Ricardo Neis, 47 anos, foi à polícia hoje para tentar justificar sua tentativa de homicídio. Disse que “tinha de fazer isso”. Isso, no caso, foi registrado num dos flagrantes mais chocantes da história do Youtube, que está ganhando páginas do noticiário internacional.

Já falamos um bocado do assunto, mas se você chegou agora, o que aconteceu, pelas testemunhas e vídeos disponíveis: um grupo de cerca de 100 ciclistas estava andando por uma rua movimentada em Porto Alegre no início da noite de sexta, numa manifestação conhecida como “Massa Crítica”, que acontece em várias cidades do mundo. Como ocupavam todas as faixas e não haviam avisado o Detran, alguns motoristas ficaram impacientes, entre eles Ricardo Neis, que insultou alguns ciclistas, ficou buzinando e acelerando por 3 quarteirões (aparentemente desviar o trajeto não é uma opção para psicopatas), chegou a encostar nas bicicletas e começou um enfrentamento – os ciclistas admitem que ficaram batendo no capô e no teto do carro para que ele parasse. O que ele não fez. Aguardou a distância de alguns metros e, como um touro bravo, acelerou com toda a vontade, sem dar chance de alguém avisar, praticando o boliche humano. Por muita sorte os atropelados não se feriram gravemente.

Há como explicar o seu comportamento, como há como explicar o antisemitismo nazista, ou entender a razão pela qual um deficiente mental entra com uma metralhadora atirando em colegas da escola. Mas não há como defendê-lo em hipótese alguma. Quem o faz tem de ter a carteira de habilitação apreendida imediatamente. Não sou tão fã do Alexandre Garcia, mas não há um reparo a fazer nesse comentário que ele fez:

Meus dois cents à discussão: amo o assunto bicicleta como meio de transporte não só de lazer e sou um entusiasta da ideia. Não há como melhorar o trânsito – e a qualidade de vida – em grandes cidades como São Paulo e Porto Alegre sem dar mais espaço a bicicletas, pessoas e transporte público. Os exemplos do resto do mundo, de cidades que melhoraram o tráfego, mostram isso. O assunto é urgente (por isso tratamos dele aqui), então entendo que existam movimentos como o Massa Crítica, que quer chamar a atenção para o problema. Mas não acho que a mensagem esteja sendo passada ocupando uma avenida inteira em horário de rush. Há vários motoristas que usam o carro como arma, e o risco de encontrar um cara como este animal que trabalha no Banco Central – e que deveria ser demitido hoje -, é real. Vale? O que eles estão conquistando? Algo deve ser feito em prol de mais ciclovias, e do respeito mútuo, mas será que este é o caminho? Eu não tenho a resposta, apenas a solidariedade neste momento.

O problema maior é outro. Talvez sejam os nervos acirrados de hoje, mas está se criando uma dicotomia “ciclistas do bem” contra “monstroristas” que não vai levar ninguém a lugar algum. Muita calma nessa hora. Eu vendi meu carro quando cheguei aqui e ando algumas vezes por semana de bicicleta nas ruas de São Paulo, sei dos riscos, mas é uma minoria dos motoristas que se comporta de maneira psicopata, ameaçadora. Assim como há uma minoria de ciclistas, ou “cicloativistas”, que se acham muito superiores por não poluir ou sei lá o quê, e gostam do enfrentamento, de dizer que carros são câncer, tudo isso.  Ambos estão errados.

Amanhã haverá uma manifestação em Porto Alegre. A convocação do pessoal da Massa Crítica é importante para mostrar que todo mundo quer a mesma coisa, na real:

A falta de escuta e a intolerância é o que acarreta expressões tão extremas como tantas que temos visto, desde sempre. E, desde o INcidente (o exemplo mais avassalador disso que falo), essas expressões também estão mais extremadas.

Por isso, é muito importante entendermos que o protesto que acontecerá na Terça-feira, dia 1º de Março, não é uma reivindicação da Massa Crítica, já que essa, enquanto organização, pouco existe. O protesto de Terça é a reivindicação de uma sociedade que quer as ruas livres de violência de qualquer tipo. E quer, então, um trânsito que expresse isso, que nos ajude a nos integrarmos, e não nos segregue ainda mais, e não faça com que uns de nós passem por cima dos outros – ainda mais do jeito tão literal que isso tem acontecido.

[Terra]