Hoje, durante um evento da LG, mexi em um tablet com Honeycomb – o sistema Android para telas maiores – pela primeira vez. Meus minutos com o Optimus Pad foram desapontadores para dizer o mínimo, como foram as primeiras resenhas do Motorola Xoom, o outro grande concorrente do primeiro iPad, lançado há quase um ano. Horas depois da minha experiência com o tablete da concorrência, Steve Jobs mostrou o iPad 2, e apesar de ser basicamente o que esperávamos, é o suficiente para eu ter certeza de que vai demorar pelo menos um ano para outros fabricantes terem qualquer chance de reação. Tábuas com tela grande que não sejam da Apple serão produtos de nicho.

Veja bem, ninguém precisa de um tablet. Para trabalhar, notebooks, desktops e até netbooks são opções melhores. Pela questão de mobilidade pura e simples, de checar mapas, sites de internet e responder e-mails, o smartphone serve à maioria. Mas mesmo assim o iPad vendeu suas 15 milhões de unidades, sendo basicamente um iPod Touch gigante (o “gigante” faz toda a diferença). Nós explicamos em detalhe o que é exatamente atraente nele aqui. Pegue tudo aquilo e acrescente esses penduricalhos para criar um brinquedo bastante desejável:

Mas e a concorrência? Quem imaginaria que seria tão difícil para fabricantes de smartphones colocar uma tela maior, tacar uma bateria melhor e um sistema operacional gratuito por cima? Demorou um ano para os primeiros concorrentes chegarem (o Galaxy Tab, um smartphone levemente maior e bem mais caro, dificilmente conta).

Um ano, em uma categoria extremamente atraente, que já movimentou muitos milhões de dólares. Quando foi a última vez que você viu esse tipo de atraso em tecnologia? A coisa fica pior quando você vê que os concorrentes não estão exatamente chegando com força ao mercado – ou sequer chegando. O HP Slate morreu antes de aparecer; o Microsoft Courier foi abortado; o Playbook da RIM já foi mostrado em 5 versões diferentes, os tablets com WebOS da HP parecem seguir o mesmo destino… E os primeiros tablets com Honeycomb chegam agora, finalmente, com recepção muito pouco empolgada. Sejam por problemas de hardware, software instável ou simplesmente o preço. O que fazer?

Chame-me de covarde (conservador seria melhor), mas se eu fosse chefe de divisão de qualquer uma dessas empresas, eu não lançaria qualquer tablet em 2011 que custasse o mesmo preço ou mais que o iPad 2, como todos estão fazendo, somente por lançar. Parece suicídio comercial – o iPad virou sinônimo de tablet e, a não ser que você jogue agressivo no preço, não terá a atenção do consumidor: a única chance de algum concorrente fazer sucesso no mercado de tablets hoje é ser significativamente mais barato. Isso não aconteceu, e pelos contratos e volume de fabricação da Apple, dificilmente acontecerá este ano. Então, eu sugiro a todo mundo que humildemente volte à fase de projetos e voltem aqui com algo tão bom ou melhor, a um preço competitivo. Na verdade, se você se lembra bem, em 2010 aconteceu este recuo. Na CES, em janeiro, havia um monte de protótipos. Lembra do Steve Ballmer empunhando o Slate, uma bizarra tábua com Windows? Ele e tantos outros não viraram realidade: quando viram o iPad – e especialmente seu preço -, poucos dias da feira acabar as fabricantes viram que não teriam chance. Acertaram.

Ah, mas Xoom e amigos podem ser mais caros, mas tem “reais vantagens” sobre o iPad 2, você pode dizer. No hardware eles são absolutamente parelhos. E de resto? Se você quiser algo para ler, o iPad também é melhor pela oferta de publicações (Gibis, iBook e Kindle, todas as grandes revistas e jornais brasileiros, Wired, Project, Daily, etc etc). Para ver fotos e vídeos, a tela com IPS tem brilho, contraste e ângulo de visão melhor. Se você quer algo que pode contar que está sempre ligado, não há qualquer um com bateria que chegue perto em termos de autonomia. Para jogar, não há por que escolher qualquer outro tablet ao invés do iPad, com mais de 10 mil jogos feitos exclusivamente para a plataforma. Para coisas mais específicas, de enciclopédias médicas ilustradas, apps de receita ou para criação de músicas, artes gráficas ou filmes, não há nada com a variedade de ofertas: afinal, são 65 mil apps específicos para iPad, contra 100 (cem) do Android Honeycomb. E as coisas que você encontra na App store foram criadas com dois dispositivos específicos, o primeiro e segundo iPad, então eles rodam de maneira otimizada, ao contrário das versões genéricas do Android, mesmo o Honeycomb, que podem vir em tamanhos de tela e capacidade de processamento diferentes – ou mais propensos ao travamento.

