Diversos jornais estamparam esta semana um manifesto, vindo de entidades científicas e industriais, criticando o corte de R$1 bilhão no orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Não é a primeira vez que o governo tira recursos do MCT: ano passado, enquanto gigantes de tecnologia nos EUA jantavam com Barack Obama, o Brasil cortava o orçamento do ministério em R$1,7 bilhão. Agora que o PIB cresceu pouco, a presidente Dilma Rousseff convoca grandes empresários do país para cobrar mais investimentos — só que não tem nenhuma empresa de tecnologia aí.

Segundo a Folha, a presidente se reunirá hoje com 27 grandes empresários e banqueiros — a “elite do PIB”, como diz a Folha. Teremos nomes conhecidos como Eike Batista, Abílio Diniz (Pão de Açúcar) e megaempresários de siderúrgicas, construtoras, bancos, empresas de transportes, tecidos, alimentos e outros.

Só não tem empresa de tecnologia. Pense em alguma das gigantes que você tanto ouve por aqui. Samsung? Não. Motorola? Não. Foxconn? Positivo? Nenhuma. Talvez só chamaram empresas brasileiras, enquanto muitas no ramo de tecnologia são estrangeiras? Provavelmente não: por exemplo, a Dilma chamou o presidente da Fiat, que é italiana. Claro que muitas indústrias – um grande exemplo é a bancária – dependem de investimentos em tecnologia: a ausência de empresas de tecnologia não significa que investimentos na área fiquem totalmente de lado.

Mas isso é sintomático. Das 27 empresas convocadas pela Dilma, treze estão no top 100 em faturamento anual, de acordo com o ranking Maiores e Melhores da revista Exame – fora os três bancos, que não entram no ranking mas têm receita enorme. Quantas empresas de tecnologia estão no top 100? No Brasil, apenas três (excluindo telecom): Samsung em 49° lugar; HP em 89° e IBM em 96°. Avançando para o top 200, ainda temos poucas empresas: entram LG, Siemens, Nokia e Positivo. Sem querer, o governo acabou deixando claro que empresas de tecnologia não são protagonistas em nossa economia.

Não quer dizer que o governo as deixe de lado. Este ano, o Brasil foi o parceiro oficial da CeBIT, enorme feira de tecnologia na Alemanha (porém bem menos importante que CES e MWC) no início do mês, onde empresas brasileiras ocupavam mais de 100 estandes. A própria Dilma esteve lá e abriu o evento, mencionando só o que há de bom em tecnologia no Brasil: grande acesso a PCs, celulares, internet e TV por assinatura; uso de software de código aberto em órgãos do governo; computadores em escolas públicas; e, claro, a urna eletrônica.

Mas o governo vem tropeçando em suas políticas recentes de tecnologia. Eles fizeram grandes esforços para popularizar a banda larga e tablets, mas o Plano Nacional de Banda Larga ainda é caro e limitado; os incentivos fiscais a tablets ainda aparecem de forma tímida demais no preço; e a compra de 900.000 tablets para escolas públicas veio sem plano pedagógico. O corte de 23% no orçamento do Ministério da Tecnologia também não ajuda.

O governo reagiu à crítica dos empresários e cientistas escalando o ministro de Ciência e Tecnologia, Marco Antonio Raupp, e o ex-ministro do iPad Aloizio Mercadante. Eles dizem que o manifesto desconsidera outros gastos do governo com o setor científico – “houve acréscimo”, declarou Raupp. Ele lembra que o governo federal investiu 0,61% do PIB em ciência e inovação, enquanto o setor privado (incluindo a Petrobras) investiu só 0,55% – em países desenvolvidos, o setor privado investe mais que o governo. Mercadante, por sua vez, revela que:

O setor privado investe muito pouco em pesquisa, desenvolvimento e inovação. (…) Historicamente o empresariado brasileiro teve uma atitude passiva, o país teve uma atitude passiva diante da inovação. Compare com a China. A China aprendeu a copiar e, depois de copiar, a fazer mais barato copiando e, a partir daí, começou a inovar e ganhou liderança em muitos setores.

Ou seja, para o governo as empresas brasileiras também precisam se mexer e inovar mais. Na reunião de hoje, a presidente deve exigir mais investimentos não só em produção, como também em inovação (P&D), para fazer o PIB crescer 4% este ano. Segundo a Folha, os empresários querem revisão nos tais cortes de verba para o Ministério da Ciência e Tecnologia, além de combate aos elevados custos tributários e logísticos. Vamos ver no que dá. [Folha e O Globo]

Foto: Divulgação/CeBIT