A chegada do Netflix ao Brasil foi celebrada antecipadamente, mas recebeu algumas críticas após o lançamento por causa de suas prateleiras virtuais vazias de grandes títulos. Nos EUA, os lançamentos eram entregues pelo Netflix em formato físico, em sistema semelhante ao do Netmovies no Brasil, mas que dependia basicamente do bom sistema de correios do país. Ao chegar por aqui, os executivos sequer consideraram o Netmovies um concorrente direto, já que o foco deles é a entrega física, e não o streaming. Mas por que o Netflix não trouxe sua entrega para cá? Bem, hoje sabemos uma das razões: a empresa acaba de dividir suas funções — de streaming e de mídia física — em duas empresas diferentes, o Netflix e o Qwikster.

O anúncio foi feito por Reed Hastings, CEO da empresa, que esteve no Brasil há poucas semanas. A mudança, na realidade, começou há alguns meses, mas de forma mais silenciosa, quando a empresa decidiu cobrar separadamente o conteúdo de streaming e o de aluguel — antes, o streaming era como um “brinde” ao assinante comum, que pagava 8 dólares. Com o crescimento assustador do consumo via internet, que causa temor nas operadoras de internet americanas, a empresa decidiu cobrar 8 dólares extras pelo streaming — em outras palavras, dobrando o preço do serviço sem oferecer muita novidade em troca. Agora, a marca Netflix quer desassociar completamente seu nome do termo “DVD”.

No resumo, o mundo do streaming e o mundo do DVD estavam cada vez mais diferentes dentro da mesma empresa. E, na verdade, a mudança é em prol da sobrevivência da empresa, pelo menos pensando em longo prazo. Basicamente, o mercado de DVDs tende a diminuir cada vez mais nos EUA — e consequentemente no resto do globo, mas aos poucos — com o streaming. Mas a morte não virá de uma hora para outra, ela será lenta, cruel, e empresas que decidirem acompanhar os últimos minutos na UTI podem acabar indo junto.

Pelo menos por enquanto, o Qwikster, apesar do nome chato, tem tudo para manter o sucesso do Netflix em mídia física por já ter uma base enorme de usuários. Enquanto isso, o Netflix focará todas as suas forças no streaming — como pudemos ver com o lançamento do serviço no Brasil. Isso pode ser bom para nós, brasileiros que ainda queremos acreditar muito no Netflix, mas ficamos decepcionados com a primeira impressão do serviço. O fato de ele não chegar com a entrega de DVDs pode ter soado estranha, mas faz mais sentido agora — além disso, claro, não seria fácil criar um sistema de logística tão funcional quanto nos EUA, que depende exclusivamente dos correios. Aqui, o Netmovies depende de uma rede de motoboys e entrega pontual e que não permite erros.

Com o foco puramente no streaming, o momento em que contratos são formulados com estúdios podem garantir lançamentos interessantes para o Brasil também. E, acima de tudo, mostra que a mudança de pensamento, pelo menos nos EUA, atinge não só usuários, mas também empresas. [Netflix]