São vários os predicados de Austin. Mas, em primeiro lugar, esqueça estereótipos mais texanos, principalmente o conservadorismo. A simpática capital do Texas é um reduto liberal, criativo, inovador e verde em pleno deserto. Alguns fatores contribuem para dar a Austin uma cara que é cool e meio hippie ao mesmo tempo.

A universidade do Texas fica localizada ali, o que leva muitos estudantes à cidade. Entre os maiores empregadores de Austin estão as empresas de alta tecnologia – e por isso a região é conhecido como “Colinas do Silício”, em referência ao Vale do Silício, em Palo Alto, na Califórnia. Dell, IBM, Intel, Samsung e Apple são algumas delas. Pelo menos dois grandes eventos acontecem anualmente na cidade, atraindo gente do mundo inteiro para lá.

Um deles é um dos maiores festivais de música dos Estados Unidos, o Austin City Limits. O outro nasceu em 1986 como um festival de bandas locais para se tornar parada obrigatória de quem busca inovação. O South by Southwest, o SXSW, que tem como pilares interatividade (com forte pegada tecnológica e empreendedora), filmes (com direito a lançamentos mundiais) e música (com shows para todo o tipo de gosto, do rock ao country, passando por indie e jazz).

Mesmo quando não está recebendo os grandes festivais, Austin tem cerca de 200 casas de shows, onde bandas ao vivo se apresentam o tempo todo. Vem daí o aposto de “capital mundial da música ao vivo”. Boa parte desses lugares se concentra na movimentada 6th Avenida. A cidade ainda tem outros atrativos, alguns bem estranhos.

A ponte da Avenida Congress, que passa por cima do rio Colorado, onde a população de cerca de 800 mil habitantes pratica de pedalinho a stand up paddle, serve de morada para um número assustador de morcegos. São 1,5 milhão deles, que saem em revoada ao pôr-do-sol.

StandUp_Austin

É comum para quem está andando na calçada da mesma ponte ter que dar passagem para os famosos riquixás, que têm estudantes, muitas vezes vestidos com roupas inusitadas como uma fantasia de Mulher Maravilha, como motoristas. Por essas e outras é comum encontrar à venda camisetas com a frase Keep Austin Weird (Mantenha Austin Esquisita).

MulherMaravilha_Austin

Além dos festivais, dos riquixás, dos morcegos, da efervescência cultural, dos fabulosos cinemas de rua e dos moradores extremamente gentis e atenciosos, há mais uma atração em Austin: o Whole Foods, um dos maiores cases de empreendedorismo do mundo.

O Whole Foods é uma espécie de Disneylândia de quem curte uma alimentação saudável e orgânica. Mas nem ouse pensar em um lugar natureba com produtos sem graça, sem sabor, sem glamour ou pouco atraentes.

Pelos corredores do Whole Foods o que se vê são produtos altamente atrativos, em que tudo parece incrível. Das embalagens à organização, passando por uma enorme diversidade. Lá você é capaz de encontrar, por exemplo, uma dezena de tipos diferentes de chia. Sim, de chia. E o melhor: impera a filosofia de que alimentação precisa ser saudável. Os produtos são orgânicos, livre de substâncias químicas nocivas à saúde.

Mas a classificação “orgânico” vai muito além do departamento de alimentos e se esparrama pelas áreas de roupa e maquiagem. Há roupa e maquiagem à venda no Whole Foods, assim como acessórios para casa, tapetes para fazer yoga, complementos alimentares e vitaminas e um departamento que vende a granel. A diversidade também pode ser vista na equipe do supermercado. Tem funcionário de cabelo azul, vermelho, pessoas tatuadas, gente branca, preta, tem japonês, mexicano…

Além dos produtos à venda, você pode fazer belas refeições ali mesmo. No café da manhã, por exemplo, um bufê oferece diferentes tipos de granola, como uma deliciosa com gengibre. Além dos produtos, digamos, mais comuns, não faltam opções gostosas para aqueles que não consomem lactose ou glúten.

