As baratas são as visitantes mais detestáveis que alguém pode receber em casa. No entanto, apesar de nossa relutância em ficar íntimos delas, há um monte de coisas que desconhecemos sobre elas. Um novo estudo, publicado nesta terça-feira (20) na Nature Communication, revela os genes que tornam as baratas tão pegajosas — e também explica por que é tão difícil de se livrar delas.

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Pesquisadores chineses sequenciaram o genoma da barata americana (Periplaneta americana) e o compararam diretamente com o genoma obtido de outras duas espécies parecidas, a barata australiana (P. australasiae) e a barata marrom fuligem (P. fuliginosa). Eles também compararam com os dados genéticos disponíveis de outros insetos da mesma ordem conhecidos como Blattodea; são exemplos os cupins (que recentemente passaram a fazer parte dos Blattodea após anos de desavenças entre entomologistas) e a barata alemã (Blatella germinaica).

Eles descobriram que a barata americana tem um dos maiores genomas conhecidos entre os insetos, na sequência vem o gafanhoto. Como esperado, a barata americana era muito próxima, geneticamente falando, das outras duas espécies Periplaneta. No entanto, ela tinha maior afinidade com as duas espécies de cupim quando comparadas com a barata alemã.

A descoberta significa que as baratas americanas (um nome que, na verdade, é incorreto, pois provavelmente elas vieram da África no século 16) poderiam servir como um “valioso modelo de estudo evolucionário de relacionamento entre baratas e cupins”, dizem os pesquisadores.

Ao estudar a história evolucionária da barata, eles também acharam evidências de que certas famílias de genes se tornaram muito mais expansivas com o tempo, particularmente aquelas associadas com quimiorrecepção e desintoxicação.

Quimiorrecepção é essencialmente a capacidade de um animal de cheirar e sentir o mundo em sua volta. As baratas americanas acumularam um estoque massivo de genes que as presentearam com receptores de gostos mais amargos. Esses genes provavelmente ajudaram insetos onívoros a expandirem suas bases pelo mundo, permitindo que seus estômagos abrigassem uma grande variedade de alimentos, independentemente de onde estivessem.

Mais genes de desintoxicação auxiliaram as baratas a sobreviverem e desenvolver resistência a agentes químicos que desenvolvemos contra elas — ainda que as baratas não sejam o único inseto que tenha aprendido esse truque.

Os pesquisadores também descobriram genes que explicam a estranha habilidade de as baratas conseguirem recuperar seus membros em alguns estágios durante sua vida útil, assim como os genes que ajudam os insetos a mudar sua taxa de crescimento, conforme a disponibilidade de comida — as baratas americanas geralmente são as maiores entre as espécies comuns.

Este “desenvolvimento de plasticidade”, como é conhecido, é outro aspecto crucial de como as baratas podem sobreviver aos mais diversos tipos de adversidade, segundo os pesquisadores.

Mais que apenas uma expedição por curiosidade, eles esperam que suas conclusões possam nos ajudar a combater pestes crescentes que não só nos enojam mas também espalham doenças, causam alergias e transformam nossas casas em uma bagunça fedorenta — em defesa das baratas, apenas cerca de 30 das 4.500 espécies conhecidas vivem próximo de pessoas, e poucas delas representam um incômodo.

“O problema das baratas americanas está se tornando mais sério com a ameaça do aquecimento global”, escreveram os pesquisadores. “Nossos estudos podem jogar luz sobre o controle e o uso desse inseto.”

Como as baratas americanas são usadas na medicina tradicional chinesa como tratamento para cura de feridas, os pesquisadores planejam continuar a estudar o inseto para ver se eles conseguem identificar “fatores de crescimento” que são responsáveis pela habilidade de regeneração de patas. E eles também já estão no meio do processo de sequenciar o genoma da barata de madeira — um inseto que, acredita-se, é o mais próximo dos cupins — para entenderem como os cupins se separaram das suas primas baratas.

[Nature Communications]

Imagem do topo por USGS Bee Inventory and Monitoring Lab