Depois de décadas de discussão, cientistas encontraram indícios de água em estado líquido presa na calota de gelo do polo sul do planeta vermelho.

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Uma equipe de pesquisadores italianos analisou dados de radar obtidos entre maio de 2012 e dezembro de 2015 por um instrumento a bordo da espaçonave Mars Express, da Agência Espacial Europeia. Partes do gelo retornaram sinais estranhos para o equipamento.

Uma imagem formada por mosaico da região onde a suposta água está. O azul representa água. Imagem: USGS Astrogeology Science Center, Arizona State University, INAF.

“Nós interpretamos esta característica como um corpo de água líquida estável em Marte”, dizem os autores em um artigo publicado hoje no periódico Science.

Até agora, já conhecíamos muitas evidências de que Marte costumava ter água líquida, baseadas em sua topografia e outras pistas. E, obviamente, o planeta tem água congelada, como fica claro em suas calotas polares. Mas se há ou não água em estado líquido, seja em terra, seja escondida por dentro dos polos, é um assunto que vem sendo há muito discutido pela comunidade científica.

Representação artística da espaçonave Mars Express usando seu radar para encontrar um ponto brilhante. Imagem: ESA, INAF, Davide Coero Borga

Entre 29 de maio de 2012 e 27 de dezembro de 2015, o instrumento conhecido como MARSIS (Mars Advanced Radar for Subsurface and Ionosphere Sounding — algo como “radar avançado para pesquisa da ionosfera e debaixo da superfície de Marte”, em tradução livre), a bordo da nave Mars Express, obteve dados sobre uma área de 200 km de extensão, próxima ao polo sul do planeta.

Ele disparou ondas de rádio para o chão e registrou como o reflexo delas mudava. Não havia nada de estranho em relação a área em si. Mas uma região de 20 km em meio à superfície refletia muito mais o sinal do radar do que seus entornos.

O reflexão brilhante implicava que a região tinha um valor muito mais alto de permissividade dielétrica, uma propriedade importante para os estudos de radares penetrantes.

O dióxido de carbono congelado pode ter causado o sinal, ou algum outro material? A análise deles sugere que não, a explicação mais provável seria água, que tem uma permissividade dielétrica muito mais alta que o gelo. Aquela água teria muitos sais dissolvidos, seja como um lago submarino ou lamaçal em que a água saturou o solo, diz a publicação.

Por que a água não congela ali? Primeiro, há a dinâmica das camadas de gelo; pode ocorrer derretimento debaixo da superfície, devido a condições específicas de pressão e temperatura. Isso também acontece na Terra. E há, além disso, os sais dissolvidos. Você deve se lembrar da palavra “percloratos” de estudos anteriores sobre Marte. Estas moléculas contêm átomos de cloro ligados a quatro átomos de oxigênio. A presença de sais de perclorato pode reduzir em grande medida o ponto de fusão da água.

“A temperatura no fundo da calota polar austral dá suporte à ideia de que pode haver água em estado líquido, pois estaria em um lago onde percloratos teriam baixado o ponto de fusão o suficiente para manter o líquido estável nesta temperatura”, diz Tanya Harrison, diretora de pesquisa da iniciativa de pesquisa NewsSpace, da Universidade do Estado do Arizona. Harrison não está envolvida com essa pesquisa, mas estudou o planeta vermelho no passado.

Os cientistas com quem o Gizmodo falou estavam convencidos pelos dados e cautelosamente otimistas com a interpretação. “Não dá para discutir com resultados de radar”, diz Cassie Stuurman, especialista em radares que deve entrar em breve na Agência Espacial Europeia. “É evidente que há uma região com brilho incomum, o que implica haver alguma anomalia em suas propriedades.”

Então é água em estado líquido mesmo? “Eu não consigo pensar em nada que geraria os mesmos resultados”, diz a cientista. “A interpretação está sujeita a discussões”, o que já está acontecendo na comunidade científica espacial. “O que quer que seja, tem alguma coisa diferente lá.”

Estes sinais detectados são a próxima grande pista para o mistério da existência ou não de água líquida em quantidades mensuráveis em Marte hoje. Você deve ter ouvido falar das “inclinações lineares recorrentes” no planeta, ou RSLs (de “recurrent slope lineae”). Elas são riscos na superfície que parecem escurecer. Um artigo bastante repercutido em 2015 anunciava que elas seriam uma “forte evidência” de água em estado líquido.

Outro, porém, mais recente, sugeria que pode haver uma explicação melhor para esse escurecimento. O artigo de hoje fala de outra fonte de água líquida, provavelmente sem relação com esse fenômeno.

“Esta publicação corrobora a existência de água em estado líquido em Marte”, diz Lujendra Ojha, cientista da Universidade John Hopkins e autor do estudo de 2015 sobre as inclinações. “Provavelmente, é algo transitório e salgado, que provavelmente fica debaixo da superfície. Mas eu acho que justifica [a relação entre o escurecimento das inclinações e a água].” E, se isso existe nas calotas polares, também pode existir em outros lugares, como nas RSLs.

Ainda há muito trabalho para fazer. Uma visita à Marte com as ferramentas corretas seria necessária para confirmar ou descartar de vez a presença de água em estado líquido. E, claro, este novo artigo não diz nada sobre a presença de vida. Não é nenhum pouco certo que possa haver alguma forma de vida capaz de sobreviver neste lago gelado. Mas, mesmo assim, um corpo d’água é sempre intrigante.

“Em qualquer lugar que achamos água em estado líquido na Terra, a tendência é encontrar vida também”, diz Harrison. “Mesmo nas geleiras da Groenlândia, há bactérias e algas vivendo em aberturas ou em estado dormente. Se há água líquida, ela pode ser usada para a sobrevivência de algum tipo de ser.”

[Science]