\ [Review] Moto 360: o melhor smartwatch ainda precisa ficar mais esperto

Ao anunciar o Android Wear, o Google deu uma palhinha do que seria o Moto 360. Era, de longe, o smartwatch mais bonito que nós tínhamos visto. Depois de muitos meses, ele finalmente chegou ao mercado (e desembarcando no Brasil por R$ 799). Este é o melhor aparelho com o sistema até agora, mas ainda tem um conjunto de problemas que cabe ao Google resolver.

O que é?

É um smartwatch que funciona com smartphones Android (versão 4.3 ou superior), essencialmente agindo como uma segunda tela para o seu aparelho. Ele mostra suas ligações recebidas, mensagens de texto, emails e permite que você os responda usando a voz. Ele mostra cards do Google Now para manter você atualizado com informações que, teoricamente, interessam a você. Ele mostra rotas curva-a-curva, permite que você traduza palavras e frases, e tem um conjunto de sensores que ajudam você a se manter em forma. E ele ainda é lindo.

Para quem é?

Pessoas que usam Android. Pessoas que querem ter o que há de mais recente na tecnologia. Obcecados por produtividade. Corredores e ciclistas. Pessoas que usam relógios.

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Design

Sim, ele é mesmo absurdamente bonito. Isso é subjetivo? Sim, óbvio, mas também há um consenso geral entre nerds de design, entusiastas em tecnologia e pessoas aleatórias para quem eu o mostrei. É discreto o suficiente para não se destacar em você, mas legal o suficiente para ter amigos de amigos te perguntando o que é aquilo. O design lembra o que vemos em relógios de pulso caros de antigamente.

É algo extremamente simples e clean: as bordas de aço inoxidável relativamente finas guardam a tecnologia debaixo do capô, e o círculo perfeito é interrompido apenas por um botão na direita. Combine isso à pulseira padrão de couro, e ele ganha uma aparência bem agradável.

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Na frente está um painel retroiluminado de LCD perfeitamente circular com resolução de 320 x 290 pixels e 1,56 polegadas (4 cm de diâmetro). A tela não é tão grande quanto a de outros relógios com Android Wear, mas parece ser maior que os outros devido ao formato circular. Ele também é consideravelmente mais brilhante, o que é ótimo quando você está em ambientes externos. A tela é protegida por uma camada bem espessa de Gorilla Glass 3, e sua aparência não nega: é uma senhora camada de vidro. É um ótimo palco para os ponteiros e fundos que a Motorola projetou e incluiu no 360.

Na parte de baixo, há um espaço vazio, do qual algumas pessoas não gostaram. É onde ficam os drivers do display — é isso que permite à borda ser tão fina — e o primeiro sensor de luminosidade a ser usado num aparelho com Android Wear. Sim, a tela pode lembrar um pneu furado, mas pelo menos ela ajusta o brilho automaticamente para você conseguir ler o que está escrito de maneira confortável.

Além disso, você nota bastante esse espacinho na primeira meia hora com o 360 no pulso, e então começa a esquecer este detalhe. De vez em quando, você até repara nele de novo, mas não é nada que prejudique a experiência.

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A traseira do relógio é curva, suave, feita de plástico brilhante. Como o aparelho é carregado sem fio por indução (o carregador é bem bonito, aliás), ele se livrou de entradas horríveis para pontos de contato elétrico. No meio, há um monitor cardíaco que usam a mesma tecnologia de oxímetro de pulso que vimos nos em aparelhos específicos nos últimos anos, como o Mio Alpha e a Basis Band.

No lançamento, o Moto 360 estará disponível duas cores: preto e aço inoxidável (apesar de ambos usarem este mesmo material). O preto virá com uma pulseira preta; o modelo aço-inoxidável virá com uma pulseira cinza escuro em “edição limitada”, enquanto durarem os estoques (depois, uma pulseira cinza-claro a substituirá). Pulseiras metálicas pretas e prateadas estarão disponíveis nos meses seguintes (ao preço adicional de US$ 50).

