Eu não queria começar uma briga com o Steve Jobs numa sexta-feira à noite. Mas aconteceu: um comercial do iPad me deixou indignado, eu mandei um e-mail irritado para o CEO da Apple, e ele me disse "livre de pornografia".

Claro, tem algo a mais por trás disso tudo. Tem um contexto: a disputa legal com a Gawker Media sobre o protótipo vazado do próximo iPhone; as acusações de censura na App Store; minhas preocupações de longa data sobre o poder crescente da Apple em limitar a auto-expressão dos desenvolvedores, através das restrições sobre os apps para o iPad; e o fato que minha esposa, que normalmente (e com razão) me impediria de enviar um e-mail assim numa sexta à noite, estava em outra cidade.

O que me deixou indignado foi o finalzinho do comercial da Apple para o iPad, que chama o produto de nada menos que "uma revolução":

Então, com um Stinger cocktail ao meu lado, eu enviei uma pergunta curta e contundente para o conhecido e-mail do Steve Jobs. Em algumas horas, depois de meia-noite aqui na Califórnia, ele respondeu. E eu respondi de volta. E assim foi.

Uma transcrição parcial em português segue abaixo; depois vem a conversa completa em inglês (clique nas imagens para ampliar).

Ryan: Se [Bob] Dylan tivesse 20 anos hoje, como ele se sentiria em relação à sua empresa? Ele acharia que o iPad tem algo minimamente relacionado a uma "revolução"? Revoluções têm a ver com liberdade.

Steve: Sim, liberdade de programas que roubam seus dados privados. Liberdade de programas que acabam com sua bateria. Liberdade de pornografia. Sim, liberdade. Os tempos estão mudando, e algumas pessoas relacionadas a PCs tradicionais acham que o mundo deles está acabando. E está.

Ryan: [fala sobre a proibição do Flash no iPad, e como isso impede um bom app da Wired, revista sobre gadgets, para o iPad]

Steve: A Wired está fazendo um app nativo em Cocoa. Assim como quase toda editora…

Ryan: A Wired está fazendo um app nativo em Cocoa porque eles TÊM que fazer…

Steve: Espere – claro que eles não têm que fazer. Eles não precisam publicar conteúdo no iPad se não quiserem. Ninguém os está forçando. Mas parece que eles QUEREM fazer isso.

Existem quase 200.000 apps na App Store, então algo deve estar dando certo. Os apps de revistas serão bem melhores afinal, porque são escritos em código nativo. Nós já vimos esse filme antes.

Meu Deus, por que você está tão amargo com um detalhe técnico como este? Isso não tem a ver com liberdade, isso é a Apple tentando fazer o que é certo para seus usuários. Usuários, desenvolvedores e editoras podem fazer o que quiserem – eles não precisam comprar iPads, ou desenvolver para iPads, ou publicar conteúdo em iPads se não quiserem. Isto parece ser um problema seu, não deles.

Ryan: … Você tem a chance de dar o tom para uma nova plataforma… A plataforma do futuro! Estou desapontado em ver que é a mesma merda de poder e vingança de sempre.

PS E sim eu posso ter soado amargo. Porque eu não acho de forma alguma que isto seja um problema técnico – é você impondo sua moralidade, sobre pornografia, sobre "segredos de comércio", sobre pureza técnica no sentido mais bizarro…

Steve:…nós estamos fazendo o possível para tentar criar (e preservar) a experiência de usuário que está na nossa visão. Você pode discordar de nós, mas nossos motivos são puros…

Clique para ampliar:

É rara a ocasião em que CEOs trocam e-mails com clientes e bloggers assim. Jobs merece crédito por quebrar o estereótipo do executivo americano típico, e não apenas porque a empresa dele faz produtos tão bons; Jobs não só construiu e reconstruiu a empresa em torno de opiniões bastante fortes sobre a vida digital, como ele está disposto a defender tais opiniões em público. De forma enérgica. De forma contundente. Às duas da manhã em um fim-de-semana.

Apesar de o Steve e suas ações me irritarem, e apesar de ter sido grosso com ele, eu fiquei impressionado com a discussão e com a disposição de Steve em discutir.

Mas há algo absurdamente orwelliano sobre a frase em que o Steve Jobs fala sobre "um ambiente livre de pornografia". (Não é a primeira vez, aliás.) É uma frase que, suspeito, vai persegui-lo no futuro. [Valleywag]