Como um iPhone defeituoso pode ser o melhor de todos? Entenda como:

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Estou em um jantar. A garçonete é lerda na hora de anotar meu pedido. Eu não ligo. Eu procuro em meu bolso pelo iPhone 4. Parece que é a quinta vez que eu faço isso essa noite. Provavelmente é a décima quinta.

É quase impossível dizer qual lado é a parte frontal. Ambos são escorregadios e oleofóbicos e cheios de impressões digitais – planos, delicados e resistentes. Eu concordo superficialmente com qualquer coisa que minha esposa diz. Minha mente está muito ocupada se concentrando nas sensações de toque, manejando-o para que a tela fique do lado certo quando ela surgir de seu esconderijo.

Vitória. Deslize para destravar. Apenas uma barra de sinal de novo. Assim que eu o saco de meu bolso, a recepção volta. Eu nunca tive esse tipo de problema com os três iPhones antigos.

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A tela é a primeira coisa que me chama a atenção, naturalmente, porque é a única coisa que eu não pude testar quando eu vi esse telefone em Abril.

Enfiar mais pixels em um espaço menor é o oposto do que a Apple fez com o iPad, que usa relativamente menos pixels em um espaço maior. Então por que as duas telas são fantásticas?

O iPhone 4 tem tantos pixels novos que eu não posso vê-los individualmente a olho nu. Quando tento, só consigo desfocar meus olhos quando o celular está muito perto da minha cara. É um dos pontos que os usuários do iPhone 4 devem se orgulhar, caso você não seja um dos poucos azarados que receberam manchas amarelas ou brancas no aparelho.

Então, a frustração me domina. Por que ele tem tantos pixels novos se eu não posso ver mais coisas na tela? Por que ele ainda tem as mesmas sete fileiras para escrever texto e oito fileiras de itens no aplicativo do iPod que eu já vi há três anos, enquanto ele tem quatro vezes mais pixels? Fotos e vídeos ficam ótimos, e escrever é bem nítido, mas elementos da interface do usuário precisam de atualizações. Ter apenas cinco e-mails simultaneamente visíveis nessa tela é uma vergonha. Pelo menos me dê a opção.

Mas a tela em si é ótima, ela tem mais pixels num espaço menor do que qualquer outro telefone que eu já usei. Ela é nítida. É possível ler pequenos textos e tudo fica melhor. Eu o levo para a rua. Ela não é mais brilhante ou mais visível no sol, mas tudo fica ótimo. O que mais eu posso esperar de uma tela?

Quando eu olho para a tela, tenho a mesma sensação de quando eu termino o último pedaço de um bolo de sorvete: eu quero mais disso. Meu Dell de 30 polegadas, minha TV da Samsung de 63 polegadas e meu iMac de 27 polegadas têm mais pixels, mas a primeira reação quando eu os vi foi como isso é enorme. Quando eu olhei para a tela do iPhone, a reação foi uau, tudo é tão nítido. Agora me dê algo maior E mais nítido.

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O telefone brilha por causa do reflexo do vidro exposto. Fim do plástico. Muito mais alumínio. Ele parece e passa a sensação de ser… mais quebrável.

Como é algo que está quase sempre presente, eu entendo a necessidade de um case. As pessoas derrubam coisas. Chaves são inconscientemente apertadas, jogadas e usadas contra sua superfície. Telefones precisam descansar. Mas o iPhone 4 tem mais chances de ser danificado do que seus antecessores. Vários locais comuns de descanso de celular agora estão proibidos. Um case parece ser obrigatório.

No entanto, adquirir um case pode significar a derrota. O design do aparelho – vidro e alumínio industrial – foi feito para ser a imagem pública do iPhone. Ele nunca deveria ficar sufocado por plástico para protegê-lo do perigo, ou ficar enrolado numa borracha fazendo a função de escudo da antena ante à interferência humana. Se o iPhone foi feito para ter um case, ele deveria ser vendido com um case. Anexado. Fora da caixa.