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E se nenhuma das opções da Motorola te agradar, você pode trocar pela que você quiser, desde que ela seja do padrão de 22 mm. Um porta-voz da Motorola me disse, entretanto, que nem todas as pulseiras vão se encaixar perfeitamente, então nesse caso é recomendado levá-lo a um relojoeiro.

Usando

Funcionalmente falando, o Moto 360 é quase idêntico a outros relógios com Android Wear que já estão no mercado. Você levanta o braço para ligar a tela. Você fala “ok Google…” para dar comandos de voz. Você passa o dedo para cima e para baixo para alternar entre cards, cada um deles com pequenas porções de informações que o Google acha que você precisa naquele momento, e para direita ou esquerda para dispensar ou obter mais informações. Eu não acho que alguém iria defender que um smartwatch é necessário neste momento, mas é conveniente? Sim, com certeza.

Ter um relógio Android Wear significa que eu tenho que tirar o meu smartphone do bolso muito menos do que eu preciso normalmente. Eu consigo ver uma mensagem de texto e mandar uma resposta rápida diretamente do relógio. Para checar rapidamente se eu tenho novos emails, agora não preciso mais enfiar a mão no bolso da calça. Se eu estou sendo guiado curva-a-curva enquanto ando, só preciso dar uma olhada no relógio quando ele vibra e me diz para onde virar, ao invés de caminhar por aí com minha cara no celular. Se eu vou correr e quero ver as estatísticas atuais e/ou mudar de música, está tudo ali. Se eu quero procurar alguma coisa rápida (“Benny Hill ainda está vivo?”), ou ver em que portão eu preciso embarcar no aeroporto, é simplesmente muito conveniente, mas muito mesmo.

Além disso, o Moto 360 tem algumas funcionalidades únicas. Por ser o primeiro dispositivo Android Wear com sensor de luz ambiente, ele fica visível de maneira bem mais fluida sob a luz do sol, e não estoura suas retinas com o brilho numa sala escura de cinema. Sério, todos os smartwatches deveriam ter isso. Ele também é o primeiro smartwatch com bateria recarregável sem fio. Ele vem com um dock bacana, e tudo que você precisa fazer é colocar o relógio dentro, sem ter que alinhá-lo nem nada, e ele começa a recarregar. A tela se transforma num reloginho bacana que fica ótimo em seu criado-mudo, já que não ilumina seu quarto.

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Talvez a melhor função única, entretanto, é que este é o primeiro smartwatch a monitorar constantemente sua frequência cardíaca, não apenas quando você pede. A Motorola acrescentou um aplicativo próprio que diz quantos minutos você passou em diferentes zonas de frequência cardíaca, além do pedômetro que vem no Android Wear por padrão. Há a inativa (entre 40 e 92 bpm), a ativa (ente 92 e 129 bpm) e a vigorosa (de 129 a 185 bpm), e o app recomenda que você fique pelo menos 30 minutos por dia na zona ativa. Ele tenta motivar você por meio de notificações ocasionais, cinco dias na semana.

Eu acho que este monitoramento é uma ótima ideia, pois apresenta uma análise da sua atividade muito mais completa do que um simples pedômetro. Além disso, contar passos não ajuda muito se você está andando de bicicleta, levantando pesos, fazendo yoga, transando, assim por diante.

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No geral, o monitor cardíaco funciona muito bem. O problema é que ele precisa manter contato com sua pele, o que significa que, se você prefere usar o relógio mais soltinho, ele pode não conseguir pegar seus batimentos.

Outra coisa irritante é que você precisa abrir os apps de frequência cardíaca da Motorola se quiser monitorar seu progresso. Para isso é necessário usar um comando de voz ou procurar no menu. Seria muito mais conveniente se isso pudesse ser integrado nos cards padrão, como o Google Fit faz com seus passos. Você receberá uma notificação quando estiver rumo à sua meta de atividades, mais outra quando completar, e só. É uma ótima função, mas precisa de uma integração mais completa.

