O fim do Google Reader ainda ecoa. A decisão de fechar o serviço que, apesar de pouco apelo entre usuários comuns, era amado por gente de TI e comunicação, recolocou sob os holofotes a questão da gratuidade da web. Afinal, pagar é a solução para que suas ferramentas sejam eternas?

O modelo de negócios do Google é diferente do que estamos acostumados a ver no capitalismo tradicional, onde a demanda gera a produção e o que os donos dessa cobram garantem o lucro. Para entender melhor, é preciso ter em mente que: 1) os usuários do Google não são seus clientes; 2) os usuários, nós, somos na realidade o produto; e 3) o Google (também) é uma empresa de publicidade.

Tendo isso em perspectiva fica fácil entender como o Google faz dinheiro. A mágica está nos anúncios, esses em texto que aparecem nos resultados da busca, no Gmail, em sites diversos (via AdSense) e em apps para celulares e tablets. Tem muita empresa que veicula anúncios, mas poucas lucram tanto como o Google. O segredo está em duas palavras: escala e personalização.

A escala é óbvia: milhões de pessoas usam os serviços do Google diariamente. A audiência está ali. A personalização é o que garante taxas de clique e, mais importante, taxas de conversão interessantes. Para dar essa cara única aos anúncios para cada usuário, o Google colhe informações deles, hábitos de navegação, o que for possível através da sua oferta de aplicações gratuitas. Juntando isso ao AdWords, que é bem eficiente, as engrenagens funcionam e PROFIT.

Onde o Google Reader entra aí?

Esta pergunta devia estar rolando há anos em Mountain View sem ter uma resposta satisfatória. O Google está mais focado, menos aberto a projetos arriscados, experimentais. É muito difícil sair um Reader, ou um Orkut hoje. Eles apostam em umas coisas bem malucas e meio complicadas de inserir na vidas das pessoas, como o carro autômato e o Glass, mas essas são experiências futurísticas que, se não geram lucro ou informações para o data mining massivo do Google, ajudam a moldar a imagem da empresa como a de uma de olho no amanhã.

Pensando no hoje, a ideia é focar esforços na coleta mais extensa e eficiente de dados do usuário. Se você não entende por que o Google+ existe, aquela cidade fantasma que manda menos visitantes para os sites do que o Reader mandava, isso pode lhe dar uma boa pista. A moeda do Google é a sua informação. Assustador? Um pouco, mas é um risco que muitos aceitam pagar, conscientes ou não, por serviços de ponta, extremamente confiáveis, rápidos, avançados. Há toda uma psicologia e muitos estudos por trás desse assunto comprovando a eficácia dessa abordagem. Não à toa Google e Facebook são o que são.

O Reader foi descontinuado em parte porque não contribuía muito para aumentar essas estatísticas. Era legal, mas só geeks e profissionais de comunicação usavam. Era útil, mas pouca gente o acessava direto da interface web, através do próprio Google. E a base estava em declínio. Culpa nossa que gostamos de um serviço pouco popular e gratuito? Não mesmo. Mas a culpa por estarmos órfãos agora tampouco é do Google. A culpa é de todo mundo e não é de ninguém.

Usuários não têm poder, empresas não têm compromisso

Se pararmos para pensar, o Google Reader durou um bocado. Ele foi lançado em 2005, ficou na ativa por mais de sete anos. O Reader subverteu a lógica e, numa área onde serviços nascem e morrem em intervalos curtíssimos, permaneceu no ar (ainda que a contragosto da sua genitora) por quase uma década. Ainda assim ninguém estava preparado. O Reader monopolizou um segmento e ninguém se preocupou muito em imaginar um cenário, agora concreto, onde ele deixa de existir.

Você, como usuário, deveria ter isso sempre em mente.

Porque as coisas podem mudar de uma hora para outra, e isso vale para serviços pagos também. Muito bem pagos, inclusive. Quem comprou o Sparrow ficou chupando dedo com a venda da empresa para o Google. Vai fazer o quê? Petição online?

