Cientistas deixaram diferentes grupos de bactérias com fome por mais de dois anos e meio.  Mas, apesar de praticamente nenhum alimento, a maioria delas conseguiu sobreviver bem. Os pesquisadores disseram que a descoberta pode indicar que algumas populações de bactérias podem durar até 100 mil anos. O estudo foi publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Não é nenhum segredo que as bactérias tendem a ser resistentes. Microorganismos individuais podem morrer aqui e ali, mas é muito difícil erradicar um grupo inteiro deles — uma lição que os humanos aprenderam dolorosamente com a evolução das bactérias resistentes aos antibióticos nas últimas décadas. Para entender melhor a durabilidade das bactérias, pesquisadores da Universidade de Indiana elaboraram um experimento que deixaria o assassino de Jogos Mortais orgulhoso.

Para isso, eles coletaram cerca de 100 populações diferentes de bactérias, representando 21 táxons diferentes — táxons quer dizer grande  grupo de vida, como uma família ou gênero. Em seguida, colocaram os táxons em um “sistema efetivamente fechado”, no qual não teriam quase nenhuma fonte de comida para se sustentarem por mil dias. Depois, eles abriram as mini tumbas de volta.

As populações de bactérias diminuíram, especialmente no início, mas quase todas sobreviveram aos mil dias de fome, ficando razoavelmente intactas. Alguns grupos até se estabilizaram com o passar do tempo, e sua população não mudou muito depois das primeiras centenas de dias. As bactérias famintas normalmente retardavam seus processos biológicos, o que significava que precisavam de menos energia para viver. Algumas viraram esporos, uma forma de vida quase inerte que requer um consumo de energia incrivelmente baixo para ser mantida. Mas as bactérias também aderiram ao canibalismo, alimentando-se de seus camaradas que não sobreviveram aos primeiros dias. Essa pilha de necromassa, como os cientistas começaram a chamá-la, foi provavelmente o maior fator na longevidade geral da bactéria.

Embora o experimento tenha durado apenas mil dias, a equipe usou a taxa de declínio nessas populações para estimar quanto tempo teoricamente poderiam sobreviver. Eles chegaram à conclusão que os grupos mais resistentes poderiam viver tanto quanto as plantas e animais mais antigos conhecidos. E mais: se tivessem que ficar em ambientes igualmente desolados, durariam 100 mil anos ou mais. É um feito ainda mais impressionante considerando que as bactérias têm um ciclo reprodutivo rápido, e essa velocidade geralmente vem com a desvantagem de ter uma vida útil curta.

“Embora as bactérias tenham a capacidade de se reproduzir em escalas de tempo de minutos ou horas, prevemos que as populações podem persistir por centenas a milhares de anos”, escreveram os pesquisadores.

Já existem evidências reais dessa longevidade. Alguns cientistas afirmam ter encontrado e revivido bactérias intactas em ambientes isolados, como depósitos de sal cristalizado ou permafrost. A idade real dessas bactérias antigas variou de 120 mil a mais de 200 milhões de anos. No ano passado, cientistas japoneses disseram ter ressuscitado bactérias de 100 milhões de anos de amostras enterradas de sedimentos do fundo do mar (uma advertência importante para todas essas descobertas é a possibilidade de contaminação).

“A grande questão de como as bactérias sobrevivem a longos períodos de limitação de energia é relevante para a compreensão de infecções crônicas em humanos e outros hospedeiros, e está relacionada a como alguns patógenos toleram drogas como antibióticos”, disse o autor Jay Lennon, professor de biologia da Universidade de Indiana Faculdade de Artes e Ciências, em comunicado da universidade.

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Os pesquisadores comentaram que as descobertas podem ajudar a informar pesquisas futuras sobre como essas bactérias antigas estão interrompendo sua hibernação e como as bactérias em geral podem sobreviver nos lugares mais hostis do mundo. E pode ser útil para interromper os relativamente poucos grupos de bactérias que deixam as pessoas doentes.