Os Comitês de Inteligência do Senado e da Casa Branca dos Estados Unidos solicitaram que executivos das maiores empresas de tecnologia apareçam nas audições públicas ligadas à investigação sobre a influência da Rússia na campanha eleitoral de 2016. O pedido acompanha uma semana em que Facebook, Google e Twitter enfrentaram um intenso escrutínio a respeito de campanhas publicitárias estrangeiras que procuraram influenciar os americanos durante as eleições do ano passado.

A audição do Comitê de Inteligência do Senado deve acontecer no dia 1º de novembro. Os convites para o comparecimento foram confirmados por um assessor do Senado com conhecimento das empresas solicitadas; Facebook e Google também confirmaram o recebimento dos convites. Os representantes Mike Conaway e Adam Schiff anunciaram a existência da audiência pública em uma declaração conjunta que não nomeou as empresas de tecnologia envolvidas.

“No mês que vem, faremos uma audiência pública com representantes de empresas de tecnologia para entender como a Rússia utilizou ferramentas e plataformas online para semear a discórdia e influenciar nossas eleições”, disseram os senadores.

O Facebook anunciou na semana passada que pelo menos US$ 150 mil foram investidos por russos em publicidade, durante as eleições. Cerca de US$ 100 mil desse investimento foram pagos por uma empresa com sede em São Petersburgo com ligações conhecidas com o Kremlin; os anúncios publicitários foram espalhados entre 470 contas únicas. Outros dois mil anúncios foram gerados de contas configuradas em russo, utilizando endereços de IP nos Estados Unidos. O Facebook concordou em entregar esses anúncios para a análise tanto do Comitê da Casa Branca quanto do Comitê de Inteligência do Senado. O Twitter deve informar as autoridades do Congresso sobre as campanhas de influência russas em sua plataforma em breve.

Na quarta-feira (27), o Daily Beast noticiou que uma conta fingindo ser uma organização muçulmana americana estava entre os perfis desativados pelo Facebook “como parte de seu reconhecimento das atividades inautênticas substanciais ligadas a Rússia”. A página, que possuía 268 mil seguidores, era utilizada para espalhar memes falsos de que o Senador John McCain – um forte inimigo do Kremlin – teria ajudado o grupo terrorista Estado Islâmico. Outras publicações alegavam que a candidata Hillary Clinton “admitiu que a #America criou, financiou e armou os terroristas da Al Qaeda e Estado Islâmico” (o Facebook se recusou a comentar a reportagem do Daily Beast, mas não colocou suas descobertas em xeque).

Muitos dos anúncios falsos descritos até agora parecem apoiar a campanha de Clinton numa primeira olhada; mas seu verdadeiro propósito aparentemente era agitar os eleitores conservadores. O Washington Post noticiou nesta semana que algumas das publicidades ligadas à influência russa tentava inflamar o ressentimento em relação a Clinton, destacando mulheres muçulmanas que a apoiaram. Além disso, as publicações atribuídas aos russos teriam promovido o grupo Black Lives Matter, ao mesmo tempo em que outros anúncios – presumivelmente visando um perfil demográfico diferente – retrataram o grupo como “uma crescente ameaça política”.

Os democratas parecem divididos sobre como abordar o tema que é cada vez mais visto como uma ameaça crescente de um rival estrangeiro no processo eleitoral dos EUA. O senador Mark Warner chegou a rascunhar uma legislação com a senadora Amy Klobuchar que exigiria que o Facebook e outras redes sociais revelassem quem paga pelos anúncios publicitários políticos e quais públicos estão sendo atingidos. Outro grupo de democratas, incluindo o senador Ron Wyden, pediu para a Federal Election Commission (Comissão de Eleição Federal dos EUA) tomar o controle e impor novas regras para a publicidade política online – uma ideia que o Facebook se opôs veementemente antes.

Nenhuma solução possui o apoio de ambos os partidos, e atualmente existe apenas um Democrata na Federal Election Commission. Isso parece deixar executivos como Mark Zuckerberg quase inteiramente no controle sobre como os anúncios políticos na internet são tratados – mesmo aqueles que foram veladamente lançados por agentes estrangeiros com o objetivo de minar as campanhas presidenciais americanas.

Zuckerberg anunciou na semana passada que o Facebook aumentaria o controle sobre anúncios políticos e exigiria que fossem acompanhados de divulgações que revelassem a página que os financiava. Mas, atualmente, a empresa não tem nenhuma obrigação legal de fazê-lo.

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