Em 3 de janeiro de 2019, a CNSA (Administração Espacial Nacional da China) atingiu um feito nunca antes alcançado por ninguém: conseguiu colocar um módulo no lado oculto da Lua. Na quarta-feira (26), a equipe revelou novos conhecimentos sobre o que encontrou sob a superfície lunar.

Trocando em miúdos, o lado oculto da Lua é chamado assim, pois nunca está virado para a Terra, já que nosso satélite natural tem rotação sincronizada com o nosso planeta. O oposto ao lado oculto da Lua é a face que conseguimos ver do satélite.

A equipe da Chang’e 4 liberou o primeiro estudo de radar de penetração do lado oculto da Lua em um novo artigo. A sonda detectou material poroso e granular cravejado com rochas sob a superfície, um tipo de rocha diferente do que é encontrado no outro lado da Lua e provavelmente o resultado de material dragado por um grande impacto.

“Houve estudos geofísicos durante as missões Apollo, mas não com tal resolução”, disse Elena Pettinelli, uma das autoras do estudo, que está baseada na Università degli Studi Roma Tre, na Itália, ao Gizmodo.

A CNSA lançou pela primeira vez o satélite Queqiao em 2018 para o ponto Lagrange L2, um ponto estável em relação à Terra e ao Sol, a fim de poder se comunicar com o módulo lunar. A sonda Chang’e 4 e seu veículo espacial Yutu-2 se seguiram, tornando-se com sucesso a primeira missão a pousar no lado oculto da Lua, terminando na cratera Von Kármán. Os experimentos têm coletado dados desde então, e o artigo publicado nesta quarta-feira (26) vem do Lunar Penetrating Radar (Radar de Penetração Lunar), ou experimento LPR.

O LPR funciona como um radar aéreo, explicou Pettinelli. Uma antena transmissora dispara ondas eletromagnéticas quando uma pequena explosão de energia atinge o chão. As ondas viajam até encontrar um limite, uma diferença nas propriedades geológicas da rocha, e algumas delas ricocheteiam e retornam ao radar receptor, enquanto outras continuam descendo antes de refletir fora do próximo limite. O estudo, publicado na Science Advances, representa uma análise dos dois primeiros dias luares (um dia lunar dura cerca de um mês terrestre).

Esses resultados representam uma penetração mais profunda da superfície lunar comparado com missões anteriores, segundo a pesquisa. O radar revelou uma camada de um material homogêneo de 12 metros com rochas esporádicas; depois, uma de 12 a 24 metros, uma camada de rochas na maior parte uniformemente distribuídas com cerca de 0,2 a 1 metro de diâmetro; e então uma camada de pedras misturadas com material mais fino. Além de 24 metros de profundidade havia regiões com menos rochas, com as maiores majoritariamente mais próximas da superfície, além de regiões transparentes ao radar, sugerindo que elas consistiam principalmente de partículas de sujeira de granulação fina.

Tomadas em conjunto, as imagens de radar implicam que os pesquisadores estão observando depósitos de dejetos — rochas que se estabeleceram na superfície após vários impactos de asteroides, misturados com grãos finos que se acumulam ao longo do tempo. Rastrear quais rochas pertencem a quais impactos ou quais crateras não é possível, e o radar não pôde penetrar até o fundo do regolito. Ainda assim, os pesquisadores escrevem: “Este trabalho mostra que o uso extensivo do LPR poderia melhorar muito nossa compreensão da história do impacto lunar e vulcanismo e poderia lançar uma nova luz sobre a compreensão da evolução geológica do lado oposto da Lua”.

Estas imagens de radar são muito mais profundas do que aquelas tiradas pela missão Chang’e 3 da área visível da Lua, disse Pettinelli. As propriedades da rocha no lado próximo dificultaram a penetração do sinal do radar.

Bradley Thomson, professor associado de pesquisa no Departamento de Ciências da Terra e Planetárias da Universidade do Tennessee que revisou o artigo, achou os resultados convincentes e empolgantes, dado o desafio de realizar experimentos no lado oposto da Lua. Ele ressaltou que a LPR forneceu uma maneira fácil de acessar a superfície lunar, mas tem suas desvantagens.

“É possível detectar interfaces ou rochas enterradas, mas nem sempre é claro o que são essas camadas, por exemplo, camadas de impacto de crateras ejetadas, camadas de fluxo de lava, etc. Aqui parece que as camadas estão relacionadas a processos de impacto, e não a camadas vulcânicas”, disse Thomson.

Há ainda muito trabalho a ser feito. O veículo móvel Yutu-2 opera em duas faixas de frequência, alta e baixa. Este documento apenas relata os dados de alta frequência; os dados de baixa frequência representam um desafio de processamento, já que o próprio corpo do veículo espacial pode atrapalhar o sinal do radar. “Podemos ir muito mais fundo se encontrarmos uma maneira de processar os dados e cancelar o ruído e a interferência do rover no sinal das antenas”, disse Pettinelli.

Mas, por enquanto, a equipe provou que seu sistema de radar está funcionando e que servirá como uma ferramenta útil para ajudar a descobrir a história dos impactos no lado oposto da Lua.