As aranhas-teia-de-funil são intrigantes demais. Esses aracnídeos australianos podem matar com seu veneno, mas essa mesma substância é necessária para criar o antídoto. Agora, o veneno da criatura pode ter outro propósito – proteger o cérebro dos efeitos prejudiciais de um derrame.

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A maioria dos derrames são isquêmicos, o que significa que eles resultam numa falta de sangue e oxigênio no cérebro, geralmente por um coágulo. A falta de oxigênio faz com que o cérebro comece a se destruir, causando danos permanentes. Mas uma equipe de cientistas australianos descobriu que um químico do veneno da aranha-teia-de-funil que parece bloquear esse processo auto-destrutivo do cérebro de ratos. Ainda não sabemos se funcionaria nos humanos, mas existe possibilidade.

As células do cérebro geralmente alimentam-se da mesma forma que outras células – por meio de sua mitocôndria, que utilizam oxigênio para ajudar a criar muita energia. Se um coágulo corta a passagem de oxigênio, a célula muda para um método de último caso para geração de energia que é muito menos eficiente e cria um ambiente ácido no cérebro. Isso acaba ativando em excesso um dos principais sensores do cérebro, um tipo de canal iônico sensível a ácidos (ASIC), os ASIC1a, e que podem levar a sequelas permanentes. Encontrar algo para interromper o funcionamento excessivo desses sensores num ambiente ácido deve prevenir alguns dos danos a longo prazo causados por AVCs.

Venenos de aranhas de uma espécie de tarântula caribenha, a Psalmopoeus cambridgei, já parece oferecer alguma proteção – mas não funciona se forem administradas aos ratos de laboratório depois de duas horas após o derrame. O veneno da aranha-teia-de-funil parecia o próximo passo mais lógico para os cientistas, já que alguns químicos presentes nele, incluindo um peptídeo chamado Hi1a, parecem muito com os químicos do veneno da tarântula que conseguem proteger o cérebro.

Para descobriu se o veneno da aranha-teia-de-funil era útil como suspeitavam, os pesquisadores induziram AVCs em alguns ratos e injetaram o Hi1a diretamente no cérebro deles. Injetado até oito horas depois do derrame, o químico funcionou muito bem. Os ratos tiveram menos efeitos cognitivos negativos de um a três dias depois, e reduziram a qualidade de tecido danificado no cérebro. Os cientistas publicaram os resultados na revista Proceedings of the National Academies of Sciences.

Os resultados do estudo são animadores, principalmente pelo fato da única droga aprovada pela FDA (espécie de Anvisa dos EUA) após derrames apenas ajudar no fluxo sanguíneo, sem lidar com danos ao cérebro. É algo bem insatisfatório levando em consideração que é a quinta maior causa de morte nos Estados Unidos. Já no Brasil, o AVC é a segunda principal causa de morte.

Apesar dos resultados, existem muitas ressalvas. Primeiro, se trata de testes em ratos. Não existe nenhuma garantia de que irá funcionar nos humanos. E quais serão os efeitos moleculares a longo prazo? Os pesquisadores testaram a performance cognitiva dos ratos apenas alguns dias depois.

E por último, onde conseguiremos todas essas aranhas? Como noticiado recentemente, os zoológicos já possuem dificuldades para fazer o antídoto para o veneno dessa espécie.

[Proceedings of the National Academy of Sciences]

Imagem do topo: David McClenaghan/Wikimedia Commons