Hoje, pela segunda rodada do grupo C da Copa do Mundo, os Estados Unidos perdiam por 2 a 0 da Eslovênia. Depois de muito pressionar, empataram o jogo. Numa falta, o meia Edu virou o placar para os americanos, mas o juiz Koman Coulibaly anulou o gol. Vinte replays depois, ninguém enxergou nenhuma falta dentro da área. É o primeiro erro notável na Copa do Mundo de 2010, mas a competição é historicamente marcada por polêmicas. A pergunta que sempre é feita após esses lances é: os quatro árbitros (juiz, bandeirinhas e 4º árbitro) não mereciam uma ajuda tecnológica? Se sim, como ela seria implantada?

A discussão não é nova, mas é contínua. Desde o gol decisivo da Copa de 1966, passando pela mão de Deus de Maradona em 1986, até os polêmicos jogos da Coreia do Sul na Copa de 2002, o torneio mais importante do futebol sempre ressuscita a controvérsia. Para completar, ao passo que a tecnologia nas transmissões aumenta – na África do Sul, são 33 câmeras em cada jogo – o árbitro e seus auxiliares ficam cada vez mais isolados, contestados e xingados. A Fifa não parece interessada em mudar a situação. O presidente Joseph Blatter disse, antes da Copa, que a tecnologia “acaba com a paixão no futebol”.

Há quem discorde. Leonardo Bertozzi, editor do site Trivela e comentarista dos canais ESPN, é solidário aos árbitros. “Acho o auxílio tecnológico importante, porque se a tecnologia nos ajuda a comentar, é injusto que não ajude a quem toma as decisões. Hoje são 300 olhos contra os dois do árbitro, que é, obviamente, falível.” Mas há dois problemas na implantação de máquinas auxiliares no esporte bretão. Primeiro, a dinâmica do futebol é muito veloz, principalmente se comparada ao futebol americano, que dá ao juiz a opção de rever os lances pelo telão do estádio. “O grande dilema é como introduzir a tecnologia sem atrapalhar a dinâmica do jogo”, diz Bertozzi. Então, quais seriam as soluções?

Entrou ou não? A bola com chip resolve(ria)

Pouco tempo atrás, a Fifa chegou a estudar a adição de um chip dentro da bola que indicaria se ela ultrapassou a linha do gol ou não. Mesmo parecendo inofensiva, a entidade máxima fez testes em torneios como o Mundial Interclubes e rechaçou o uso em outras competições. Sobre o chip, Bertozzi contemporiza: “o chip na bola resolveria um entre cem problemas da arbitragem, que é ver se a bola entrou ou não, algo que acontece pouquíssimo”. Mas a atitude mostra como a Fifa não está disposta a mudar o jogo.

A tecnologia do chip não tem mistério. Não requer prática, tampouco habilidade – apenas na instalação. Ela utiliza RFID, identificando a bola por rádio, graças às dez antenas instaladas pelo campo – quatro em cada linha de fundo e dois na linha central – e quatro bases transmissoras. Se a bola ultrapassa a linha, o relógio do árbitro apita, com menos de um segundo de delay, indicando se foi gol. É o que explica o jornalista Vitor Birner:

É a combinação da tecnologia RFID com a técnica de triangulação (avaliar a distância de um objeto a partir de 3 fontes para determinar sua exata localização). Neste caso, como a FIFA tem como exigência a fiabilidade do sistema, a triangulação é feita com 4 antenas, o que incrementa uma terceira dimensão a avaliação dos dados recebidos. Caso uma antena falhe, não comprometerá o funcionamento do sistema.

A Penalty anunciou no ano passado que usaria essa tecnologia em suas bolas… de vôlei. A Confederação Brasileira de Vôlei não viu problemas e aceitou o sistema. O único contra da tecnologia é seu custo: no vôlei, é preciso 30 mil reais para utilizar método de monitoramento. Uma bola moderna como a CTRUS também poderia resolver a questão, mas imaginamos que ela deva ser cara também.

A voz do além diria: ei, você errou

Se o bandeirinha erra um impedimento crucial, rapidamente a câmera lateral o entrega para todos os milhões de espectadores. Em segundos, alguém já avisa o técnico do time prejudicado, que trata de buzinar o resto do jogo todo na orelha do árbitro e do juiz. Quantas vezes você já não viu essa cena? O uso do VT pelo quarto árbitro, que informaria o juiz por meio de voz se ele errou ou não, parece simples e fácil. Mas o futebol e suas regras tornam a ideia complexa. Mesmo assim, possível.

Não é apenas o imprevisível que existe no futebol. A subjetividade aparece em diversos lances. É extremamente comum alguém ver um lance e achar que foi falta e outra pessoa não, diria @oclebermachado. A decisão, no fim das contas, depende dos critérios do juiz. Bertozzi ainda levanta outro problema: “nem tudo no futebol ‘tem volta’. Marcou um pênalti, vai lá e vê que não foi. E aí, como recomeça o jogo? Falta contrária?”. Para ele, o único jeito de equilibrar a palavra do juiz, a tecnologia e a dinâmica do jogo seria a aplicação do VT em determinados tipos de lance, como impedimento, que não são interpretativos. Ou seja, o poder do árbitro não seria discutido, o jogo não sofreria com paradas excessivas e o nível de estresse ao assistir a um jogo diminuiria em proporções mundiais.

A conclusão é que o futebol realmente tem dificuldades em absorver a tecnologia, e não é apenas por razões nostálgicase e morais. O formato do esporte e de suas regras criam obstáculos que necessitam uma discussão aprofundada para saber se realmente vale a pena. A frequência de erros no futebol é grande, e as duas tecnologias eliminariam apenas parte da polêmica, mantendo a “humanidade” do jogo. Mas será que sua implantação não engessaria o jogo? E nós brigaríamos com o VT, aquele mentiroso?