Buffet_WholeFood

Os fãs de suco verde e sucos detox ficam perdidos em meio a tantas opções. Há um balcão em que você pode pedir seu suco na hora ou, se não estiver a fim de tomar grandes decisões, pegar alguma das garrafinhas já prontas.

SucoVerde_WholeFood

Tão impressionantes como os corredores da loja e a experiência que se tem ali dentro é a história da companhia, que nasceu em Austin em 1978. Aos 25 anos, John Mackey e sua namorada de 21, Renee Lawson, ambos moradores da cidade, resolveram pedir dinheiro para a família e amigos para abrir o próprio negócio. O investimento foi de cerca de 45 mil dólares. Eles criaram um mercadinho de produtos naturais e saudáveis chamado SaferWay, uma brincadeira com a rede de supermercados Safeway.

Dois anos depois, eles se juntaram a mais dois moradores de Austin, Craig Weller e Mark Skiles, então donos da Clarksville Natural Crocery. A parceria deu origem ao primeiro Whole Foods Market, aberto em setembro de 1980, com 19 funcionários. Um ano depois, Austin sofreu com uma de suas piores enchentes. A loja do Whole Foods foi atingida e teve prejuízos em torno de 400 mil dólares. A empresa não tinha seguro.

Funcionários, amigos, vizinhos, fornecedores e credores ajudaram, cada um à sua maneira, a colocar o supermercado em pé em menos de um mês. Depois do episódio, John Mackey passou a adotar uma série de práticas com a filosofia de que a essência do negócio é, afinal, “servir o outro”, além de, naturalmente, contribuir para que as pessoas se alimentem de forma saudável.

Deu resultado. Hoje a rede Whole Foods tem cerca de 400 lojas, 85 mil colaboradores e mais de 30 mil produtos que vende privilegiando produtores locais. Em 2014, o faturamento da companhia foi em torno de 15 bilhões de dólares. Está há mais de dez anos na lista de melhores empresas para trabalhar, por adotar práticas singulares.

Enquanto a média de diferença salarial entre o CEO de uma empresa americana e o salário de um funcionário operacional chega a 300 vezes, no Whole Foods ela não pode ser maior que 20 vezes. Os salários são abertos, para quem quiser ver. Quem começa a trabalhar ali passa por um período de experiência, mas quem avalia é a equipe que trabalhará diretamente com o novo funcionário. Entre os benefícios para a equipe estão massagem e, claro, yoga.

A rede não trabalha com alguns ingredientes que considera nocivos à saúde das pessoas e, por isso, não vende qualquer produto com esses ingredientes. Vende refrigerante? Vende, mas só aqueles feitos sem aspartame e alguns conservantes químicos. Vende carne apesar do CEO ser um vegano convicto? Também vende. Mas precisa ser de qualidade garantida. O supermercado criou uma fama de careiro, pelos preços mais salgados dos produtos que vende, e chegou a ganhar o apelido de “whole paycheck”.

Aos 61 anos, o CEO John Mackey tornou-se entusiasta e um dos principais nomes do capitalismo consciente, movimento que prega, entre outros valores, que uma companhia deve ter um propósito maior do que gerar lucro aos acionistas. Também prega que a filosofia do ganha-ganha é viável. Ou seja, de que é possível, e lucrativo, a criação de um ambiente em que o fornecedor se dê bem, assim como o acionista e o consumidor. Além de falar sobre capitalismo consciente e seus valores, Mackey é autor do livro, ele tem a própria história da rede Whole Foods como credencial.

A propósito: não foi só na área de empreendedorismo que Austin, esse lugar cool e meio hippie ao mesmo tempo, lançou grandes nomes. O escritor sul-africano John Maxwell Coetzee, Nobel de Literatura em 2003, é formado pela Universidade do Texas, onde deu aula. São de lá os atores Ethan Hawke, Matthew McConaughey e Sandra Bullock e os diretores Richard Linklaer, de Boyhood, e Robert Rodriguez. Na mais recente edição do SXSW, que aconteceu em março deste ano, Rodriguez ofereceu um almoço de boas vindas a produtores em seu estúdio, localizado na cidade, e contou que todo o filme Sin City foi feito ali. “Há alguma mágica aqui”, confidenciou ele.