Al Gore: ex-vice-presidente dos EUA, ganhador de Oscar e Nobel da paz; Tim Berners-Lee: cientista creditado por inventar a Internet como a conhecemos. Os dois currículos mais invejáveis, ainda que meio diferentes, a aparecer na Campus Party 2011, afinaram o discurso hoje para defender, por uma hora e meia, a liberdade e democracia da internet.

Al gore, que começou prestando solidariedade às vítimas das chuvas no Sudeste do País (e alertando que mais desastres do tipo estão por vir, por causa do aquecimento global), falou menos do que se esperava sobre o seu tema principal, as mudanças climáticas. O foco do seu discurso era dizer que as pessoas que estavam ali poderiam fazer a diferença, mesmo a partir dos seus computadores. Como exemplo, ele citou que campuseiros de outras Campus Party pelo mundo fizeram um mashup do Googlemaps com os 10 maiores poluidores em cada país, para mostrar quanto que cada pessoa estava conectada – por consumo de produtos ou fisicamente – a essas empresas.  A simples amostra gráfica da nossa conexão com as empresas “do mal” pode mudar a nossa percepção e comportamento, disse.

O Nobel da Paz de 2007 deixou a responsabilidade para os geeks fazerem mudanças sérias no mundo “real”: “A geração de vocês tem as ferramentas digitais e a ambição de fazer o que é necessário para mudar o mundo nesse ponto importante da civilização que nos encontramos”. A educação foi tema da conversa também, com Al Gore reconhecendo que em tempos de Wikipédia e Google o sistema de ensino tem de mudar um bocado (“os professores têm de ser ‘guias’ na busca da informação”, afirmou), enquanto Berns-Lee falou da importância de incluir, a qualquer custo, os 80% do planeta que não têm acesso à informação libertadora da internet.

Mas Al Gore só foi aplaudido com mais entusiasmo quando defendeu que “Nem governos nem empresas podem se apoderar da internet. Ela é do povo!”. Aí o papo pendeu para a necessidade absoluta de neutralidade da rede, sem interferências regulatórias pesadas dos governos sobre conteúdo.  Tim Berners-Lee foi um pouco além e exigiu mais leis para proteger a privacidade, e disse que muitos governos querem controlar a web – e se eles tentarem algo assim, as pessoas poderiam fazer protestos primeiro pela internet, e depois irem para as ruas. O moderador aproveitou para perguntar sobre o Wikileaks, mas ambos foram meio reticentes na hora de defender a organização de Julian Assange, dando voltas sem concluir muita coisa. No fim, Lee disse que a informação não pode ficar concentrada na mão de meia-dúzia de empresas, como Google, Apple, Facebook e etc.

O papo de internet livre e espalhar conhecimento foi bem bacana, mas ajudaria um bocado se uma discussão tão importante não fosse confinada a menos de mil pessoas. A organização disse, através de seu Twitter oficial, que não conseguiu os direitos de imagem para mostrar o evento ao vivo, por streaming, como tem feito. O pior é que mesmo lá dentro a coisa não era tão democrática como desejável, já que não havia lugar para sentar remotamente próximo ao palco, e era difícil entender os palestrantes a alguma distância por causa da péssima acústica do local. De todo modo, a programação de debates, com alguns tópicos bem interessantes, começou bem.