Em 1960, os cientistas fizeram uma daquelas experiências que não são mais permitidas hoje. Para o bem da ciência, detonaram três bombas anti-submarino de quase 140 quilos na costa na Austrália. Uma estação de escuta em Bermuda, a quase 10.000 quilômetros de distância – do outro lado do planeta – ficou à espera. E esperou. E esperou. Cerca de três horas e meia depois, a estação recebeu o sinal que confirmou a hipótese dos cientistas: sim, o som poderia viajar pelo mundo através do oceano.

Cerca de 50 anos depois, Brian Dushaw, um oceanógrafo da Universidade de Washington, tentou reconstruir o fluxo do experimento de 1960. Mas dessa vez o interesse não estava no som, mas na temperatura. O som viaja mais rápido através da água mais quente e a velocidade na qual o som se moveu em 1960 é, portanto, um instantâneo das temperaturas médias do oceano de meio século atrás. Boa parte dos dados sobre as temperaturas oceânicas são tirados das águas superficiais, mas o experimento de 1960 forneceu dados daquilo que acontece um quilômetro abaixo, no Canal de Fixação e Ampliação do som (SOFAR).

Isso acontece porque os sons do oceano não vão para qualquer lugar. Devido a uma peculiaridade da física, as ondas de som que acontecem a cerca de um quilômetro abaixo da superfície ficam presas no canal SOFAR: as influências concorrentes da temperatura e da pressão mantêm as ondas naquela zona, onde a velocidade do som se torna mínima. Para o som, não é fácil nem entrar no canal SOFAR nem sair dele e o som pode viajar por quilômetros e quilômetros sem dissipação. O canto das baleias viaja pelo oceano através desse canal e os submarinos saem de suas rotas para evitar o canal e não correr riscos de detecção.

Como Dushaw explicou durante o encontro da Sociedade Acústica da América, na semana passada em São Francisco, ele gastou toda a última década rastreando e decifrando documentos para entender quais eram os parâmetros exatos – como a localização – das explosões de 1960. Com a ajuda de um tenente comandante aposentado da Marinha Australiana, ele decifrou os arquivos do navio que soltou as bombas. “No começo, eu pensei que o material fosse inútil”, ele diz sobre os crípticos e enigmáticos registros do navio. Dushaw explica que embora o navio tenha registrado a sua velocidade várias vezes por dia, ele teve que se basear em uma navegação estimada para compreender qual era a posição do navio. De qualquer maneira, existe uma grande dose de incerteza no método, porque a navegação estimada não leva em conta o vento ou a corrente na qual o navio está se movendo.

Agora que o pesquisador conseguiu descobrir a localização aproximada para o navio, ele ainda necessita de uma precisão ainda maior para saber quanto as temperaturas do oceano mudaram. Dushaw ainda está trabalhando nisso. Para um oceanógrafo, ele está se divertindo bastante bancando o detetive-historiador, analisando os ecos dessa bomba que foi ouvida por todo o mundo. [encontro da Sociedade Acústica da América]

Imagem: Bomba anti-submarino afundando um U-Boat nazista; foto cedida pela National Archives.