Sabe aqueles fones de ouvido baratos que você compra no mínimo um por ano? Aqueles super bonitinhos e coloridos? A qualidade deles é bem parecida, né? Tem uma boa razão pra isso: é porque eles são iguais. 

No mundo dos gadgets, os fones de ouvido ocupam uma posição bem estranha. Poucos tipos de gadgets têm tamanha variedade (tanto de preço quanto de qualidade). Todo ano, as diversas empresas que ocupam o mercado mostram uma penca de novos modelos multicoloridos na CES, com diferentes frequências de resposta e designs. Por eles, você pode pagar desde pouco mais de dez ou vinte reais (por fonezinhos padrão) até mais de dois mil dólares (por fones intra-auriculares moldados sob encomenda no formato do seu ouvido). O espaço entre estes dois extremos, mesmo sendo bem grande, também já está ficando superlotado, com opções especiais para praticantes de yoga, corrida, academia, malabarismo de serra elétrica – praticamente qualquer atividade que alguém possa pensar em realizar ouvindo música. E isso sem nem falar naqueles modelos maiores, que cobrem a cabeça – chamaremos eles de "fones de cabeça" neste texto.

O que acontece é que tamanha variedade pode confundir o consumidor – especialmente se olharmos para a porção mais barata deste mercado. Apesar da incrível gama de opções oferecida por empresas como a Skullcandy e a Scosche lá fora pode sugerir o contrário, você definitivamente não está adquirindo uma peça única e pessoal quando compra um destes

"A maneira mais simples de entrar na indústria é escolhendo um produto que seja razoavelmente bonito e tenha um som aceitável e fazer com que ele seja impresso e embalado com o nome da sua empresa", diz Neville Stuart, engenheiro de pesquisa na Bowers & Wilkins. 

E isso é precisamente o que fazem as Skullcandys, Cobys e iLuvs do mundo. Com bastante sucesso, por sinal.

Segundo números recentes da CEA, o lucro sobre carregamentos de fones de ouvido com fio ultrapassou 447 milhões de dólares este ano, com um aumento projetado de mais 10 milhões até o fim de 2011. Isto tudo apesar do custo de fabricação permanecer na média dos 8 dólares. 

Com uma barreira de entrada cada vez mais fácil de ser ultrapassada, o mercado de fones de ouvidos baratos explodiu nos últimos anos. É um mercado que tem você como cliente – e todo mundo que quer substituir os fones de ouvido porcaria inclusos nos seus gadgets ou quer algo menos feio para enfiar nos lados da cabeça.

"O mercado de fones sub-US$ 50 se tornou um espaço completamente dominado por produtos sem distinção", diz Seth Burgett, presidente e CEO da Yurburds. Um espaço onde tudo, do design à montagem, é terceirizado por meia dúzia de fabricantes na China e no Extremo Oriente. 

É assim que as coisas funcionam de verdade no mundo dos fones de ouvido baratos: todo ano, duas enormes feiras acontecem em Hong Kong: a Global Sources Fair e a Hong Kong Electronics Fair. Assim como a CES e a Adult Entertainment Expo, acontece uma sobreposição nos dias em que essas duas feiras ocorrem. E também assim como a CES e a AEE, rola uma "troca de experiências" entre os expositores e quem comparece às duas.

Nenhum dos dois eventos é relacionado diretamente ou unicamente ao mercado de fones de ouvidos, mas a Global Sources Fair tem um foco em componentes. Nela, você encontra o cara das borrachinhas, a empresa dos botõezinhos de volume, o outro que faz amplificadores capcitivos… enfim, a família toda. A HK Electronics Fair é sobre produtos finalizados. Você pode andar e ver estande atrás de estande, todos eles com designs referenciais "prontos". Para uma empresa de pequeno porte, estes eventos são um paraíso, e geralmente a base da linha de produtos do próximo ano. 

"Você basicamente pega folhas de especificações destes fabricantes e então escolhe a la carte o que quer", diz Burgett. 