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Toque, Toque. Twitter. Deslizar. Toque. New York Times. Pinçada, Pinçada. E-mail. Mapas. Fruit Ninja. Fotos. Vuvuzela. Cada toque parece ter melhor resposta do que o 3GS, que reagia ainda mais do que o 3G.

Deslizo. Deslizo. Deslizo de novo. Há um atraso numa zona morta de meia polegada no canto do telefone. Quando deslizo desse ponto, nenhum movimento é registrado. Eu tento a mesma coisa nos iPhones antigos. Estranhamente, o problema sempre esteve lá, no 3G e no 3GS, mas eu só percebi agora porque não existe mais moldura e agora é tudo vidro. Não existem limites para me guiar.

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Matt Buchanan me lambe. Ou melhor, ele coloca sua língua para fora na câmera frontal numa conversa pelo FaceTime. Eu gostei disso mais do que deveria!

As respostas de Matt soam claras, nossas respectivas correntes com a AT&T são quebradas, nossas caras e vozes são transmitidas fluidamente por Wi-Fi. Finalmente, um tipo de chamada de vídeo para todo o mercado que terá audiência o suficiente para ter uma chance de sucesso. É divertido. Útil. Futurístico. Fácil. Meus pais poderiam fazer isso. (Até eles não conseguirem, e me pedirem ajuda.)

Mas o segredo é que eu estava olhando Matt bem em seus olhos – quando ele não estava mostrando a língua. A câmera e a tela ficam tão perto que elas criam a ilusão de que existe uma câmera nos olhos do Matt – então eu realmente sinto que nós estamos conversando cara a cara. Quando eu falo com alguém pelo Skype no laptop, eles sempre estão me olhando em suas telas – longe de suas webcams.

Eu dou tchau ao Matt. Eu espero só ter de ver a cara dele numa conversa por telefone em 2011. A voz é o suficiente para a maioria. Ele não é minha esposa.

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Num passeio de carro com amigos para um lugar que eu não conheço, o Nexus One é o melhor para a corrida por causa do Google Maps Navigator (LM: que infelizmente ainda não está disponível no Brasil). Não há nenhum aplicativo de navegação curva-a-curva gratuito, fácil de usar e decente no iPhone 4.

A solução? 50 dólares num aplicativo. Eu não tenho 50 dólares. Não para esse tipo de coisa. Principalmente quando meu carro tem sistema de navegação. O iPhone é capaz de dar informações curva-a-curva desde que o 3GS adicionou um chip de GPS. É hora de uma solução melhor – vinda da Apple.

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“Você pode me mostrar o esquema de chat por vídeo?”

“Não posso. Não tem Wi-Fi aqui.”

Frustração? Raiva? Constrangimento? Nenhum desses. Eu sinto que deixei alguém triste.

Não existia limitação alguma em Star Trek. O capitão Riker não precisava de um hotspot por perto para poder conversar com a Farpoint Station. James Bond não precisava procurar um Starbucks para falar com a Q. O Batman não precisava… Batman não precisava fazer nada que ele não quisesse fazer. Por conta do seriado ter mais de 70 anos, é claro que o Dick Tracy tinha toda a rede da AT&T só para ele, para fazer suas vídeochamadas.

“Mas, ei, ele tem uma tela melhor”.

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Sentado na mais íntima das cadeiras, eu assisto a vídeos pré-carregados em HD no YouTube, ficando mais impressionado com a qualidade da tela. A qualidade é restrita em relação ao vídeo original, mas mesmo assim, eu estou impressionado.

Fico entediado e saio do aplicativo, passando entre fotos da lua-de-mel e checando vídeos em 720p feitos no Japão; cada pixel é uma pequena fração de uma memória maravilhosa que valeu a pena, mesmo com a taxa de câmbio. Me faz querer estar em Tóquio nesse momento, com suas washlets da Toto em cada casa, escritório ou local público. Mas então eu penso, quanto espaço essas fotos e vídeos enormes estão ocupando?

