A corporalidade pode ser às vezes muito boa. Ainda com todas as suas vantagens, existem algumas desvantagens em ser preso a um saco de membros e órgãos apodrecendo. Por exemplo: as alergias. Há pessoas inocentes por aí, que não conseguem fazer carinho em um cão amigável sem espirrar, ou comer um amendoim sem morrer instantaneamente.

Essa injustiça é uma peculiaridade adaptativa da evolução — o tipo de coisa que salvou regularmente nossos antepassados de ataques surpresa de ursos, lá atrás – ou seria apenas uma das mil maneiras que nossos corpos têm de nos lembrar de que, no final das contas, eles não estão do nosso lado e poderiam nos matar a qualquer momento?

Nesta semana, no Giz Pergunta, perguntamos a uma série de especialistas dedicados ao tratamento e pesquisa de alergias como as pessoas desenvolvem alergias, assim como a forma como nós, enquanto espécie, as desenvolvemos e se os animais podem ser alérgicos a nós também.

Ruslan Medzhitov

Professor de imunobiologia da Universidade de Yale e investigador no Howard Hughes Medical Institute

Alergias têm um propósito – normalmente, elas são reações de proteção a substâncias ambientais nocivas, fitoquímicos, substâncias irritantes, partículas em suspensão, etc. Todas as reações alérgicas (espirros, tosse, coceira, vômitos e diarreia) têm uma coisa em comum: elas expelem substâncias indesejadas do corpo (pelo trato respiratório, trato gastrointestinal ou pela pele).

Mesmo as pessoas sem alergias têm essas mesmas reações de proteção: quando inalamos partículas de poeira, espirramos ou tossimos; quando ingerimos alimentos estragados, vomitamos; quando entramos em contato com substâncias irritantes, nos coçamos. Essas reações são mediadas por reflexos neurais. Nosso sistema imunológico também pode participar nessas mesmas defesas, e elas visam ser protetoras. No entanto, em pessoas com alergias, essas defesas se tornam excessivas, resultando em alergias patológicas. Nesses casos, as pessoas podem reagir a até mesmo pequenas quantidades de alérgenos. Por que isso acontece com algumas pessoas e não com outras, não sabemos. No entanto, é claro que algo sobre o ambiente moderno é culpado: a prevalência de alergias tem crescido de forma constante ao longo das últimas duas décadas. Nossas dietas baseadas em alimentos processados, o uso excessivo de antibióticos e produtos de higiene são provavelmente responsáveis por essa tendência.

Paul Turke, MD

Antropólogo social “Pediatra darwiniano” e autor do livro a ser lançado Bringing Up Baby

A maioria das pessoas acredita que as alergias resultam de erros do sistema imunológico. Mas isso nem sempre é o caso. Muitas das coisas que tocamos, respirar ou ingerimos são menos benignas do que pensamos. Algumas são toxinas ou irritantes que provocam uma resposta imune e, portanto, algumas das erupções cutâneas, coceiras e espirros que preferimos evitar são provavelmente benéficas.

Por outro lado, não há dúvida de que algumas reações alérgicas são erros. Isso não é surpreendente, dado que o nosso sistema imunológico tem a incrivelmente difícil tarefa de determinar se as substâncias com as quais entramos em contato são prejudiciais ou inofensivas. É uma tarefa difícil por causa do grande número de substâncias que devem ser discernidas, e tudo é tornado ainda mais difícil pelo fato de que muitas das bactérias e vírus que nos infectam são alvos em movimento. Eles são vivos também e, portanto, são selecionados ao evoluir contra-estratégias evasivas, que incluem imitar as proteínas que formam as nossas próprias células e tecidos. Como resultado, nosso sistema imunológico pode se confundir e ignorar as coisas que não devem ser ignoradas, ou não tolerar coisas que deveriam ser toleradas. Nesse último exemplo, alergias e doenças autoimunes são o resultado.

No entanto, outra razão para alergias – especificamente alergias alimentares infantis – é o que é conhecido como “incompatibilidade evolutiva”. É basicamente assim: nosso sistema imunológico precisa ser capaz de tolerar as proteínas nos alimentos que comemos, e parece que o melhor momento para aprender a tolerância adequada é bem cedo em nossas vidas, enquanto somos fetos, recém-nascidos e crianças. Assim, pelo menos hipoteticamente, a chave para o desenvolvimento da tolerância adequada aos alimentos é crescer sob condições em que exposições precoces correspondem de perto com exposições posteriores, como ocorreu ao longo de quase toda a nossa história evolutiva.

