Se tudo correr de acordo com os planos da Amazon e da Metro-Goldwyn-Mayer, a gigante dos serviços da web em breve adquirirá o estúdio de cinema em um negócio de US$ 8,45 bilhões (R$ 44 bilhões) que adicionará milhares de filmes e programas de televisão ao portfólio de conteúdo da empresa de tecnologia disponível para transmitir para 200 milhões de assinantes Prime.

Levando em consideração o valor do catálogo, a mudança da Amazon é parte da tentativa da empresa de dar a seus clientes mais opções na hora de escolher o que assistir, e muitos ficarão bem em deixar por isso mesmo. Mas engolir um dos mais antigos estúdios de cinema de Hollywood é algo que vale a pena considerar por mais alguns ângulos.

A fusão proposta da Amazon e da MGM é apenas uma das muitas coisas em que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos provavelmente preferiria ter um especialista em antitruste de olho, mas o motivo pelo qual ela se destaca na mente de muitas pessoas é a simples escala de alcance da Amazon em uma variedade de setores.

Embora a Amazon não seja nova no jogo de criação de conteúdo, é provável que a empresa argumente que a compra de um estúdio de cinema não deve preocupar os reguladores porque a Amazon não é tecnicamente o nome a bater quando se trata de streaming ou produção, filmes e séries.

Investidas de Bezos

Os movimentos recentes da Amazon – como gastar US $ 250 milhões (R$ 1,3 bilhão) pelos direitos da franquia “O Senhor dos Anéis” e investir US$ 465 milhões (R$ 2,4 bilhões) na primeira temporada da série prequel – facilitaram para a empresa seguir o exemplo de outros streamers como o Netflix que produzem conteúdo original, bem como adquirem projetos concluídos. Se o negócio com a MGM for fechado, ainda mais personagens como a “Família Addams”, “James Bond” e “Pantera Cor-de-Rosa” terão nova propriedade corporativa.

Mas embora a Amazon pareça, aja e crie conteúdo como uma empresa de entretenimento tradicional, é muito mais do que isso. Ao contrário de seus pares de streaming e dos estúdios de cinema tradicionais, a gigante do comércio eletrônico investe no streaming para ganhar mais clientes no Amazon Prime, que incluem outros serviços, como entrega mais barata e mais rápida para os incontáveis ​​produtos que você pode comprar em seu supermercado.

A ideia de uma empresa controlar grandes porções de comércio online, os serviços da web que outros sistemas como Twitter e Slack usam, e uma porção considerável (mas relativamente pequena) do espaço de entretenimento alarma muitos reguladores, por causa da possibilidade de desenvolvimento de monopólios. Empresas como a Amazon são sempre rápidas em insistir que estão tomando medidas para evitar que isso seja o caso, mas o crescimento da Amazon e as ações voltadas para a expansão, como a aquisição da MGM — a segunda maior até agora, após a compra da Whole Foods em 2017 por US$ 13,7 bilhões (R$ 71 milhões) – e relatos de que a Amazon também tentou comprar a Sony, não enviam a mesma mensagem.

Uma vista externa mostra um centro de atendimento da Amazon em 31 de março de 2021 em North Las Vegas, Nevada.
Imagem: Ethan Miller (Getty Images)

Assédio moral, câmera, ação…

Do ponto de vista da MGM, o negócio é provavelmente uma bênção, considerando o tempo em que o estúdio está à venda, mas ao se envolver com a Amazon, agora é um pouco difícil separar seus próximos projetos de algumas das realidades terríveis sobre a empresa que agora os possui. É estranho pensar que os filmes de “James Bond” do futuro possam ser trazidos a você pela mesma empresa que se esforçou ao máximo para insistir que seus funcionários de entrega não eram forçados a urinar em garrafas para cumprir suas cotas de produtividade.

Locais de trabalho hostis e abusivos já existiam em Hollywood muito antes da Amazon jogar seu chapéu no ringue, mas a história bem documentada da Amazon de quebra de sindicatos e, mais recentemente, as acusações de colocar em risco a vida dos funcionários estão agora, pelo menos tangencialmente, relacionadas à existência da MGM como marca.