De volta ao meu iMac, eu checo a informação. Os arquivos têm 3.26 GB. As mesmas fotos ocupavam apenas 1.6 GB no 3GS. A mesma coisa nos vídeos.

Nós vamos precisar de uma memória flash maior.

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Não é meu aniversário.

Eu uso a música de parabéns pra você como um teste rápido de qualidade de voz, porque ela tem mudanças inerentes de tom e altura. É uma música rápida, em casos de necessidade. Eu não me arrisco cantando os oito minutos e meio da música Won’t Get Fooled Again. Mesmo sabendo que fazer a Rosa Golijan cantar isso dez vezes seguidas praticamente justifica o preço do iPhone 4.

O teste de qualidade de chamada que nós fizemos bate com o que eu percebi durante o uso diário.

Um amigo meu parece surpreso por ouvir minha voz. Eu não ligo para ele faz tempo, normalmente optando pelo MSN ou pelo e-mail, porque nós estamos em 2010 e não somos velhos. Muitas pessoas estão telefonando hoje por causa do iPhone 4, em nome da ciência.

Mais de uma vez meus amigos-cobaias ficaram surpresos ao saber que eu estava alternando a chamada entre o microfone padrão e o alto-falante. O microfone duplo com cancelamento de ruído faz uma diferença enorme na hora de filtrar o barulho ambiente para o alto-falante. Mas ligações comuns não estão muito melhores do que antes, levando em conta que eu não estou cercado por vuvuzelas.

“Obrigado, nos falamos mais tarde. Tchau."

Eu olho para baixo, confuso. Botões aleatórios foram pressionados sem aviso pelo meu rosto. Meu rosto não mudou muito desde a época que eu usava meu 3GS, há poucos dias. Anote esse problema na pilha de “coisas-para-arrumar-no-iOS-4.01”.

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Eu continuo ouvindo variações da mesma piada quando converso sobre o iMovie no iPhone 4. “Você mal podia editar vídeos no seu computador dez anos atrás.”

Minha cabeça chacoalha concordando. É verdade. Eu estou surpreso em quão rápido o iMovie é, juntando clips, adicionando temas, fazendo títulos e transições de imagem. Exportar? Demora praticamente a duração do vídeo, em resolução média.

Então eu tento fazer o upload de uma filmagem com 720p nativos para o YouTube direto do celular.  É minúsculo! E granulado, mesmo depois de deixá-lo renderizando por um dia. E borrado, e absolutamente não é 720p. Como isso aconteceu? Seria melhor se eu fizesse o upload via Wi-Fi, ou tivesse mandado o vídeo pelo e-mail para mim mesmo e feito o processo em outro lugar? Não. Cada uma dessas opções diminui a qualidade do vídeo antes de tirá-lo do telefone.

Eu descobri que o único jeito de capturar e enviar um vídeo com completos 720p do meu celular para o YouTube é colocando-o primeiro num computador. Os sonhos de filmar em HD pelos campos, fazendo o upload via HSUPA, e sem ter de fazer nenhum tipo de processo extra-filmagem no computador se esvaíram. Por que eu editaria um vídeo no iMovie no celular se eu tenho de colocar o resultado final num computador para poder fazer o upload com a resolução total?

É culpa da AT&T de novo?

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Brian Lam me liga, empolgado, e pede para eu adivinhar onde ele está.

“Em casa.”

Ele não era capaz de fazer uma ligação pelo iPhone de sua casa sem que ela caísse há mais de um ano e meio. Ele teve de recorrer ao uso de um Microcell. Ele me disse que desligou o aparelho.

São seis minutos de ligação. O iPhone 4 é mais esperto, escolhendo torres de sinal que podem realmente aguentar chamadas, em vez de procurar apenas aquelas com sinal mais forte.

“Você pode me ouvir? Eu posso ouvir você.”