Hoje em dia, no entanto (ao contrário de tempos do Paleolítico, quando novos alimentos apareciam apenas muito ocasionalmente), a incompatibilidade entre exposições precoces e tardias é cada vez mais provável. Considere uma mãe que não coma amendoins ou peixe durante a gravidez e amamentação e não os ofereça aos seus filhos quando se tornaram velhos o suficiente para começar a consumir sólidos. Agora, se pergunte: qual é a probabilidade de eles encontrarem esses alimentos ao entrar no mundo em geral, por exemplo na creche, jardim de infância ou na casa de um amigo? Eu argumentei que a probabilidade é agora maior do que nunca, e isso é uma configuração real para o desenvolvimento de uma alergia alimentar.

David B. Corry, MD

Professor e Chefe de Imunologia, Alergia e Reumatologia da Faculdade de Medicina Baylor

Esta é uma pergunta comum para a qual segue indefinida uma boa resposta. Somos ensinados que as alergias são simplesmente uma reação equivocada às coisas que são comuns no ambiente, como proteínas de pólens a ácaros e baratas. A mais sutil, e provavelmente mais correta, noção que está surgindo agora é de que algo acontece com o nosso sistema imunológico para converter nossas respostas “tolerogênicas” normais e respostas não-inflamatórias para pólens inofensivos e outros agentes em eventos inflamatórios que levam a doenças como asma, sinusite, alergias e outras. O evento principal que leva a tais reações imunes indesejáveis cada vez mais parece ser infeções de baixo grau, que muitas vezes envolvem fungos.

Embora as reações inflamatórias geradas pelas infecções fúngicas sejam inúteis contra pólens inofensivos, proteínas de baratas e de ácaros, elas são altamente eficazes contra os fungos e, de fato, representam um meio primário através do qual mantemos infecções fúngicas longe de nossas superfícies mucosas (pele e revestimentos de nossa vias respiratórias e do trato gastrointestinal), impedindo que se espalhe internamente, uma complicação geralmente fatal.

Animais de todos os tipos também expressam alergias, e é provável que mais uma vez os fungos sejam a causa em muitos casos. Animais de estimação com alergias verdadeiras de seres humanos são eventos extremamente raros, embora animais de estimação possam se tornar alérgicos a perfumes e outros produtos químicos frequentemente encontrados em seus donos.

Matthew Greenhawt MD

Professor Associado de Pediatria do Hospital Infantil do Colorado, Escola de Medicina da Universidade do Colorado

Por que tantas pessoas desenvolvem alergias alimentares nos dias de hoje? A maioria das crianças terminando o ensino médio geralmente tem entre seus colegas alguém que teve uma alergia alimentar, embora na época de seus pais e avós provavelmente não. O que mudou em uma geração que aumentou esse problema em nossas vidas? As causas não são claras, e estudos que podem nos mostrar claramente uma causa e efeito são difíceis de projetar e mais difíceis de executar, o que significa que temos de tirar conclusões a partir de estudos que só podem nos contar uma parte do todo. No entanto, apesar dessas limitações, temos algumas teorias principais.

O primeiro é algo chamado de “hipótese da higiene”, que se relaciona com o equilíbrio do sistema imunológico entre os seus dois braços que lidam com infecção e alergia. Como a sociedade evoluiu no século passado, há menos doenças transmissíveis que nossos pais e avós possam ter vivenciado. Por exemplo, meus estagiários hoje em dia provavelmente nunca viram um caso natural de varíola, por causa de uma vacina altamente eficaz contra a doença que cortou significativamente a sua incidência. Há uma enorme quantidade de outras vacinas que têm impedido sarampo, caxumba, rubéola e certos doenças de estreptococos e haemophilus que causam pneumonia e meningite. O sistema imune evoluiu ao lidar com ambas as infecções e inflamação alérgica, mas a diminuição das taxas de infecção pode ter desequilibrado, permitindo que o “braço” da inflamação alérgica tenha se tornado hiperativo. Estamos além das vacinas. Pense na última vez em que você esteve longe de uma garrafa de desinfetante em gel. Nossa sociedade está bem mais “limpa”, o que significa que o equilíbrio dos sistemas está torto, e isso pode contribuir para o reconhecimento das coisas, assim alguns indivíduos reconhecem certos alimentos como “perigosos” e ativam uma resposta imune.

