Cientistas confirmaram que um disco de bronze gunmetal descoberto na costa do Omã em 2014 é o astrolábio mais antigo já conhecido, de acordo com um novo artigo.

O disco foi encontrado debaixo d’água no local de naufrágio do navio de Vicente Sodré e continha imagens icônicas portuguesas ainda presentes na bandeira de Portugal. O navio fazia parte de uma subfrota da armada portuguesa numa viagem à Índia liderada por Vasco da Gama em 1502-1503, comandada pelos tios de da Gama, Vicente e Brás Sodré.

Embora parecesse ser um astrolábio, era preciso mais confirmação. Imagens laser de cientistas da Universidade de Warwick, no Reino Unido, revelaram agora marcadores de escala ao longo das extremidades do disco, confirmando que se tratava, de fato, de uma ferramenta de navegação antiga. Os astrolábios eram instrumentos utilizados pelos marinheiros a partir do final do século XV para determinar a latitude, apontando o disco para o Sol e lendo as marcações nas laterais do objeto.

“Foi diferente de tudo que já escavamos no local anteriormente”, disse David Mearns, especialista em busca e recuperação em águas profundas da Blue Water Recoveries, que encontrou o astrolábio, em entrevista ao Gizmodo.

O astrolábio ainda debaixo d’água no local. Foto: David Mearns

O astrolábio vem de um conjunto de escavações do naufrágio do navio de Sodré perto de Al Hallaniyah, uma ilha ao largo da costa de Omã. As decorações históricas no artefato levaram os pesquisadores a sugerirem que ele já tinha sido utilizado em 1496.

A tripulação havia ancorado em Al Hallaniyah para encontrar abrigo dos ventos sazonais das monções — mas um vento particularmente forte afundou o navio, matando Vicente Sodré e muitos dos seus marinheiros (você pode ler mais sobre a história do naufrágio no artigoAn Early Portuguese Mariner’s Astrolabe from the Sodré Wreck-site, Al Hallaniyah, Oman” [“Astrolábio antigo português do naufrágio do Sodré, Al Hallaniyah, Omã”], publicado no International Journal of Nautical Archaeology).

Mearns liderou a missão de escavar o naufrágio e encontrou o objeto em 2014. O escudo português e a esfera armilar, que hoje aparecem na bandeira do país, foram imediatamente identificáveis, mas, no início, a função do disco não foi confirmada acima de qualquer suspeita. Afinal, os astrolábios são raros; apenas 104 foram descobertos.

Em 2016, engenheiros da Universidade de Warwick visitaram Muscat, em Omã, onde o item foi guardado e digitalizado em 3D com um laser. As imagens revelaram 18 marcas de escala ao longo do canto superior direito do disco, que os cientistas deduziram serem marcas de cinco graus. Talvez as marcas de um grau tenham desaparecido.

Engenheiros examinando o astrolábio. Foto: Jason Warnett

Embora a data exata da criação do astrolábio não esteja clara, a data do naufrágio do navio de Sodré por si só o confirma como o exemplar sobrevivente mais antigo já encontrado, de acordo com o artigo. Além disso, ele conta a história do desenvolvimento dos astrolábios em si. Diferentemente de astrolábios mais recentes, que eram uma roda aberta, o astrolábio de Sodré era um disco sólido.

Os pesquisadores por trás do artigo explicam que os astrolábios posteriores eram mais pesados e tinham aberturas para reduzir a interferência do vento, tornando-os mais estáveis. “Em comparação, os primeiros astrolábios feitos de madeira, ou do tipo de disco sólido, teriam sido instrumentos relativamente primitivos, propensos à instabilidade com ventos fortes no mar e não particularmente precisos”, escrevem eles.

O objeto agora aparece no inventário de astrolábios da Texas A&M University e foi verificado independentemente pelo Guinness World Records como o astrolábio mais antigo do mundo. Atualmente, ele está localizado no Museu Nacional do Omã, em Muscat.