os mais velhos, então ele poderia desempenhar parte desse papel. No mínimo dos mínimos, o Facebook e o Twitter deveriam ter alguma integração com os seus contatos, assim como acontece no Android ou WebOS. (Há alguma esperança nesse front.)

As fotos do iPad deveriam fazer automaticamente álbuns no MobileMe, assim como o Picasa do Google ou as últimas versões do Android, tornando fácil o ato de compartilhar fotos e vê-las em qualquer lugar. E deveria haver um aplicativo incluído parecido com o Dropbox que se conectasse ao iDisk, aumentando magicamente o espaço de armazenamento dos aparelhos (até existe um app do iDisk, mas ele é opcional e meio tosco). Resumindo: o iPad implora para estar sempre conectado, e o iTunes/MobileMe poderiam — deveriam — ser esta conexão. 

Todo produto da Apple deveria expandir a maneira como você acessa seus dados e apagar o trauma da configuração. Mais do que qualquer outra coisa, a simplicidade é a maior força da Apple. 

De várias maneiras, o iPad parece ser o perfeito computador caseiro. Uma tela projetada para receber e exibir informações no ato, em vez de armazená-las. Muitas pessoas compraram o iPad de 16GB com isso em mente: receber e exibir vídeos e fotos através da sua rede doméstica. No entanto, a única maneira de fazer isso é com aplicativos de terceiros (como o excelente Air Video). Parece óbvio que você deveria conseguir disponibilizar a sua biblioteca de músicas local para o iPad via streaming — como é possível fazer para qualquer computador com iTunes, ou mesmo com o AirPort Express —, mas a Apple, que até recentemente só mostrava o iPad sendo usado nas casas das pessoas, não deixa fazer isso, mesmo o iPad sendo o primeiro dispositivo móvel da empresa a vir com suporte a Wireless N. Mesmo que a Apple insista na necessidade de sincronizar os aparelhos com um computador, por que isso não pode ser feito sem fios? 

No contexto geral

A Apple deveria estar reinventando o computador. E ela não vai conseguir fazer isso sem tornar a internet a peça central em tudo que ela fizer daqui para frente. O iPad e o iPhone expõem o lado atrapalhado da Apple por serem tão perfeitamente projetados para estarem sempre conectados, no entanto sem ter uma gama de serviços para dar suporte a isso — pelo menos não serviços da própria Apple. Esta ideia de que o que estamos segurando em mãos é o brilhante futuro da computação perde o seu brilho desnecessariamente. 

A única missão do Google, por outro lado, é conectar todos os aparelhos que eles conseguirem à internet. Qualquer aparelho, de qualquer plataforma, com qualquer software, em qualquer lugar com uma conexão à internet roda o Google, seus aplicativos e serviços. Computação onipresente. Se a Apple não reinventar o computador, o Google o fará. E a única maneira que a Apple tem para fazer isso é reinventar a si mesma. 

A Apple tem que fazer com que eu seja o verdadeiro centro do universo dela, de forma mais concreta do que simples branding. Colocar "i" na frente de tudo não é suficiente.

Ilustração: Wendy MacNaughton