Duas outras teorias merecem atenção também. Uma diz respeito à vitamina D. Muitos americanos são deficientes em vitamina D, apesar das várias fontes de vitamina D – os laticínios talvez sejam a mais conhecida, assim como a exposição da pele ao sol. A vitamina D é um importante marcador de regulação imune, e a falta de vitamina D pode ser associada com o desenvolvimento de doenças alérgicas, incluindo alergias alimentares. Alguns anos atrás, um astuto pesquisador de Harvard notou uma relação inversa entre a exposição solar e a prescrição de epinefrina autoinjetora, o que significa que, nas zonas com menos luz solar (e presumivelmente menos vitamina D), existem maiores taxas de prescrições de dispositivo de epinefrina (que pode inferir taxas mais elevadas de alergia). A segunda teoria tem a ver com o momento de introdução de certos alimentos que são possíveis alérgenos de alto risco.

Anos atrás, com base nos dados disponíveis na época, aconselhamos os pais de crianças com algum risco de desenvolver uma alergia alimentar (histórico familiar de doença alérgica) a evitar intencionalmente alimentos como amendoim, nozes e frutos do mar até que a criança tenha cerca de três anos de idade, para proteger o sistema imunológico em desenvolvimento da exposição que poderia desencadear alergia em algumas pessoas. Como vemos agora, o oposto era a melhor escolha. Nos anos seguintes, vários estudos mostraram que a exposição precoce e deliberada para recém-nascidos de risco era realmente a ação protetora, e não o atraso deliberado. Essa proteção foi demonstrada, bem recentemente, em cinco estudos aleatórios e controlados de introdução prematura de ovo e um estudo da introdução prematura de amendoim, e os Institutos Nacionais de Alergia e Doenças Infecciosas agora recomendam a introdução de amendoim para as dietas de crianças logo que tiverem de quatro a seis meses de vida.

Assim, embora não saibamos exatamente por que as taxas de alergia alimentar dispararam nos últimos 20 anos, temos algumas teorias sobre o que pode estar por trás da taxa. Mais pesquisas são necessárias para tentar identificar melhor as causas e efeitos específicos.

Neeta Ogden

Porta-voz da Faculdade Americana de Alergia, Asma e Imunologia

Alergias resultam de um sistema imunológico hiperativo que percebe determinados alérgenos (alimentos/pólen) como corpos estranhos. Hoje, as alergias tendem a ser multifatoriais. Sabemos que há definitivamente um componente genético. Existe um termo médico chamado de “tríade atópica”, que inclui as condições alérgicas do eczema e asma, assim como a febre do feno e alergia alimentar. Se um pai ou irmão tem uma delas, seus filhos têm o risco de desenvolver alergia em algum momento de sua vida. Normalmente, essas condições da tríade atópica correm juntas, muitas vezes você as vê todas em um único paciente. Isto é chamado de marcha atópica e descreve a progressão natural da doença alérgica, começando na infância com eczema e depois indo para alergia alimentar e rinite alérgica mais tarde. Estas condições podem também aumentar e diminuir ao longo da vida de uma pessoa. Causas ambientais também interagem com os genes que afetam o curso natural da doença alérgica.

Há muitas crianças e adultos que desenvolvem alergias sem qualquer histórico familiar. Nosso entendimento de alergia ainda está evoluindo, mas é provável que isso também seja devido a uma interação da genética com o ambiente. Estudos têm demonstrado que evitar certos gatilhos ambientais, como alimentos altamente processados e o tabagismo, por exemplo, durante a gravidez e na infância pode diminuir o risco de alergias e asma mais tarde na vida. Outros fatores, tais como a vitamina D e o ômega-3 na dieta, a exposição a animais e o microbioma de um indivíduo podem proteger contra alergias.

Os animais podem desenvolver alergias, em particular devido às estações de primavera intensas de pólen que ocorreram nos últimos cinco anos. A mudança climática é outro gatilho ambiental, com temperaturas mais quentes e os níveis de C02 superiores criando um ambiente propício para o aumento nos níveis de pólen. Isso levou a um acentuado aumento em novas alergias sazonais de início principalmente em adultos e semelhantemente leva a sintomas alérgicos típicos em animais de estimação.

A evolução de alergias ainda precisa ser entendida. Como muitas condições médicas, havia menos detecção no passado. Médicos, pais e as pessoas estão mais conscientes de alergias do que jamais estiveram; e estão mais propensos a diagnosticá-los com novas modalidades de diagnóstico avançados.

Imagem do topo: Angelica Alzona/Gizmodo