Em menos de uma semana, a Valve implementou um sistema de mods pagos no Steam, enfrentou a revolta dos seus usuários, tentou defender a posição e acabou desistindo da ideia. Foram dias agitados para a empresa de Gabe Newell, que achou que seria uma boa ideia vender modificações de jogos através do Steam.

Na semana passada, a Valve anunciou que começaria a vender mods de jogos através do Steam Workshop. A ideia era simples: considerando toda a popularidade que essas modificações tem entre os jogadores, o pessoal da Valve achou que seria uma boa tentar ganhar uma graninha a mais com a distribuição de mods. E, ao mesmo tempo, parecia justo que alguns modders que dedicam muito tempo da vida para suas criações também ganhassem um pouco com elas, em vez de simplesmente distribuí-las gratuitamente pela internet.



O primeiro jogo a receber a possibilidade de venda de mods foi The Elder Scrolls V: Skyrim, lançado pela Bethesda em 2011 e que até hoje é extremamente popular entre jogadores e modders — afinal, trata-se de um jogo gigantesco por si só, e que pode ficar ainda melhor com algumas adições feitas por jogadores.

O preço do mod seria definido pelo próprio modder — ele escolhe quanto quer cobrar, a Valve cuida da distribuição através do Steam Workshop, e o valor total das vendas é dividido entre publisher, Valve e modder — 25% para quem desenvolveu o mod, 45% para a publisher e 30% para a Valve. Injusto? Talvez. Mas isso era o de menos. Em questão de horas começaram a surgir problemas muito maiores.

Um dos primeiros mods vendidos pelo Steam Workshop era uma criação de Chesko usava partes de um mod de outro usuário — Fore’s New Idles — sem permissão. O conflito dentro da comunidade modder começou a ficar claro a partir daí. Fore’s não só não permitiu o uso do seu mod para fins comerciais como também era contra a prática — em um post no Steam, ele disse que isso significa “o fim de uma comunidade trabalhadora e criativa de mods”.

Além de problemas com a questão da possibilidade de roubo de ideias, modders se preocupavam com as mudanças que isso poderia causar para a cena de mods para PC, que sempre foi conhecida pela distribuição livre das modificações dos jogadores. Outros também temiam que isso poderia resultar em uma centralização de toda a cena modder dentro do Steam.

Mods pagos no Steam

Ao mesmo tempo, usuários tentavam vender mods ridículos de Skyrim — coisas como órgãos genitais de cavalos por US$ 99, uma maçã extra para um mesa em uma parte específica do jogo por US$ 29,99, uma galinha para acompanhá-lo em sua aventura por US$ 0,49, entre outras bizarrices.

Gabe Newell, uma das figuras mais idolatradas dentro do mundo dos videogames, tentou defender a ideia no Reddit, mas não adiantou muita coisa. Newell tentou argumentar que todos sairiam vencendo com isso — os modders teriam dinheiro e assim poderiam se dedicar mais às suas criações e os jogadores teriam mods mais bem acabados para aproveitar. Mas já era tarde. As respostas para Newell pediam que ele “fizesse a coisa certa”. Outros pediam para que, ao invés de simplesmente forçar todos a pagarem pelos mods, a Valve poderia incluir uma opção de doação para o desenvolvedor — assim, quando o jogador julgasse que vale a pena dar um troco para o outro que fez o mod, ele decide quanto e quando vai dar esse dinheiro.

Ontem, foi a vez da Bethesda se defender. Em um longo post em seu blog oficial, a publisher de Skyrim contou toda a história que levou à decisão de cobrar pelos mods — as discussões com a Valve começaram lá em 2012 quando a empresa de Gabe Newell apresentou dados que mostravam que ao cobrar por mods a qualidade deles melhorava, e isso seria bom para todos. A Valve passou então três anos tentando solucionar questões técnicas e legais para tornar isso possível, e, na semana passada, enfim conseguiu.

Mas era tarde demais. Poucas horas após o blog da Bethesda ir ao ar, a publisher e a Valve anunciaram a remoção dos mods pagos em Skyrim, e a devolução do dinheiro de todos que pagaram por alguma coisa nesses longos cinco dias de vida do serviço. Eles reconheceram: a intenção do serviço podia ser boa, mas definitivamente não era algo que os jogadores queriam.

Ao menos por enquanto, esse é o fim dos mods pagos dentro do Steam. Se a Valve voltará com uma ideia parecida no futuro não sabemos, mas, se realmente quiser mostrar para os seus usuários que vale a pena pagar pelas modificações, vai precisar de um trabalho muito melhor do que o que foi feito dessa vez. [Steam]

Foto: Mod de protesto “Não pague por mods”