É só dar uma olhada nos catálogos distribuídos nestas feiras para ver do que ele está falando. Estes livros de 200 páginas apresentam centenas de fabricantes e distribuidores com certificações ISO, cada um trompeteando a sua capacidade de copiar designs populares, bolar novos e, sim, simplesmente colocar a marca da sua empresa em um dos seus produtos. 

"Quando nós dizemos que os nossos fones de ouvido, headphones e outros itens são personalizáveis, nós falamos sério", diz um destes folhetos de propaganda, ao lado de uma foto enorme de um fonezão cor-de-rosa. "Apenas escolha o modelo de sua preferência e você pode ajustar os parâmetros, cores, logos, impressões e até escolher a embalagem". 

"Nossos 10 engenheiros de pesquisa e desenvolvimento criam 15 novos fones de ouvido e headphones por mês", é o que se lê em outro. Isso é um monte de fones. Porque é necessário. Como empresas de pequeno porte que vendem fones de ouvido geralmente não empregam designers ou engenheiros, as fabricantes têm um enorme mercado nas suas mãos. E bom design não precisa necessariamente ser caro. Especialmente quando você "se inspira" no bom design de outrem. 

Compreensivelmente, não há muita gente nesta indústria disposta a falar abertamente sobre isso, mesmo entre aqueles que se consideram acima da plebe. Mas aqueles com quem conseguimos conversar anonimamente somente reforçaram este triste estado das coisas. 

O que empresas como a Skullcandy fazem é ir a estes eventos e perguntar aos caras das fábricas quais headphones novos eles têm este ano", disse um executivo de uma empresa de fones de ouvido bem conhecida. O que se segue é basicamente uma venda por atacado, cópia descarada mesmo – sem os componentes de qualidade. Uma empresa escolhe um design de referência popular e pede ao fabricante que coloque o seu logo na lateral, talvez troque algumas cores, encomenda alguns milhares e era isso.

O resultado, claro, é uma linha de fones de ouvido que, mesmo entre empresas diferentes, têm basicamente o mesmo desempenho e são produzidos nas mesmas fábricas.

Outros preferem uma abordagem mais buffet, escolhendo seus componentes individualmente e então passando a ordem de fabricação para uma ou duas fábricas diferentes. As coisas também são bem incestuosas aqui, segundo Neville. 

"Há provavelmente milhares de fabricantes diferentes de speakers de 15mm para fones de ouvido, mas apenas alguns poucos têm qualquer competência acústica significativa", diz ele. "Alguns fazem boas cópias de líderes do mercado. Mas alguns desses líderes também estão usando cópias, o que significa que alguns são cópias de cópias, incluindo aí os defeitos."

É um festival de porcaria!

Se essas colaborações inevitavelmente resultam em nada mais do que mediocridade com marcas diferentes, apoiada por empresas que gastam muito mais com marketing do que com qualquer outra coisa, por que os consumidores continuam consumindo? A resposta não deve ser surpresa para ninguém. 

A qualidade sonora continua sendo um dos critérios mais subjetivos e pessoais no mundo da tecnologia. Diferente do vídeo, não há nenhum padrão na indústria para o que seria um "som bom", não há um benchmark contra o qual medir se o som deste fone é música para os meus ouvidos ou é um prego arranhando um quadro negro. No seu lugar, surgiu uma fixação particular com marcas, o que é particularmente vantajoso para muitas destas empresas.

Há uma movimentação contrária ao lixo que já vem incluso com a maioria dos players de mídia, mas o mercado de fones abaixo de 50 dólares continua a crescer, baseado principalmente na sua habilidade de marketing agressivo e de vender estilo acima de substância. 

O que nos traz de volta a um apelo que já fizemos antes: por favor, se você gosta de música, gaste um pouco mais em fones de ouvido bons. Desde o que você ouça seja decente, mesmo gastar algumas poucas dezenas de reais ou dólares a mais já pode fazer um mundo de diferença. Sim, muitas vezes é difícil resistir a um design esperto ou uma embalagem bacana. Mas, sério, pule de um fone de 20 dólares para um de 100 e você vai ouvir – alto e claro – tudo o que estava perdendo. 

Arte original do artista convidado Chuck Anderson. Veja o trabalho dele em www.nopattern.com e siga-o no Twitter