Chris Hadfield fez com que voltássemos a nos importar com astronautas. Com seus vídeos, fotos e tuítes, ele se tornou uma celebridade durante cinco meses. Ele mostrou coisas legais feitas no espaço, como tirar fotos a partir da Estação Espacial Internacional, e mostrar o que o espaço faz com cada um dos seus cinco sentidos.

Agora, em seu novo livro, ele conta sobre sua experiência na ISS. Este post foi extraído de O guia de um astronauta para a vida na Terra: o que minha viagem ao espaço me ensinou sobre engenhosidade, determinação, e estar preparado para qualquer coisa, pelo coronel Chris Hadfield, já disponível na Amazon em inglês (ainda sem tradução para o português).


O estrondo ficou mais forte e insistente à medida que ouvíamos a contagem regressiva, em russo, através de nossos fones de ouvido. E então, “Pusk” – decolar.

Foi uma sensação muito diferente da que tive nos meus dois lançamentos do ônibus espacial Space Shuttle. Era muito mais gradual e linear, à medida que o veículo queimava combustível suficiente para ficar mais leve para a decolagem. A aceleração inicial era bem semelhante a ficar apenas sentado no chão. Sabíamos que estávamos deixando a base de lançamento mais por causa do relógio do que pela sensação de velocidade.

Para quem estava assistindo lá fora, os primeiros 10 segundos de lançamento foram dolorosamente lentos. Kristin [Hadfield, filha do astronauta] admitiu depois que ela estava com medo, tanto que ela não queria tirar nenhuma foto, nem tirar os olhos da Soyuz por um segundo. Comparado a um lançamento espacial, o foguete parecia demorar um pouco demais ao pairar acima da base. Um convidado disse que era como se um levantador de peso invisível estivesse lá embaixo, lutando bravamente para erguer o veículo – e o fracasso era uma opção.

Dentro do veículo, no entanto, nós estávamos cheios de expectativa, em vez de temor: prontos para esta máquina fazer o seu trabalho. Era como ser um passageiro em uma grande locomotiva, mas podendo puxar o freio de emergência se necessário. Nós tínhamos um certo grau de controle; o desafio era saber se e quando usá-lo.

Dentro de um minuto, fomos empurrados para baixo em nossos assentos cada vez mais fortemente. A subida inicial era perceptível, mas suave, mais ou menos como voar em um cabo de vassoura que uma mão invisível calmamente guiava um pouco para a esquerda, depois um pouco para a direita, para trás e para frente. O foguete foi corrigindo automaticamente a sua atitude, enquanto subíamos e o vento e corrente de jato mudavam.

chris hadfield

No entanto, a viagem começou a ficar menos suave. À medida que nossos motores de primeiro estágio eram interrompidos, e os impulsionadores explodiam nas laterais, houve uma notável mudança na vibração, e aceleração ficou menor – mas não a velocidade, que sempre aumentava. Fomos jogados para frente e depois puxados para trás enquanto o Soyuz, iluminado, seguia para cima. Este movimento de guinada e desaceleração se repetiu quando os motores de segundo estágio se separaram.

Quando se acenderam os motores do terceiro estágio – que nos levariam a velocidades de órbita – fomos puxados ainda mais fortemente. Mas isso foi algo muito bom de sentir, porque um ano antes, o terceiro estágio não se ativou em um veículo Progress não-tripulado de reabastecimento; ele caiu em uma região pouco povoada do Himalaia. Se isso acontecesse com a gente e o paraquedas da Soyuz fosse aberto, levariam dias até nos encontrarem. Todos nós fizemos treinamento de sobrevivência de inverno em áreas remotas, para estarmos preparados para tal cenário, por isso tínhamos uma boa ideia de como esses dias seriam terríveis.

Durante toda a subida, nós respirávamos um pouco mais tranquilos à medida que cada marco importante passava. No entanto, este não foi um processo estressante. Ao nos aproximar de certos limiares, sabíamos que possivelmente algo muito ruim poderia acontecer, mas também tínhamos um plano para o que cada um de nós faria. Estávamos bem acordados e prontos para entrar em ação. Se algo desse muito errado, como os motores não desligarem na hora certa, eu iria ativar um interruptor e pressionar dois botões de emergência para acionar os parafusos explosivos, que iriam impulsionar a nossa cápsula e separá-la do foguete. Eu teria cinco segundos para avaliar o que estava errado e tomar as ações apropriadas.

Nós três revisamos quem iria fazer o quê, com permissão de quem, mais de uma vez. Nós concordamos que, se X não acontecer dentro de Y segundos, eu iria ativar a separação de contato. Quem se senta à esquerda é a única pessoa que pode alcançar esses botões. Eu levantei as tampas que normalmente os cobrem, e por isso estava pronto para pressioná-los a qualquer momento; foi maravilhoso quando eu pude fechar essas tampas e não me preocupar com isso.

Nove minutos se passaram. Nossos motores de terceiro estágio foram cortados, a Soyuz se separou, e suas antenas e painéis solares foram ativados. O controle de voo estava prestes a mudar de Baikonur para o Centro de Controle da Missão Russa em Korolev, subúrbio de Moscou.

Cada grupo traz o seu próprio “medidor de força-g”, um brinquedo ou estatueta que nós penduramos na nossa frente assim que sabemos quando estamos sem peso. O nosso era Klyopa, uma pequena boneca de malha baseada em uma personagem de TV russa para crianças. Foi uma cortesia de Anastasia, a filha de Roman [Romanenko, astronauta da missão] com 9 anos de idade. Quando a corda que a segurava de repente começou a flutuar, eu tive uma sensação que eu nunca senti antes no espaço: cheguei em casa.


Republicado com permissão. Trecho de An Astronaut’s Guide to Life on Earth: What Going to Space Taught Me About Ingenuity, Determination, and Being Prepared for Anything, por Chris Hadfield, publicado por Little, Brown and Company. (c) 2013 por Chris Hadfield

Foto inicial: da esquerda para a direita, Thomas Marshburn, Roman Romanenko e Chris Hadfield na nave Soyuz. Imagem por NASA.