Em janeiro, o programa americano de rádio This American Life mostrou o emocionante relato de Mike Daisey sobre as condições de trabalho na Foxconn, que fabrica produtos para Apple, Samsung, Nokia, HP, Dell e outras. Daisey conta, por exemplo, que encontrou um idoso cuja mão direita foi esmagada por uma prensa da fábrica. Ele trabalhava na estrutura de metal do iPad, mas nunca tinha visto um. Quando Daisey sacou seu iPad da bolsa, o idoso tocou a tela com sua mão destruída e disse, “é como se fosse mágica”. Que história, não? Pena que é falsa.

Mike Daisey foi desmascarado. O repórter Rob Schmitz, do programa Marketplace, conversou com a tradutora que acompanhou Daisey em sua viagem a Shenzhen, China. E ela nega inúmeros detalhes sobre a história de Daisey. Guardas armados na entrada da fábrica? Menores de idade trabalhando em linha de montagem? Funcionários envenenados com n-hexano, uma neurotoxina em potencial? “As mãos deles tremiam incontrolavelmente” devido ao hexano, diz Daisy. Mas Cathy Lee, a tradutora, nega tudo: ela acompanhou Daisy por toda a viagem, e não viu nada disso. O próprio Daisey confirmou que vários detalhes são falsos.

Então o programa This American Life se retratou. Ira Glass diz: “Daisey mentiu para mim e para Brian Reed, produtor do This American Life, durante a verificação de fatos que fizemos para a história, antes de ela ir ao ar. Isto não justifica o fato de que jamais deveríamos ter levado isto ao ar. No fim, o erro foi nosso.” O programa desta semana será dedicado exclusivamente à retratação, enquanto o programa de janeiro – o mais popular da emissora, baixado 880.000 vezes – saiu do ar; sobrou apenas a transcrição.

Mike Daisey é conhecido por seu monólogo chamado “The Agony and the Ecstasy of Steve Jobs” que ele apresenta desde 2010. Nele, Daisey se inspira nos abusos que sofrem os funcionários na fábrica da Foxconn em Shenzhen. Ele ganhou popularidade e recentemente apareceu em todo lugar: jornais, revistas, televisão, internet. Mas agora que ele foi desmascarado, a próxima apresentação do monólogo foi cancelada. Daisey também se retratou, e se defendeu:

Eu defendo o meu trabalho. Meu show é uma peça teatral cujo objetivo é criar uma conexão humana entre nossos belos dispositivos e as circunstâncias brutais das quais eles emergem. Ele usa uma combinação de fato, biografia e licença dramática para contar sua história, e eu acredito que isto é feito com integridade. Certamente, as investigações abrangentes realizadas pelo New York Times e vários grupos de direitos trabalhistas para documentar as condições na manufatura de eletrônicos parece suportar isso.

Se Daisey quis ganhar dinheiro inventando histórias tristes sobre as fábricas da Foxconn, bem, não podemos fazer nada. (Ele agora publicou a peça em licença aberta: quem quiser usá-la não precisa pagar royalties.) Mas mentir e usar sua peça de teatro como fato foi um grande erro. Ele está certo em um ponto: as condições de trabalho na Foxconn precisam melhorar muito, e precisamos pressionar as fabricantes – mas não com ficção. [Marketplace e This American Life via Gawker]