Algumas dessas coisas, junto das alegações de racismo estrutural na empresa e preocupações sobre violações de privacidade, foram o assunto de discussão durante a assembleia de acionistas da Amazon esta semana, onde o CEO Jeff Bezos – que está mudando para a função de presidente executivo – expôs sobre o “Tese de aquisição” por trás da compra da MGM. “A MGM tem um catálogo vasto e profundo de propriedade intelectual muito apreciada”, disse Bezos. “E com o talento da Amazon e o talento do MGM Studios, podemos reimaginar e desenvolver essa propriedade intelectual para o século 21”.

Políticos se manifestam

Embora grande parte da cobertura sobre a aquisição ainda pendente tenha se concentrado no que acontecerá com as principais franquias de filmes da MGM, o negócio também tem conquistado muitos políticos preocupados  com a ideia da Amazon se tornar parte fundamental da infraestrutura de internet, além de fazer com que seus clientes estejam sempre consumindo.

Logo após a notícia da aquisição, a senadora Amy Klobuchar (Democrata), que chefia o subcomitê de antitruste do Judiciário do Senado, fez uma declaração pública expressando o desejo de mais supervisão sobre essas fusões em grande escala com mais cautela. “Isso também é um lembrete do motivo pelo qual precisamos financiar nossas agências antitruste para que possam realizar investigações de negócios multibilionários”, disse Klobuchar. “Nosso governo não pode garantir que as grandes corporações cumpram as regras se as agências de fiscalização forem cronicamente subfinanciadas.”

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Do outro lado do corredor, o senador Josh Hawley (Republicano) não apenas se opõe à aquisição da MGM pela Amazon, mas ainda tuitou na quarta-feira (26) que a Amazon “não deveria ter permissão para comprar mais nada.” Na Câmara dos Representantes, o deputado Ken Buck (Republicano) compartilhou preocupações semelhantes e apelos por aumento escrutínio de “fusões e aquisições envolvendo empresas monopolistas que experimentam um crescimento tremendo e exponencial.”

Figuras políticas como Klobucher e Buck estão alinhadas com seus posicionamentos sobre a necessidade de regulamentações mais rígidas, mas resta saber como a administração Biden – que ainda não nomeou um procurador-geral adjunto para chefiar as investigações do Departamento de Justiça sobre antitruste – responderá.

Embora a Casa Branca tenha apresentado vários candidatos em potencial para o cargo, o processo foi prejudicado por objeções levantadas pelos vigilantes da ética, preocupados que o passado dos indicados tanto defendendo quanto criticando gigantes da tecnologia como o Google os tornassem desqualificados para o cargo.

Processo contra a Amazon

Também pairando sobre a aquisição está um processo antitruste aberto no início desta semana pelo procurador-geral Karl Racine sobre a cláusula de “nação mais favorecida” da Amazon, que proíbe varejistas terceirizados da Amazon de vender seus produtos a preços mais baixos em outros mercados digitais. O processo de Racine argumenta que as táticas da Amazon têm o resultado final de inflar artificialmente os preços na Internet como um todo, ao mesmo tempo que dificulta a competição para outros mercados.

Embora esse processo esteja em andamento, é importante observar que a linguagem específica da cláusula da nação mais favorecida da Amazon foi introduzida em resposta direta às investigações anteriores sobre a “cláusula de paridade de preços” da empresa, o que levou a preocupações semelhantes das autoridades europeias que foram capazes de forçar a empresa a interromper a prática em 2013. Em 2019 a Amazon cortou a provisão de paridade de preços aqui nos EUA, mas a forma como ela se adaptou à clausula mostra que ela pretende procurar a prática mais vezes.

A busca persistente da Amazon por políticas que parecem projetadas para prejudicar os varejistas independentes na medida em que atendem aos desejos dos consumidores não torna exatamente fácil imaginar que ela pretende jogar limpo na guerra dos streamings. Mas à medida que essas megacorporações continuam a consolidar a propriedade intelectual e a construir enormes jardins murados que as audiências nunca devem sair totalmente, cabe a essas audiências exercer seu livre arbítrio e pensar criticamente sobre as estruturas mais amplas que possuem o entretenimento que consomem.