A última edição da Wired, revista mais importante sobre tendências tecnológicas dos EUA, estampou na capa um título bem direto: “a web está morta”. Assinada pelo editor-chefe da revista Chris Anderson – conhecido pela Teoria da Cauda Longa e pelo livro Free – e por Michael Wolff, outro renomado jornalista americano, a matéria deixa claro que não é a internet que está morrendo, e sim a World Wide Web, a internet que você usa pelo browser. E quem matou-a? Os aplicativos, o iPhone, o iPad, o Facebook, o Skype. No resumo, muitos sistemas que não dependem da web propriamente dita. Mas será que esse efeito está realmente acontecendo?

Anderson começa a matéria relatando o dia a dia de um americano comum – é importante frisar que a matéria diz respeito praticamente aos EUA – com o intuito de mostrar como a sociedade atual tem migrado da web para os aplicativos. Segundo Anderson, as pessoas ainda amam o ambiente livre e aberto da web, mas buscam cada vez mais apps específicos, que façam bem uma só ação. A expansão dos aplicativos P2P e a explosão dos vídeos também fazem parte do “novo mundo” da internet. A web seria apenas um dos primeiros passos da totalidade da internet e, após mais de uma década de reinado, seu uso teria chegado ao limite.

Em meio a tantos aplicativos e de novos formatos de uso da internet fora do browser, a web está cada vez mais semelhante à mídia tradicional, diz a matéria. O argumento é que estamos cada vez mais limitados a poucos sites acessados – nos EUA, os 10 sites mais acessados no ano têm 71% do tráfego online. É um processo natural: por mais vasta que a web seja, nós nos acostumamos ao que nos interessa e ao que nos agrada. E com a aquisição de grandes sites por executivos da “velha mídia”, como Rupert Murdoch, o processão de verticalização da web e do fim da horizontalidade é algo realmente preocupante.

Debate online

A repercussão da matéria teve posições radicalmente contrárias, é claro, na web. A mais contundente até então é a de Rob Beschizza, do gigantesco blog Boing Boing, que questionou um dos gráficos usados na Wired para corroborar a teoria. Os números usados na revista mostram o crescimento do P2P, dos vídeos online, mas não leva em consideração o crescimento real de tráfego na web nesse mesmo período. “A escolha de uma proporção do número total em vez do total atual de tráfego é uma escolha editorial curiosa”, diz Beschizza. Pelos números da Cisco, o total de dados da web pulou de 10 terabytes por mês em 1995 para 1 milhão de terabytes em 2006. Eis como o gráfico realmente ficaria:

Mas é importante lembrar também que, em 2009, o tráfego de dados móveis foi maior do que o tráfego de conversas em voz durante todos os 12 meses do ano. E que pela primeira vez o acesso móvel ultrapassou 1 milhão de terabytes, o mesmo tráfego que a web teve em 2006, como revela essa ótima linha temporal da história da web.

A Gawker frisa também que é no mínimo interessante o fato de a matéria ter chegado ao site da revista antes da edição estar nas bancas, algo que mostra o impacto que a internet comum ainda tem na mídia tradicional. Matt Buchanan, do Gizmodo US, lembra que a Wired já "matou" o browser em 1997. Já o Technologizer faz piada ao lembrar que praticamente tudo já morreu na era da internet, fazendo um apanhado de outros obtuários, como do Facebook, do Google, do Office, do Linux e de muitos outros serviços, e que não há nada mais natural do que matar a web como um todo.

A Wired tem historicamente a fama de levantar polêmicas sobre o futuro da sociedade digital – e essa é a função de revistas que debatem o que faremos daqui para a frente, desde que existam bons argumentos. As discussões são sempre muito bem-vindas – o debate entre Tim O’Reilly, um dos criadores da teoria da Web 2.0, e Chris Anderson no site da revista é muito valioso. Concordando ou não com a teoria, é ótimo ver como a discussão dominou a web em todos os seus níveis, seja nos 10 sites mais acessados nos EUA, seja nos fóruns mais sombrios.

Mas é preciso entender que o cenário descrito na matéria é basicamente norte-americano – é comum essas previsões “ignorarem” o resto do planeta. No Brasil, os aplicativos ainda não foram completamente difundidos e a parcela da população que vive no mundo “conectado” por smartphones e tablets ainda é ínfima. Mas, como as novidades demoram a chegar por aqui, é natural que a expansão das tecnologias móveis também domine o país nos próximos anos (já há números claros do crescimento feroz da internet móvel no Brasil), já que teremos um grande crescimento econômico como aliado. Caso a profecia se concretize, talvez a web morra nos EUA nos próximos anos e assistamos de camarote por aqui, enquanto aguardamos mais uma década pelo seu último suspiro no Brasil.

Mas se a ideia é o debate, nada melhor do que trazê-lo para cá também. E já há muita gente discutindo o assunto, e não é de hoje: Pedro Doria, do Estado de São Paulo, disse após o lançamento do iPad que Jobs queria concorrer com a web. Chris Anderson não só concorda, como afirma que essa batalha já tem seu vencedor. E o que você, caro leitor, acha da teoria? A web realmente está fadada ao segundo plano, assistindo o reinado dos aplicativos e da internet móvel, que seria o “próximo passo”?