Parece que ele acabou de ir ao banheiro, encheu a banheira e mergulhou seu celular. Claro, ele pode fazer ligações agora, mas há algo que ainda impede o aparelho de fazer ótimas chamadas. Depois de trinta segundos, a ligação cai. Seria melhor se nós tivéssemos usado o FaceTime, talvez.

Atualização: Na realidade, agora o iPhone 3GS está atingindo milagrosas 5 barras de sinal na casa do Brian. Então, ao que parece, houve uma mudança de torres, ou uma instalação/atualização pode ter acontecido recentemente.

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Eu estou lendo um capítulo do livro Shit My Dad Says na cama, tentando não incomodar minha esposa. Há bem pouco cansaço nos olhos, embora eu não tenha certeza se conseguiria chegar até o final do livro lendo-o assim. Mesmo para amantes de e-books, o tamanho do celular é pequeno demais para representar precisamente um “livro”. Isso me obriga a virar a página muitas vezes, como se ele fosse uma anedótico iPad mini. A virada de páginas tem resposta suficiente para ser agradável.

Juntando um ano inteiro, eu provavelmente pouparia sete horas acumuladas por não esperar as páginas dos livros renderizarem, os aplicativos carregarem e  na hora de redimensionar fotos, comparando com a velocidade do 3GS. Eu não posso voltar.

Agora é hora de achar um bom uso para essas sete horas.

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Ele não é muito fino? Não é muito delicado? Eu estou com medo de segurá-lo, eu nunca fiz isso antes.

Eu vou brincar com meu coelho. Quando eu o pego no colo, ele se contorce, como se eu nunca mais fosse deixá-lo sair de lá pelo resto da eternidade. Eu tento me abaixar até o chão o mais rápido possível antes que ele arranhe meus braços e salte das minhas mãos. Ele consegue ajustar seu corpo para aterrissar em pé, absorvendo quase todo o impacto nas áreas menos prejudiciais.

Esse iPhone não consegue. O iPhone 4 não é resistente à quedas como um coelho.

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Enquanto minha espoça dirige até o McDonalds, eu tenho a oportunidade de dar uma olhada no e-mail, no Twitter, no Giz e nos últimos episódios do Adam Carolla Show, movendo para trás e para frente com a rápida troca de apps do iOS 4. Dobrar a capacidade de RAM para 512 MB é como um fazer um gás se expandir para preencher um vácuo – os programas acharão um uso para isso. Juntamente com as transições mais suaves, graças ao processador mais rápido, cada troca entre programas flui muito bem. As coisas se mantêm atualizadas, prontas para mim quando eu precisar delas.

Tento largar um pouco o telefone, apenas até o momento em que eu ficar entediado novamente no próximo farol vermelho.

A última vez que eu carreguei o celular foi ontem de manhã, e já passou do meio-dia de hoje. 20% – nada mal. Melhor do que o 3GS, porque sua bateria é maior. Mesmo assim, que bom que eu desliguei o Bluetooth.

Outro farol vermelho. Eu estou enjoado… possivelmente vou vomitar. Mas eu não consigo parar de mexer no telefone.

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Sexta à noite. O cara da Hypermac me surpreende em minha mesa.

“Você está aqui com sua família?”

“Sim! Você trouxe seu iPhone 4?”

Ele faz um gesto e o tira do bolso fazendo o movimento da Miss Area Woman. Eu sorrio.

“Sim.”

Três anos atrás, uma garçonete pediu para ver meu iPhone da primeira geração. Eu mostrei para ela. Dez minutos se passaram. Ela esqueceu de anotar meu pedido. Eu esqueci também, até a hora que ela foi embora.

Hoje a garçonete não está tão impressionada. “Ah, esse é o novo iPhone? Meu namorado tem o antigo. Nesse aí as ligações caem menos? Ah, isso é bom. Então, o que você vai comer?”

O ar de novidade se foi, mas isso não quer dizer que as pessoas não estão empolgadas.

