Tanto a Venezuela quanto a Rússia têm economias bastante dependentes do preço do petróleo. Ambos os países estão lidando com sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos. E, nos últimos dias, os dois países começaram a avançar com criptomoedas estatais oficiais. Nenhum dos dois casos parece ser algo que mereça ser levado a sério.

Mencionamos os rumores de que Rússia e Venezuela estariam trabalhando em suas próprias criptomoedas no passado, mas notícias recentes indicam que ambos os países vão entrar na criptomania muito em breve. Na terça-feira (2), o Financial Times noticiou que funcionários do governo em Moscou afirmaram que o presidente Vladimir Putin havia comissionado sua equipe econômica para criar uma versão do rublo baseado na blockchain. E, na semana passada, o ministro da Informação da Venezuela, Jorge Rodriguez, anunciou na TV estatal que a nova criptomoeda de seu país, o petro, seria emitida “em questão de dias”.

Para observadores casuais das criptomoedas, isso pode soar como um avanço positivo no campo. Afinal de contas, os críticos frequentemente apontam que o valor das moedas fiduciárias (ou seja, sem lastro) pode ser tão imaginário quanto o da Bitcoin, mas tem o apoio de toda a fé e crédito de um governo. Portanto, a ideia de uma criptomoeda apoiada pelo governo não deveria indicar que estamos avançando em direção a opções com mais estabilidade? Não necessariamente.

Acima de tudo, a ideia da Venezuela para o Petro parece baboseira de primeira classe. Isso não significa que a criptomoeda planejada pela Rússia seja melhor, ela só está em estágios mais iniciais — embora não esteja claro quanto planejamento está por trás da criptomoeda venezuelana. O presidente Nicolás Maduro anunciou pela primeira vez a estratégia de sua criptomoeda no começo de dezembro, como uma alternativa para o bolívar venezuelano em rápida queda. Segundo a Reuters, os preços na Venezuela cresceram 1.369% entre janeiro e novembro de 2017, e a melhor opção que o governo foi capaz de oferecer foi um salto de 40% no salário mínimo. Mas de acordo com a Bloomberg, parece que tudo que Maduro está tentando fazer com o Petro é criar o equivalente estatal de uma empresa de chá gelado colocando blockchain em seu nome e vendo o valor de suas ações subir. Da matéria da Bloomberg:

O Petro vai ser diferente da Bitcoin e de outras criptomoedas porque vai ser apoiado por ativos tangíveis, afirmou Rodriguez. Maduro, na quarta-feira, garantiu que 5 bilhões de barris das reservas de petróleo venezuelanas serão usados como apoio financeiro para o petro, de acordo com o ministro do petróleo do país.

Esse petróleo pode dar suporte a instrumentos financeiros no valor de US$ 267 bilhões, disse o ministro em seu comunicado. Em comparação, a Bitcoin, maior criptomoeda existente, tem uma capitalização de mercado de cerca de US$ 246 bilhões, de acordo com o coinmarketcap.com.

Portanto, as reservas de petróleo se apoiam na moeda fiduciária da Venezuela, e essa moeda está fora de controle. Mas agora que um tipo de versão em blockchain da moeda está sendo introduzida, as pessoas deveriam se sentir bem quanto a isso por ela ser apoiada pelas reservas de petróleo? Ok.

Além disso, parece que a Venezuela pretende soltar uma quantia determinada de sua moeda, em vez de replicar o sistema da Bitcoin, que envolve indivíduos minerando a moeda ao resolver problemas matemáticos complexos. Já que o intuito é que o Petro seja uma moeda centralizada, isso não é uma grande surpresa, mas, para muitos entusiastas, isso desqualificaria o Petro como uma criptomoeda legítima. O Ripple é o exemplo atual mais bem-sucedido de sistema de pagamento pré-minado baseado em livro-razão. Ele é usado por bancos como UBS e Unicredit, que estão o testando como uma maneira de entrar com cautela na blockchain. Mas para aqueles com uma missão ideológica de espalhar moedas descentralizadas como a Bitcoin, moedas pré-minadas são a antítese do que torna a blockchain boa e são frequentemente um indicador sólido de que você está se envolvendo em um golpe.

