Segundo informações do Wall Street Journal, a Apple estaria se preparando para remover milhares de jogos da App Store na China devido à pressão do governo local. A empresa já havia alertado desenvolvedores chineses que aplicativos pagos corriam o risco de serem removidos da loja, mas as autoridades agora fecharam o cerco para games e apps que não possuem a licença exigida e, portanto, considerados ilegais.

De acordo com um memorando obtido pelo WSJ, os desenvolvedores têm até 31 de dezembro para fornecer à Apple uma prova de sua licença emitida pelo governo. Caso o contrário seus jogos e aplicativos serão removidos da App Store. Rich Bishop, presidente-executivo da ChinaInApp, disse ao WSJ que poucos desenvolvedores devem conseguir a licença necessária do governo para manter as ferramentas na loja de apps da Apple.

Essa política regulatória, introduzida pela primeira vez em 2016, supostamente nasceu de preocupações com o vício em jogos e conteúdo ofensivo. No entanto, muitos desenvolvedores iOS conseguiram contornar a lei de licença compulsória devido a uma lacuna nas políticas da App Store da Apple. Só que a essa brecha nas regras da loja será fechada pela Apple agora no início de 2021.

Não são apenas os jogos que a Apple irá remover assim que as novas medidas começarem a valer. Um aplicativo de mapeamento de Hong Kong foi banido da App Store durante os protestos pró-democracia de Hong Kong em outubro, depois que a mídia estatal chinesa disse que a plataforma em questão colocava os policiais em perigo. Na época, o Google também removeu o mesmo app.

Outros exemplos: Plague Inc., um jogo de simulação global com tema de pandemia, também foi tirado da App Store. PUBG foi banido em 2019. Até o Tripadvisor pode não estar protegido dos censores chineses. O aplicativo de viagens é um dos mais de 100 aplicativos que a China disse à Apple para remover sem citar um motivo específico.

Em 2019, a Administração Estatal de Imprensa e Publicação da China (SAPP) revelou suas diretrizes de aprovação de aplicativos, que proibiam qualquer ferramenta que violasse ou ameace a constituição, segurança nacional ou clima político da China. Segundo o Business Insider, jogos que promovem o racismo ou cultos religiosos, e conteúdo obsceno com uso de drogas, violência extrema ou jogos de azar também entram na lista.

Após pressão dos acionistas sobre sua disposição em obedecer aos censores chineses, a Apple publicou um documento em setembro sobre seu compromisso com os direitos humanos. No entanto, como o Financial Times apontou na época da publicação do relatório, não há referência específica à China, ou o que deveria acontecer quando “a China, o maior mercado de smartphones do mundo, solicita o banimento de aplicativos que ajudam os usuários a fugir da censura e vigilância”.

O documento diz o seguinte:

Lado a lado com a privacidade de nossos usuários está o nosso compromisso com a liberdade de informação e expressão. Nossos produtos ajudam nossos clientes a se comunicar, aprender, expressar sua criatividade e exercitar sua engenhosidade. Acreditamos na importância crítica de uma sociedade aberta em que as informações fluam livremente e estamos convencidos de que a melhor maneira de continuar a promover a abertura é permanecer engajados, mesmo quando podemos discordar das leis de um país.

Somente em 2020, a Apple removeu 94.000 aplicativos da App Store chinesa. Para efeito de comparação, isso é mais que o dobro de games banidos da loja no ano passado, que registrou um total de 25.000 remoções, segundo dados da Sensor Tower. Em julho, 2.500 jogos para celular foram removidos antes do prazo final de 31 de julho para obter uma licença. Não está claro se esses títulos foram removidos pelos desenvolvedores ou pela Apple, mas a Sensor Tower observa que 80% desses aplicativos tiveram menos de 10.000 downloads na China desde 1º de janeiro de 2012.