Novas evidências arqueológicas sugerem que habitantes de Çatalhöyük, uma cidade que existiu há 9 mil anos no local que atualmente corresponde à Turquia, enfrentaram muitos problemas urbanos com os quais estamos familiarizados hoje em dia, incluindo superlotações, violência interpessoal e problemas de saneamento.

Em seu auge, há cerca de 8.500 anos, Çatalhöyük abrigava uma população estimada de 3,5 mil a 8 mil habitantes. Esse assentamento agrícola do período Neolítico, localizado a 40 quilômetros ao sudeste de Konya, na Turquia, era uma comunidade extraordinariamente grande para a época. Arqueólogos a consideram uma cidade proto-urbana, tendo surgido apenas alguns milhares de anos após os humanos iniciarem sua transição de estilo de vida de caçadores para cultivadores.



Uma nova pesquisa publicada na segunda-feira (17) na Proceedings of the National Academy of Sciences mostra que Çatalhöyük era um sinal do que estava por vir, tanto em termos de organização social humana como de problemas causados pela vida em grandes cidades. Os habitantes de Çatalhöyük “passaram pelo o que se espera que aconteça quando se coloca muitas pessoas em uma área pequena por um longo período”, afirmou Clark Larsen, principal autor do novo estudo e antropólogo da Ohio State University, em uma publicação da universidade. De fato, assim como os moradores das cidades atuais, os habitantes de Çatalhöyük tiveram que conviver com doenças infecciosas, multidões, violência e degradação ambiental.

Surgindo por volta de 7.100 a.C., Çatalhöyük cresceu rapidamente de uma pequena comunidade de fazendeiros que habitavam casas de barro. O assentamento prosperou entre 6.700 e 6.500 a.C., seguido de um rápido declínio que esvaziou a cidade em 5.950 a.C., conforme os pesquisadores descrevem no estudo.

Çatalhöyük foi escavada pela primeira vez por arqueólogos em 1958. Localizada no Platô Sul da Anatólia (ou Ásia Menor), seu território era de 32 acres, com até 18 camadas de assentamento se estendendo por mais de 21 metros abaixo; a cidade foi ocupada initerruptamente por mais de 1.150 anos. Çatalhöyük foi declarada patrimônio mundial pela UNESCO em 2012. O projeto de escavação mais recente foi finalizado há dois anos, preparando terreno para o novo estudo.

Este esqueleto de uma mulher adulta sem cabeça foi enterrada em Çatalhöyük com seu feto não nascido (indicado pela seta preta no centro). A remoção do crânio antes do enterro era uma prática funeral comum na região na época. Imagem: Projeto de Pesquisa Çatalhöyük/Jason Quinlan

Os autores do novo estudo, além de analisarem os resíduos de plantas e animais, também examinaram os esqueletos de 742 indivíduos datados de um período entre 7.100 e 5.950 a.C. Análises isotópicas revelaram que os habitantes de Çatalhöyük se alimentavam de trigo, cevada, centeio, algumas plantas silvestres, ovelhas, cabras e alguns animais selvagens. Essa comunidade da Anatólia havia adotado uma dieta neolítica rica em carboidratos vegetais e alimentos como pão e mingau – mas isso gerou um problema bem familiar: cárie dentária. Cerca de 13% dos esqueletos de adultos encontrados no local apresentavam cáries dentárias.

Além disso, mais de um terço dos esqueletos exibiram sinais de doenças infecciosas. O fato de os habitantes morarem muito próximos uns aos outros é uma das principais explicações, mas a disseminação de doenças também foi relacionada ao fato de eles viverem próximos às regiões de pecuária, principalmente de ovelhas – uma das bases da dieta de Çatalhöyük, mas também um animal que hospedava parasitas perigosos.

“Eles viviam em condições de superpopulação, com lixões e criações de animais bem ao lado de suas casas”, disse Larsen. “Então havia um grande problema de saneamento que contribuía para a disseminação de doenças infecciosas”.

Fascinantemente, os esqueletos também exibiram mais sinais de desgaste durante o período mais tardio do assentamento. Especificamente, os habitantes desse período mais tardio de Çatalhöyük caminhavam significantemente mais do que seus antecessores. Os autores do novo estudo afirmaram que isso é uma evidência de que terrenos agrícolas estavam se distanciando cada vez mais da cidade ao longo do tempo. A região também começou a secar, o que não ajudou.

“Nós acreditamos que a degradação ambiental e as mudanças climáticas forçaram os membros da comunidade a se mudarem para longe do assentamento para cultivarem e encontrarem suprimentos como madeira”, disse Larsen. “Isso contribuiu para a extinção de Çatalhöyük”.

A vida em Çatalhöyük era difícil. É possível que “essa superpopulação levou a um nível elevado de estresse e conflitos dentro da comunidade”, afirmou Larsen. Análises dos esqueletos mostraram sinais de violência interpessoal, como evidenciado pela abundância de ferimentos na cabeça. Dentre os 93 crânios analisados, 25 exibiram evidências de fraturas curadas. Doze crânios mostraram evidência de trauma infligido em múltiplas ocasiões. Esses ferimentos foram observados tanto em crânios de homens como de mulheres, e tendiam a aparecer na parte de trás da cabeça, o que sugere que as vítimas foram atacadas por trás.

Claro que a vida em Çatalhöyük não era totalmente ruim. Escavações arqueológicas revelaram pinturas nas paredes, esculturas de barro, espelhos de obsidiana e relevos cravados nas paredes. Ou seja, era uma comunidade culturalmente vibrante e integrada.

Interessantemente, o novo estudo também resultou em um tipo de mistério. Os habitantes de Çatalhöyük tinham práticas funerárias em que os indivíduos mortos eram enterrados no solo abaixo de suas casas. No entanto, uma análise genética desses restos mortais mostrou que a maioria dos indivíduos que foram enterrados juntos não eram biologicamente relacionados. Essa foi uma descoberta inesperada digna de estudos futuros, observaram os autores.