O Petro definitivamente soa como um golpe. Não apenas ele é apoiado pelo petróleo que também apoia sua moeda fiduciária, mas também não está sequer claro se a Venezuela será a dona desse petróleo por muito tempo. Em agosto, a Reuters noticiou que a Venezuela estava, secretamente, oferecendo à Rússia o controle de uma parte significativa de seus ativos de petróleo em troca de mais linhas de dinheiro e crédito. Não sabemos se algum acordo foi fechado atrás de portas fechadas, mas, em novembro, a Rússia reestruturou generosamente os bilhões em débito devidos pelo governo venezuelano, apenas exigindo pagamentos “mínimos” pelos próximos seis anos.

O precipitadamente criado Petro também levanta questões sobre que tipo de protocolo será usado para implementar a blockchain da Venezuela. O método mais efetivo de criar uma criptomoeda segura tem sido por meio de softwares de código aberto que são refinados ao longo dos anos. A menos que a Venezuela esteja apenas pegando um sistema testado como a Bitcoin, mantendo-o com código aberto e chamando de seu, não existe razão para confiar na segurança da criptomoeda venezuelana.

No fim das contas, o único benefício que o Petro parece oferecer é que as pessoas talvez consigam parar de carregar sacos enormes de dinheiro para comprar bens básicos. Não está claro exatamente como uma moeda digital centralizada ajudaria o governo a contornar sanções econômicas, como insistiu Maduro no mês passado. Afinal, um governo ciente das sanções não pode abertamente aceitar a moeda, seja no formato de notas ou em códigos de uns e zeros. Agentes suspeitos poderiam potencialmente aceitar Bitcoin ou moedas alternativas mais anônimas, como a Monero, e os early adopters da Bitcoin reforçam esse exato ponto há anos. Quando um golpe militar aconteceu no Zimbábue em novembro de 2017, por exemplo, a Bitcoin surgiu nas casas de câmbio locais.

Quanto à criptomoeda ainda em desenvolvimento da Rússia, as autoridades também disseram que ela poderia ser um jeito de contornar sanções. De acordo com o Financial Times:

Sergei Glazev, conselheiro econômico de Putin, disse, em reunião recente do governo, que o criptorublo seria uma ferramenta útil para contornar sanções internacionais.

“Esse instrumento se encaixa muito bem com a gente por causa da atividade sensível em nome do estado. Podemos acertar as contas com nossas contrapartes em todo o mundo sem respeito às sanções”, afirmou Glazev.

Ele acrescentou que a criptomoeda seria “o mesmo rublo, mas sua circulação seria restrita de certa forma”, permitindo ao Kremlin rastrear cada movimento seu.

Mais uma vez, não está claro como uma moeda digital centralizada seria melhor para atividades ilegais do que sistemas já existentes. Uma dica pode vir das supostas ordens de Putin à sua equipe para bolar uma maneira de regular criptomoedas. A lei russa é frequentemente usada como uma maneira de manter os inimigos dos poderosos na linha. Quando todo mundo é culpado de infringir a lei, o governo tem a vantagem de aplicar seletivamente essa lei como desejar. Por exemplo, leis feitas para evitar o envio de dinheiro russo para o exterior são raramente usadas, a menos que uma empresa ou um oligarca específicos mostrem não estar cooperando com o estado. É possível que Putin esteja apenas tentando transferir o controle de atividades ilícitas por meio de criptomoedas de modo mais firme sob seu próprio controle.

Acostumamo-nos a banqueiros chamando a Bitcoin de uma fraude e a reguladores em países com sistemas financeiras estáveis advertindo que restrições mais rígidas seriam necessárias para o futuro. Em breve, veremos o que acontece quando países com sistemas financeiros bem ferrados começam a insistir que sua moeda é a melhor moeda.

[Financial Times, Bloomberg, Wall Street Journal]