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Android Wear

Vamos falar sobre o Android Wear em geral por um instante. Depois de alguns meses usando ele todos os dias, eu posso dizer definitivamente que ele é um bom sistema operacional com muito potencial, mas ainda parece um beta. Há uma falta de consistência geral que prejudica o Android Wear no atual estágio de desenvolvimento. Às vezes, cards úteis aparecem na hora certa, às vezes não.

Por exemplo, na primeira vez que eu voei com o Android Wear, meu cartão de embarque apareceu no relógio, eu pude scanear o QR code e todo o aeroporto achou que eu fosse um viajante do tempo vindo do futuro. Desde então, eu estive em no mínimo em cinco voos e o cartão de embarque nunca mais apareceu; não faço ideia do porquê nem como consertar isso.

Essa parte de “não saber” é muito incômoda. Sim, é ótimo que tudo aconteça mais ou menos automaticamente, mas quando não dá certo, você pelo menos poderia ter a opção de colocar o que você quer. Por vezes, não há uma forma de controlar o fluxo de informações que você recebe, e por isso ele acaba sendo menos útil.

GizmodoMoto 360 no pequenino pulso de uma mulher pequena

Há problemas mais graves, também. Às vezes, o relógio se desconecta do smartphone espontaneamente e se recusa a emparelhar de novo por uma hora. Às vezes você dá um comando de voz e ele diz que seu telefone está desconectado, mesmo que não esteja. Às vezes parece que o Moto 360 está pronto para receber um comando de voz, mas ele te ignora, deixando você gritar “Ok Google. Ok Google! OKAY GOOGLE!!!” para seu pulso como um idiota.

Os comandos de voz que ele responde são, na maioria das vezes, bem específicos, então você tem que memorizar uma lista de comandos, mais do que pode usar uma linguagem natural (risos da Cortana ao fundo). É mais difícil abrir apps do que deveria ser, e ao fechar um app acidentalmente (ou deixar a tela desligar), você será automagicamente transportado de volta para a tela principal, goste ou não, e terá que navegar de volta até onde estava. Não há multitarefa ou botão de desfazer.

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Bateria e performance

Aqui a situação complica um pouco. O Samsung Gear Live e o LG G Watch vêm com um SoC Qualcoom APQ8026 embarcado, e os dois parecem bem espertos e responsivos. A Motorola, por algum motivo que desconhecemos, decidiu colocar um Texas Instruments OMAP3 no Moto 360. Este chip já tem quatro anos de idade – algo que, no mundo da tecnologia, o torna um ancião.

Honestamente, isso não faz uma diferença enorme na velocidade, mas ainda assim é notável. As coisas parecem carregar um pouco mais lentamente, comandos de voz levam um instante a mais, e há um pouco mais de lentidão ao navegar pelo sistema. Não chega a ser ruim, mas se o ponto em questão é ser mais rápido de olhar que seu smartphone (que provavelmente é bem veloz), cada milissegundo conta. Geralmente, ele ainda vence, mas há espaço para melhorar.

Muito maior é o problema da falta de eficiência do OMAP3. Quando você tem apenas 320 mAh (ou 300 mAh?) na bateria, você precisa de um chip que aproveite cada gotinha de energia, e o OMAP3 não assim. Ter um LCD retroiluminado em vez de uma AMOLED também não ajuda.

O Moto 360 tem dois modos de tela: ambiente/ambiente desligado. No modo ambiente, a tela escurece quando você não está usando, mas não chega a desligar, e volta a ficar brilhante no menor movimento do seu pulso. Com o modo ambiente desligado, a tela fica completamente preta quando você não está usando, e para ligar de novo, você precisa puxar o pulso em direção ao rosto, tocar na tela ou apertar o botão ao lado. Eu diria que, no geral, o modo ambiente é um pouco mais conveniente, mas não é uma diferença tão drástica.

