Na semana passada, a Apple foi procurada pelo FBI para resolver uma questão que deixou a empresa em uma situação delicada: contribuir com investigações importantes para a segurança do país ou proteger seus usuários contra outros tipos de riscos. Nesta segunda-feira (14), a empresa se posicionou e o governo não curtiu nem um pouco.

Em dezembro de 2019, três pessoas morreram e oito ficaram feridas após um tiroteio em uma Base Naval em Pensacola, na Flórida. Os dois aparelhos celulares de Mohammed Saeed Alshamrani, suspeito de ter efetuado os disparos, foram danificados no ataque, mas os especialistas do laboratório de crimes do FBI conseguiram recuperá-los. Agora, a agência quer que a Apple ajude os investigadores a acessarem informações contidas nos aparelhos que podem fornecer dicas importantes sobre o ataque.

Para reforçar o pedido do FBI, o procurador-geral William Barr também solicitou que a Apple desbloqueasse os dois iPhones de Alshamrani, caracterizando o ataque à base naval como um “ato de terrorismo”. O Departamento de Justiça insiste em obter acesso aos aparelhos para visualizar mensagens criptografadas em aplicativos como WhatsApp e Signal. Dessa forma, eles esperam conseguir determinar se Alshamrani estava agindo sozinho ou se havia outras pessoas cientes dos seus planos.

Em uma coletiva de imprensa na segunda-feira, Barr afirmou que a Apple não havia fornecido nenhuma ajuda real e que o apoio da empresa e de outras companhias de tecnologia eram necessárias para “encontrar uma solução para que possamos proteger melhor a vida dos norte-americanos e evitar ataques futuros”.

O procurador-geral ainda defende que o governo deveria ter acesso backdoor a comunicações criptografadas por questões de segurança pública. No entanto, a Apple vem rebatendo argumentos como esse, afirmando que isso resultaria em riscos à privacidade dos usuários. Além disso, se a companhia cedesse ao pedido do FBI neste caso, isso poderia ser utilizado como argumento em solicitações futuras.

A Apple também contestou as alegações de Barr, afirmando que já forneceu detalhes da conta do iCloud de Alshamrani e que vem trabalhando “arduamente” para contribuir com o FBI, mas que um acesso backdoor poderia enfraquecer a criptografia. Ainda segundo a empresa, um pedido de ajuda adicional só foi recebido no dia 6 de janeiro e não houve intimação sobre um segundo aparelho até 8 de janeiro.

Em um trecho do longo comunicado da Apple enviado à imprensa internacional, a companhia diz:

Sempre reforçamos que não existe um backdoor apenas para os bem-intencionados. Os backdoors também podem ser explorados por aqueles que ameaçam nossa segurança nacional e a segurança de dados de nossos clientes. Hoje, as autoridades têm acesso a mais dados do que nunca na história, portanto, os norte-americanos não precisam escolher entre enfraquecer a criptografia e solucionar investigações. Consideramos fortemente que a criptografia é vital para proteger nosso país e os dados de nossos usuários.

Em 2015, uma disputa semelhante ocorreu entre a Apple e o FBI após um tiroteio em San Bernardino, na Califórnia. Na época, o próprio Tim Cook disse que o que o FBI queria era algo impensável. Segundo ele, essa ferramenta para acessar o iPhone do atirador seria o equivalente a uma chave mestra, capaz de abrir centenas de milhões de fechaduras, e não havia como garantir que o governo conseguiria manter um controle sobre ela. Por fim, o FBI acabou pagando uma empresa externa para desbloquear o aparelho.

[Engadget, Reuters]