Esqueça o HomePod ou a última versão do iOS. As grandes novidades que saíram da WWDC estavam relacionadas a algo que a Apple e a maioria dos consumidores não se importam muito: realidade virtual. Entre as atualizações de computadores com os processadores Kaby Lake, da Intel, e as demonstrações de voz da Siri, Tim Cook anunciou uma ampla variedade de alterações de software e hardware que finalmente trarão a realidade virtual para o macOS. Isso é bem surpreendente, já que o próprio Tim Cook tem um histórico de não dar a mínima para essa tecnologia.

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“A realidade virtual, acho, tem algumas aplicações interessantes, mas não penso que é uma tecnologia com grande apoio”, comentou Tim Cook a repórteres, durante o anúncio do balanço financeiro da Apple em outubro. Na época, Cook estava defendendo a realidade aumentada, uma tecnologia que a Apple endossou na segunda-feira (5), com o anúncio do ARKit.

Então, o que provocou a súbita mudança de ideia em Tim e na empresa? A palavra realidade virtual foi espalhada em diversos momentos da apresentação de segunda-feira, mencionada não apenas no anúncio de compatibilidade do SteamVR no macOS (isso significa que o HTC Vive irá funcionar em um Mac) ou no “Kit externo de desenvolvimento de gráficos” (uma nova caixa feita pela Sonnet que utiliza o Thunderbolt 3 para aumentar a potência gráfica das máquinas), mas também nos anúncios das atualizações dos MacBooks Pro e do novo iMac Pro.

Muito disso pode atrair de volta os profissionais criativos que a Apple tem ignorado nos últimos tempos em favor dos usuários de iPhone. A Apple reconheceu pela primeira vez em março que seu relacionamento com essa comunidade era um problema quando realizou um evento cuidadosamente elaborado apenas para que pudesse prometer que um novo Mac Pro chegaria… No futuro.

Mas os concorrentes da Apple não iriam esperar pelo desktop de alta tecnologia que o pessoal de Cupertino está preparando. No ano passado, a Microsoft mergulhou de cabeça no lançamento do Surface Studio. A estação de trabalho grande e bonita impressionava. Até os fãs assíduos da Apple ficaram interessados. Ele não era particularmente poderoso, mas era flexível, permitia o uso em diversas posições, e o Dial – um pequeno periférico que pode ser utilizado na tela para fazer ajustes dentro de aplicativos – deu aos profissionais um novo jeito de interagir com programas essenciais para eles.

Todos os novos produtos da Apple pareceram querer ofuscar os avanços da Microsoft. Onde a Microsoft focou no design com o Surface Studio, a Apple investiu em poder com o iMac Pro, colocando um processador Xeon de até 18 núcleos e a GPU Vega, da AMD, em um desktop tão fino quanto uma pequena pilha de panquecas.

pessoas-homepodAs pessoas amaram o HomePod

E, como comentado antes, a empresa também investiu na realidade virtual, e todas as máquinas poderosas podem rodar a tecnologia. Isso ficou bem aparente depois da apresentação, quando a imprensa foi para uma sala escura cheia de demonstrações. Enquanto muitos foram dar uma olhada no HomePod que nem funcionava, a maior parte da sala estava repleta de demonstrações de realidade virtual.

“Esse é para profissionais”, um representante da Apple me disse, pouco antes de colocar um headset HTC Vive nos meus olhos e me fazer ficar cara a cara com o Darth Vader. Foi praticamente idêntica à demonstração do Vader que vimos no palco durante a apresentação. O propósito, de acordo com o representante, era mostrar o quão suave a realidade virtual poderia funcionar no macOS High Sierra e com o hardware atual da Apple, como iMac 5K. “Eles podem desenvolver em um iMac”, disse, referindo-se aos desenvolvedores que precisam de uma máquina que atinja grandes números quando se trata de renderização 3D, como essa que encontramos na demonstração de Star Wars.

htc-vive-appleUma participante da WWDC dá uma olhada num vídeo 360 graus no Vive

Além de uma mesa com a atual geração de iMacs pronta para realizar as demonstrações em realidade virtual, havia outra mesa cheia de MacBook Pros ligados a caixas com GPUs externas. As caixas estavam ali para mostrar o novo kit externo de desenvolvimento de gráficos que a companhia anunciou na apresentação. Mas, de acordo com os representantes da Apple, qualquer GPU externa que se conecte por meio do Thunderbolt 3 deve, na teoria, funcionar no ecossistema do macOS.

caixa-sonnetA caixa Sonnet, com uma placa de vídeo AMD Radeon RX 580 8GB

As GPUs externas não são novas. Tanto a Alienware quanto a Razer têm levado suas caixas (a Graphics Amplifier e a Core, respectivamente) para os gamers. Para essas companhias, a GPU externa é uma grande concessão. Você pode ter um notebook superleve com uma ótima autonomia de bateria quando está se locomovendo pela cidade e um computador que é tão poderoso quanto um desktop quando chegar em casa. Perfeito não apenas para os fãs de realidade virtual e gamers, mas também para profissionais criativos que precisam de um poder extra de placa de vídeo para renderizar em 3D.

Talvez o interesse repentino da Apple em realidade virtual não tenha nada a ver com agradar profissionais. Talvez tenha realmente a ver com os gamers masoquistas que querem jogar em uma plataforma pouco suportada por desenvolvedores de videogames. Mas, pelo menos daquilo que vimos até agora, esse não parece ser o caso. Parece que a Apple está focando na realidade virtual porque ela está bem atenta ao fato de que não pode continuar ignorando os usuários profissionais que ajudaram na construção da ideia de que a Apple é uma empresa legal.

O belíssimo novo iMac Pro. (Todas as imagens: Alex Cranz/Gizmodo)