Com o modo ambiente ligado, você provavelmente terá uma carga de 14 ou 15 horas, dependendo de quanto você usar o relógio. Geralmente isso é suficiente para durar do momento em que você acorda ao momento em que chega em casa do trabalho. Com o modo ambiente desligado, entretanto, eu consegui com frequência ter mais de 24 horas de uso. De fato, no momento em que escrevo isso, o relógio está fora da tomada há 26,5 horas e ainda tem 25% de carga. Então, por mais que o modo ambiente seja melhor, é bem melhor desligá-lo e usar seu smartwatch regularmente.

Atualização: desde seu lançamento nos EUA, o Moto 360 recebeu uma atualização que melhorou significativamente a sua duração da bateria. Ainda estamos realizando testes, mas podemos dizer informalmente que o Moto 360 agora dura, em média, pelo menos 25% a mais do que antes. Ou seja, o Moto 360 não está mais tão defasado em relação a outros dispositivos Android Wear nesse quesito. O modo ambiente ainda consome muita bateria, no entanto.

Os relógios da Samsung e da LG, por sua vez, têm o modo ambiente ativo por padrão, e mesmo assim a bateria dura mais de 24 horas. Com ele desligado, você consegue dois dias. Não apenas isso, mas o modo ambiente deles deixa a tela totalmente ligada, então é mais fácil dar uma olhadinha nas horas (apesar de não terem o sensor de luz ambiente do Moto).

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Gostamos

Ele é muito bonito. É o primeiro smartwatch que não tem um visual que agradaria só aos nerds como nós. Ele tem a tela mais brilhante de todos os que vimos até agora, tornando-o muito mais fácil de usar em ambientes externos. Ele também é o smartwatch mais confortável de se usar no pulso. É leve, tem uma traseira suave, e as pulseiras de couro ficam boas na pele. O monitoramento cardíaco constante é uma função ótima.

Ele também é muito conveniente. Se você já é um usuário de Android, ele torna sua vida um pouquinho mais fácil. Ele tem o melhor carregador de smartwatch já visto e, como suporta o protocolo Qi, você pode simplesmente colocá-lo em qualquer carregador sem fio que tiver em casa (ele funcionou bem no Nokia DT-900, por exemplo). Ele também é resistente a água e a poeira. É bem fácil gostar dele.

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Não gostamos

A duração da bateria, ainda que não seja tão ruim quanto alguns disseram, é pior que dos outros dois relógios com Android Wear, e ele também é mais lento. Eu queria que ele tivesse um processador mais rápido e mais eficiente. Você não deveria ter que desativar o modo ambiente para conseguir ficar com ele 24 horas sem recarregar. Ele é um pouco mais grosso que os outros dois (mas, por ser redondo, não enrosca nas coisas tão facilmente). O microfone parece ser um pouco menos sensível, também, e ele teve alguns problemas para me ouvir ou responder ao “OK Google”.

Há alguns problemas de software, também. Além do fato de o Android Wear ainda parecer um beta avançado, há uns bugs ocasionais, como um app de terceiros sendo rodado 90 graus por algum motivo, que é uma coisa que eu só vi no 360 (mas, sendo justo, só aconteceu com um app, então pode ser um problema isolado). O recurso de frequência cardíaca seria muito mais útil se estivesse sempre à vista, ou se fosse integrado com um app do seu celular ou da nuvem. Isolado, a maioria das pessoas não tem ideia do que fazer com aqueles dados.

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Vale a pena?

Apesar das falhas, nós consideramos este o nosso relógio Android Wear favorito até o momento. Ele é bonito, confortável e funciona geralmente muito bem. Então, se você tem certeza que quer um relógio Android Wear, então sim, compre um desses. Nós achamos que você vai gostar. Ele custa US$ 250, mais do que os modelos da Samsung e LG, mas nós achamos que vale a pena ter um smartwatch tão bonito.

Disto isso, ele ainda tem muita coisa para melhorar, e muito disso depende do Google. O Moto 360 tem a chance de ser o melhor smartwatch — e provavelmente ele é, no momento — mas, se ele quer continuar no topo, precisa se superar em vários aspectos, e rápido.

O Moto 360 foi lançado no Brasil por R$ 799.

Atualizado em 05/11