Eu mando uma mensagem para Mark Wilson e para  Matt Buchanan. Ambos respondem o SMS em um minuto – o mais rápido que eu já os vi respondendo nos últimos seis meses. É óbvio que ambos estavam fuçando em seus novos iPhones, ou pelo menos, estavam com ele bem perto.

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Eu estou tirando fotos da minha comida. Eu não sei porquê – eu já estive aqui antes, e eu voltarei outras vezes. Tem mais a ver com o ato de tirar fotos do que com o resultado, que é nada além do que uma foto do que eu estou comendo. “Para lembrar disso”, eu penso comigo mesmo. Mas eu não lembrarei. Eu posso não lembrar como estava o sabor da comida, ou o que aconteceu, e eu sinceramente nem preciso disso. Há evidências. E agora a evidência é mais clara e saturada, por conta de lentes melhores e processamento mais inteligente. As cores saltam. Elas parecem mais deliciosas do que o prato que está na minha frente.

Eu tiro algumas fotos em macro bem próximas do meu coelho. A câmera responde mais rápido do que eu esperava – mais veloz do que outras câmeras de celular. Às vezes, no entanto, não rápida o suficiente. Coelhos são rápidos.

Eu chego mais perto. O autofoco entra em ação, criando fotos com renderização alaranjada que eu terei de arrumar no computador. Gostaria que ele tivesse um balanço de branco.

Eu chego ainda mais perto. Eu chego ao limite, e as fotos viram borrões.

O coelho cheira o telefone.

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Tudo está mais nítido. Eu começo uma nova mensagem e o novo som do teclado faz o teclado do 3GS parecer confuso. Os alto-falantes são mais claros também, mas um pouco mais suaves.

A tela inicial. Os botões de volume. O botão de ligar/desligar. A tela em si. Tudo é mais claro, nítido, mais angular. Toda a suavidade se foi. A parte traseira arredondada, a estranha casca de tartaruga, se foi. Ele é sólido. É um telefone sólido. Trinta vezes mais sólido do que plástico, como a frase publicitária repetida tantas vezes diz. Mas a solidez continua quebrando, como nosso amigo Ryan testemunhou.

Ele foi criado desse jeito. E isso é provavelmente um erro.

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Os engenheiros perderam. O design industrial venceu.

Os problemas na antena, confirmados pela própria Apple, são o sintoma de um problema que vai direto no coração do processo de produção da Apple. O lado direito do cérebro venceu o lado esquerdo do cérebro. Todos nós sofremos.

Eu estou fazendo uma ligação, tentando me ajustar ao telefone, segurando-o na parte de cima em vez de segurá-lo na parte inferior, para não acabar com o sinal. O que aconteceu com o marketing da Apple para o iPad, que dizia que o aparelho se ajustava a você? Por que eu estou tendo de mudar o jeito que eu seguro celulares, que é o mesmo há uma década, para evitar um problema de design? Ele parece um alienígena. E parece que eu posso derrubar meu celular.

Então eu esqueço. Minha mão desce para a posição que ela se acostumou, cobrindo a antena com puro suor e carne humana. A ligação se mantém. Há um pouco mais de distorção na voz, mas eu consigo ouvir a outra pessoa sem problemas. Eu tenho sorte de morar em uma das áreas com melhor cobertura da AT&T. Aqueles com recepção medíocre sentem com mais força o impacto do problema, que já foi documentado, quando seguram o celular na posição fatal.

Eu estava brincando com o celular via 3G, passeando por mapas, procurando coisas no Twitter, checando o e-mail. O celular que parecia cheio de vigor fica sem fôlego. Não há alternativa para a posição fatal quando eu seguro o telefone na mão esquerda e o toco com a direita – que é o único jeito que eu consigo navegar no celular.

Eu não quero comprar um case.

