Os danos da pandemia de Covid-19 vão muito além da doença e mortes causadas diretamente pelo vírus. Uma repercussão em particular, de acordo com um novo estudo divulgado na quinta-feira (21), tem sido sobre mais crianças lesionando os olhos com álcool em gel.

O estudo, publicado na JAMA Ophthalmology, analisou dados de centros de controle de intoxicação na França. Eles revelaram que os casos relacionados a lesões oculares com desinfetante para as mãos em crianças aumentaram drasticamente em 2020 em comparação com o ano anterior. Entre abril e o final de agosto de 2020, o número de incidentes foi sete vezes maior em relação ao mesmo período em 2019 – o que corresponde a quase 10% de todas as chamadas relacionadas aos olhos envolvendo crianças.

As internações em um hospital oftalmológico pediátrico especializado no país também aumentaram durante esse período. Em seis casos, a lesão foi tão grave que causou úlceras que cobriam mais da metade das córneas das crianças. E em dois casos, os pacientes necessitaram de enxertos de membrana amniótica ocular.

Embora as descobertas sejam limitadas à França, outros países também relataram um aumento nas lesões relacionadas a álcool gel durante a pandemia, incluindo os EUA. Muitos desses casos envolvem crianças que ingeriram acidentalmente o desinfetante, mas houve relatos anteriores de lesões oculares também.

Os autores do estudo têm uma teoria sobre o motivo pelo qual as lesões oculares estão especificamente aumentando. Desinfetantes para as mãos se tornaram onipresentes em locais e prédios públicos e, embora possam ser convenientemente colocados para as mãos de um adulto alcançarem facilmente, eles costumam estar na altura certa para cair nos olhos de uma criança por acidente.

Como evidência para esta teoria, os autores encontraram um grande aumento nas chamadas relacionadas a intoxicações, onde o incidente aconteceu em público. Isso também pode explicar a gravidade dessas lesões, uma vez que pode ser mais difícil para um adulto levar a criança à pia para lavar rapidamente o desinfetante em um ambiente público.

Com a pandemia ainda em pleno andamento, os autores argumentam que mais medidas devem ser tomadas para manter as crianças protegidas dessas lesões oculares.

“Para manter a boa adesão do público à desinfecção das mãos, essas descobertas mostram que as autoridades de saúde devem garantir o uso seguro de desinfetantes de mãos à base de álcool”, escreveram eles. “O cuidado ao posicionar os dispensadores em locais públicos, além de ilustrações informativas que enfatizam o risco de exposições não intencionais em crianças, são necessários em todos os países para evitar lesões oculares graves.”