Há muitos anos, “Designed by Apple in California” tem sido o mais próximo que a Apple pode chegar de reivindicar o título “Made In USA”. Mas, em 2012, a empresa decidiu montar o Mac Pro no Texas. De acordo com uma nova reportagem, esse plano teve um início difícil devido a um pequeno parafuso.

A Apple é a jóia da coroa da tecnologia americana. Ela tem sido um foco simbólico para os políticos que esperam trazer de volta para os EUA empregos industriais. Em 2011, o presidente Obama perguntou a Steve Jobs o que seria necessário para que a Apple construísse o iPhone no país. O CEO respondeu com naturalidade: “Esses empregos não vão voltar”.

Mesmo assim, a Apple decidiu fazer um agrado para os americanos. Com um anúncio espalhafatoso, ela anunciou que o Mac Pro seria parcialmente fabricado e depois montado em Austin, Texas, a partir de 2013.

O modelo redesenhado do computador mais potente da Apple acabou sendo adiado por meses, e nunca tivemos certeza do motivo. Na segunda-feira, o New York Times informou que o problema era um parafuso personalizado.

Citando três fontes que trabalharam no projeto, o Times afirma que o atraso aconteceu quando a Apple descobriu que a oficina de usinagem contratada para fabricar parafusos personalizados para o Mac Pro só seria capaz de fornecer um máximo de mil parafusos por dia. As fontes afirmaram que o parafuso foi ilustrativo de uma série de questões que a Apple encontrou com o setor manufatureiro dos EUA.

Na China, oficinas para a construção de peças personalizadas na hora são comuns e nada caras, e a mão de obra é abundante e barata. Algumas peças para o Mac Pro foram enviadas da China para o Texas, mas as fontes do Times afirmam que sua equipe de repente se viu precisando de parafusos especiais, que não estavam nos planos originais.

Ao procurar oficinas do tipo, eles acabaram na Caldwell Manufacturing. Stephen Melo, dono da Caldwell, disse ao Times que as máquinas necessárias para fazer o que a Apple precisava foram substituídas por causa da demanda limitada. Ele não foi capaz de fazer o parafuso exato que era necessário, mas chegou perto o suficiente. Com apenas 20 funcionários, Melo produziu lentamente os parafusos e os levou pessoalmente para a fábrica ao longo de 22 viagens.

Mas, uma vez que os parafusos estavam garantidos, o recrutamento continuou a ser um problema. Diz a reportagem:

O gerente disse que os empregos similares da Apple na China incluiriam uma sala cheia de pessoas trabalhando para garantir que todos os materiais estivessem prontos para produção. No Texas, era só um trabalhador, que muitas vezes parecia sobrecarregado. Como resultado, os materiais estavam regularmente fora do lugar ou atrasados, contribuindo para atrasos.

Não é nenhum segredo que a China oferece mão de obra qualificada barata e não tem escrúpulos ao lidar com a equipe de trabalho. Mas, depois de anos montando seus produtos no exterior, a realidade local da produção foi preocupante para os executivos.

Em 2012, o CEO da Apple, Tim Cook, disse à NBC News que era mais do que apenas o custo do trabalho que impedia a empresa de fabricar seus produtos em casa. “Não se trata muito de preço, tem mais a ver com as habilidades”, disse ele.

Cinco anos depois, ele estava batendo na mesma tecla em uma conferência na China. Na ocasião, ele disse: “Nos Estados Unidos, você poderia fazer uma reunião de engenheiros industriais especializados em ferramentas e não tenho certeza se poderíamos ocupar a sala. Na China, você pode preencher vários campos de futebol.”

Isso não significa que a China é o único lugar que pode atender às necessidades de produção da Apple. Com o presidente Trump travando uma guerra fiscal contra a China e a inteligência dos EUA ficando cada vez mais nervosa com as cadeias de suprimentos do país asiático representando um risco para a segurança, a Apple supostamente está procurando uma nova base. Um executivo da Apple disse ao Times que a Índia e o Vietnã são os principais candidatos. Esses dois países foram mencionados frequentemente como os destinos mais prováveis ​​para a Apple no último ano.

Dito isso, essa reportagem vem em um momento conveniente para a Apple. Importantes negociações comerciais entre os EUA e a China começam esta semana. O presidente Trump estabeleceu um prazo para o dia 1º de março para chegar a um acordo, ou as taxas sobre as importações chinesas aumentarão dramaticamente. Uma história peculiar e anônima que explica por que é difícil para a Apple montar seus produtos nos EUA certamente deve inspirar um pouco de ceticismo no leitor.

O Mac Pro “lixeira”, apelido dado por causa de seu formato, deixou a desejar por vários motivos, mas ainda é construído no Texas. Um redesenho do computador de topo de linha da Apple está agendado para lançamento em 2019. Veremos se corre tudo bem com o lançamento dessa vez.

[New York Times]