O nosso erro foi confiar cegamente em uma solução. A mesma facilidade que há em lançar um serviço na web permite que ele seja fechado. O Google, inclusive, está sendo legal por permitir o download do OPML para exportá-lo para outro agregador de feeds e ter anunciado o encerramento do Reader com quase três meses de antecedência. Não havia obrigação disso — e muitos serviços já deixaram usuários na mão de uma hora pra outra.

O que VOCÊ pode fazer

“Para onde correr?” é a pergunta que nos fazemos agora. Um monte de gente está se mexendo para criar ou melhorar os seus agregadores de feeds, do Feedly ao Digg (!). (Isso é legal e embasa a teoria, defendida aqui, de que o fim do Reader poderá representar um renascimento do RSS. Mas esse é outro papo.)

Antes de se jogar no novo app de email sensacional, na nova rede social descolada, na nova ferramenta que vai melhorar muito o seu workflow, pare, pense, analise. Especialmente para aplicações na nuvem, onde ela própria reside em servidores remotos e, se for encerrada, se perde por completo, todo cuidado é pouco porque turbulências são inerentes ao ambiente, como nos diz Marco Arment:

“Nesse negócio, espere turbulências. E isso tende a ser mais e mais problemático na medida em que (piada não intencional) nos movemos mais para ‘a nuvem’, que normalmente significa serviços controlados por outros, projetados para uso limitado ou não uso de armazenamento local dos seus dados.”

Espere um review do Giz, espere a ferramenta amadurecer. Muitas variáveis influenciam a sobrevivência de uma aplicação. Para piorar, a maioria delas não envolve a aplicação em si, mas as condições para a sua existência — financiamentos, investimentos, fluxo de caixa, popularidade etc.

A regra vale para todo e qualquer serviço, pagos ou gratuitos. Vale, inclusive, para a sua vida como um todo. E se você for demitido? Tem que ter um plano “B” na manga, uns trocados para se manter até conseguir um emprego novo.

Apesar desse alcance, o debate que o fim do Reader desencadeou acabou degringolando para a volatilidade dos serviços gratuitos. Sugestão? Mantenha o pé ainda mais atrás com eles. Não digo aqui que o simples fato de ser gratuito condena um serviço à morte (raciocínio meio absurdo), mas é inegável que aumentam as chances de que ele mude de uma hora para outra, de que seja vendido ou descontinuado. Ninguém vive de ar, acredite ou não desenvolvedores são pessoas como eu e você, que precisam comer, se vestir e, se o trabalho que fazem não dá retorno, a matemática não bate. Saída? Partir para outra ou ser absorvido por uma empresa maior. Você já viu esse filme mais vezes do que Lagoa Azul na Sessão da Tarde.

Por isso, se a sua aplicação favorita ou aquela da qual seu trabalho depende tem uma versão paga, compre-a. Não tem? Faça uma doação. Como diz Farhad Manjoo, “se os heavy users como eu não pagarem, ninguém irá.” E é aí que devemos colocar a mão na consciência e escolher, com calma e cuidado, os serviços que mais amamos e que mais merecem nosso dinheiro.

Um Evernote, um Dropbox, um Rdio justificam, do ponto de vista financeiro (e é para isso que tudo nessa indústria é feito), suas existências. O que se paga por eles não é garantia de nada, amanhã qualquer um pode morrer na praia ou ser comprado e destruído pelo Google, mas as chances são, inegável e definitivamente, menores. Em outra frase feliz de Manjoo, ele diz que “empresas que recebem seu dinheiro no mínimo dão sinais de que o software é tão importante para elas quanto para você”. É uma linha de pensamento sensata, mas independentemente do quão comprometida a empresa seja, em todos os casos siga outro conselho de Arment e tenha sempre um pé do lado de fora: esteja sempre pronto para partir. [Imagem: Ken Hawkins/Flickr]