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Como a minha camcorder da Sanyo de 500 dólares, que eu comprei naquela viagem ao Japão, se sente ao ser ultrapassada por uma câmera de 720p de celular? Do mesmo jeito que as outras câmeras point-and-shoot e camcorders estão se sentindo ao serem engolidas pela câmera que todo mundo tem em mãos – aquela presente em seu celular. E, diabos, esse celular faz imagens melhores do que a maioria desses modelos que tem apenas uma função.

Minha câmera Sanyo de 1080p é fantástica. Ela tem mesmo mil e oitenta pês. Alguém até me enviou um e-mail perguntando que câmera eu usei quando subi no YouTube um vídeo com meus problemas de recepção de sinal. Mas não tem como eu ficar carregando-a por aí, até porque ela é um pouco maior do que meu punho. Só há espaço para um punho em cada um dos meus bolsos, e um deles já está apaixonado por outro aparelho.

O iPhone ficará lá. É a câmera que conta, a câmera que estará com você num acidente de trânsito, quando alguém for fazer algo idiota, quando você estiver fazendo algo que nunca fez antes.

Mas eu tenho que escolher: será que eu coloco mais conteúdo consumível no meu telefone ou economizo espaço nos 32 GB para guardar minhas memórias?

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Meu pai me liga. Ele precisa consertar a impressora, ou esqueceu como logar no Gmail, ou ele teve uma recaída na síndrome de pessoas idosas e esqueceu completamente como usar um computador. O motivo pouco importa.

Ele me pergunta sobre o novo iPhone. Eu recomendo que ele não compre um.

“Você faz um monte de ligações, diferente de mim. Além do mais, a AT&T é caótica na região em que você mora. Para completar há o problema de recepção de sinal, que fica exacerbado* quando o sinal está mais baixo. De resto, ele melhorou em vários aspectos. Mas fique com o que você já tem.”**

* Eu não usei a palavra “exacerbado” no telefone.

** Além disso, essa conversa aconteceu em chinês.

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Flash

Eu surpreendo, quer dizer, assusto, minha mulher com o flash do iPhone no escuro. Ela não está se divertindo. Eu estou. Eu sou uma criança.

Agora há luz onde não havia luz antes. Os bêbados dos bares de Nova Iorque ficarão mais claros nas fotos agora, iluminando várias conquistas e troféus para jogar no Facebook no dia seguinte, todos com a pupíla bem pequena para se ajustar ao brilho exagerado. Não é perfeito, mas é melhor do que não ter flash.

Eu imagino milhares de flashes desses malditos iPhones pipocando no próximo jogo de basquete que eu for, iluminando um metro à frente dessas pessoas, fazendo a careca do cara sentado na fileira 27 parecer impressionantemente limpa. Kobe Bryant, no entanto, continuará sendo iluminado pelas lâmpadas fluorescentes do Staples Center.

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Eu continuo pegando o telefone, fuçando em suas coisas, e procurando coisas para fazer nele. Eu quero usá-lo.

Eu não posso mais voltar para o 3GS. A velocidade, a câmera, a tela, a ausência da corcunda, a vídeochamada. Uma vez que você tem isso, você não pode largar mais.

Mas eu estou assustado. Não com a perda de chamadas porque eu estou segurando-o errado – eu não faço muitas ligações, e quando as faço, elas não são tão urgentes que eu não possa ligar de volta. Além do mais, eu tenho uma linha de telefone comum, com um telefone igual ao do Batman, que funciona bem. Eu estou assustado com os dados. Eu nunca mais vou conseguir segurar o celular normalmente porque eu tenho medo de ficar com um quarto da velocidade que eu tinha antes. Como um pai que tem uma criança muito preguiçosa ou com dificuldades de mostrar seu potencial, eu estou frustrado e confuso e triste. Você o ama muito, e não quer desistir dele, mas algo está errado. Mas como a maioria dos pais, eu foco nas suas qualidades positivas. A velocidade, a câmera, a tela. Mas e se ele fizer birra quando eu segurá-lo errado? Oras, ele é meu garoto.