Vejamos as vantagens dos tablets com Android:

O Galaxy Tab é um telefone mil vezes melhor que o iPad. E tem TV. O Tab 2 deverá ser assim também. O Optimus Pad da LG tem 3D, para quem quiser fazer e ver filmes 3D no tablet. O Playbook da RIM, se algum dia existir, é mais seguro para o ambiente corporativo, com encriptação. Todos eles têm multitarefa e um sistema de notificação melhores (em relação ao arcaico do iOS), então devem ser – presume-se – melhores para trabalhar. Alguns tablets virão com tela widescreen (melhores para vídeos) e outros serão menores (mais portáteis). Os tablets com Android têm a vantagem adicional de serem mais “abertos”, permitirem customização e contarem com uma empresa mais simpática por trás.

Se você olhar bem, individualmente, cada concorrente tem um atrativo especial. Mas todos acabam tendo apelo apenas para nichos específicos: o hacker, o anti-apple, o early adopter que poderá curtir 3D, o que não tem smartphone, o que quer ver TV no tablete, o que não quer um notebook…

Quem fica pedindo coisas como tipo porta USB ou multitarefa total, com Alt-Tab e tudo, está repetindo um discurso caduco e na verdade não quer um tablet, mas um notebook. Com a tecnologia disponível hoje, o tablet é um dispositivo basicamente para consumo de mídia, trabalho muito simples ou apps mais específicos, muitas vezes lúdicos. O iPad 2, o Xoom ou o Playbook não vão substituir o notebook. O conjunto Windows 7/Linux/Mac OS com teclado e mouse é necessariamente mais produtivo que um tablet. E será por algum tempo ainda.

Mas quem quer um tablet, e entende para que ele funciona, quer um iPad 2 – a não ser que seja de um nicho específico como os citados aí em cima, especialmente os que têm uma raiva patológica da Apple. E só haveria um motivo não-nicho para fazer os outros tablets ficarem atraentes: o preço. Como ninguém conseguiu fazer esta mágica de oferecer algo mais barato, não há competição por ora.

O Optimus Pad, da LG

Eu torço com muita fé para que ela exista. Mas pelo que observo ela pode levar algum tempo para se materializar. O Honeycomb, quando funcionar direitinho, tem algumas claras vantagens sorbe o iOS – especialmente no quesito produtividade. Mas precisa de mais tempo para amadurecer, como precisou o Android de smartphones: ele só virou popular com o Milestone, 1 ano depois de seu lançamento restrito a um aparelho, o G1, da HTC. E aí eu penso: não seria o caso de esperar a plataforma amadurecer em um laboratório (o eleito seria o Xoom) antes de correr para as linhas de produção e lançar produtos parecidos demais, em pequenas quantidades e portanto caros? Será que o Google não poderia assumir a responsabilidade e criar um “Nexus Tablet”, com um hardware mais decente? Hoje o Xoom risca fácil demais e o Galaxy Tab tem uma tela ruim. Não dá pra dizer mais nem em hardware que a Apple é pior – muito pelo contrário.

Falta aos concorrentes agora mais humildade, desejo pela inovação e capricho. Esses comerciais citando mil vantagens de especificações sobre um produto de um ano atrás ou dizendo que “quem compra iPad é gado” são prepotentes. E caros. Eu quero menos dinheiro em marketing e mais em desenvolvimento.

O iPad 2 aumentou ainda mais o desafio para a concorrência. O que é ótimo.  Motorola, HP, Microsoft, RIM, Samsung, LG e todo mundo: agarrem a oportunidade, mas não se apressem demais. Estudem o líder e nos tragam algo melhor. E mais barato, por favor. A maioria das pessoas ainda não viu utilidade para um tablet. Elas podem esperar para ter mais de uma opção, especialmente quando o preço for factível. Até lá, se você quer um tablet, não há para onde correr.