Um banco de dados de DNA envolvido em um debate sobre privacidade genética foi vendido. Nesta semana, a empresa forense Verogen, com sede em San Diego, anunciou a aquisição do GEDmatch, um site criado para que as pessoas pudessem saber a origem de suas famílias e colaborarem juntas para a formação de árvores genealógicas.

Ninguém sabe como a mudança de propriedade poderá afetar dados de mais de um milhão de usuários – nem como se dará a colaboração da plataforma com autoridades.

A Verogen, fundada em 2017, nasceu de uma empresa de sequenciamento de genoma chamada Illumina. Os produtos da Illumina foram amplamente utilizados para pesquisa e biotecnologia, mas a Verogen tem feito publicidade de suas novas tecnologias de sequenciamento para órgãos policiais.

A GEDmatch, por sua vez, foi fundada por dois genealogistas amadores, Curtis Rogers e John Olson, em 2010. O site foi criado como uma forma para que pessoas curiosas sobre a história de suas família juntassem informações publicamente.

Os usuários enviam os resultados dos testes de DNA que obtiveram a partir de quaisquer serviços privados, como 23andMe e Ancestry, que então são cruzados com os resultados de outras pessoas.

O serviço chegou a cobrar um plano de assinatura para cobrir os custos do servidor, mas no geral foi administrado por voluntários.

Durante anos, a base de usuários do site cresceu constantemente, sem muito alarde. Mas em 2018, isso mudou drasticamente. Na ocasião, veio à tona que a polícia de Sacramento usou o GEDmatch para identificar o suspeito de ser o “Golden State Killer”, Joseph James DeAngelo.

A polícia enviou o DNA da cena do crime do suposto assassino para o site, o que lhes permitiu encontrar os possíveis parentes distantes do suspeito. Então, os investigadores construíram uma provável árvore genealógica que levou até Deangelo. Em abril de 2018, Deangelo foi detido e até agora está aguardando julgamento.

Na época, os proprietários do GEDmatch expressaram consternação pela forma como seu banco de dados foi usado. No entanto, eles logo mudaram de opinião e passaram a incentivar agências governamentais, bem como outras empresas forenses, a examinarem as informações pelo site.

Isso levou a uma enxurrada de investigações semelhantes. A empresa Parabon Nanolabs, sediada na Virgínia, alega que identificou dezenas de supostos criminosos por trás de delitos violentos, na maioria das vezes em casos que já haviam acontecido há muito tempo, graças ao site.

No início deste ano, William Earl Talbott II tornou-se a primeira pessoa condenada por homicídio com a ajuda do que ficou conhecido como genealogia forense.

O número de usuários do GEDmatch aumentou após a captura de Deangelo e pelo menos uma pesquisa sugere que a maioria das pessoas não se incomodam com o uso policial dos bancos de dados de DNA para a resolução de crimes violentos. Apesar disso, alguns especialistas pediram cautela sobre essa tendência e suas consequências não intencionais.

Nos Estados Unidos, não há diretrizes federais sobre quando as agências de aplicação da lei devem ser autorizadas a usar bancos de dados de genealogia, por exemplo. Algumas empresas se colocam ao lado da privacidade, como a 23andMe, que prometeu não compartilhar abertamente seus dados com a polícia ou qualquer outro ente público.

Em dezembro do ano passado, um estudo descobriu que basta uma pequena porcentagem de pessoas de uma população enviar dados de DNA para um site como o GEDMatch para que seja possível rastrear a identidade de praticamente qualquer pessoa. Outros estudos mostraram como seria fácil para alguém com más intenções invadir e manipular bancos de dados de DNA.

Em meio a essas críticas, os proprietários do GEDmatch implementaram uma nova política em maio passado, que oferece uma opção para os usuários decidirem se querem que os dados sejam pesquisáveis pela polícia.

A iniciativa não adiantou muito, já que em novembro, a polícia da Flórida obteve um mandado de busca em todo o GEDmatch – e os criadores decidiram não recorrer.

À luz desses desenvolvimentos, surge o questionamento sobre o cansaço dos fundadores para manter o GEDmatch.

“Como outros, não estou muito surpresa que o GEDmatch tenha sido adquirido. Os proprietários do site enfrentaram perguntas inesperadas e difíceis sobre uso e acesso nos últimos 18 meses”, disse Natalie Ram, especialista jurídica da Universidade de Maryland que escreveu sobre os desafios da privacidade genética, ao Gizmodo por e-mail.

Por um lado, é possível que os maiores recursos financeiros da Verogen façam com que a empresa tenha mais possibilidade de barrar futuras tentativas da polícia de contornar a política de consentimento do GEDmatch.

O porta-voz da Verogen, Kim Mohr, disse ao Gizmodo por e-mail que a empresa não divulgaria nenhum dos termos, inclusive financeiros, por trás da aquisição. Eles só revelaram que o co-fundador Curtis Rogers manterá um papel no website.

Mohr acrescentou que a empresa permanecerá “firme em seu compromisso com a privacidade”, e que ela “buscará caminhos legais se houver qualquer tentativa futura de acessar informações de usuários que não tenham consentido com o compartilhamento”.

Por outro lado, Ram observou que a Verogen tem trabalhado há muito tempo com essas autoridades.

“Essa migração pode fazer com que a genealogia comum deixe de ser o foco principal do GEDmatch e levar à expansão da cooperação policial”, disse ela.

“Além disso, a Verogen é uma empresa com fins lucrativos, enquanto a GEDmatch era operada anteriormente sem um motivo de lucro significativo. Essa mudança no modelo de negócios pode tornar os novos proprietários da GEDmatch mais propensos a cooperar ainda mais com a polícia e outras entidades interessadas que possam pagar”, completou.

A Verogen afirma que os usuários continuarão a ter acesso gratuito às ferramentas básicas oferecidas pelo GEDmatch, embora “no futuro, aplicativos aprimorados estarão disponíveis”.

Outras empresas, como a Parabon Nanolabs, também continuarão a trabalhar com o GEDmatch. Atualmente, acredita-se que cerca de 200 mil usuários do GEDmatch tenham permitido que seu DNA seja pesquisável pela polícia.

“Não há mudanças planejadas em termos de acesso dos consumidores ao banco de dados GEDmatch”, disse Mohr. “Todos que puderam acessar o GEDmatch no passado ainda poderão acessar o site.”

Dito isto, os usuários que voltaram ao GEDmatch na segunda-feira (9), foram avisados sobre a mudança. Aqueles que desejavam continuar usando o site foram convidados a concordar com novos termos de serviço, enquanto aqueles que recusaram foram informados de que poderiam remover todos os seus dados dos servidores do site.

“As revisões nos termos de serviço ocasionadas por esta aquisição devem mais uma vez lembrar aos usuários – de qualquer serviço similar – que sua privacidade e outros direitos podem ser tão fortes quanto a boa vontade e a motivação financeira do proprietário do site permitam, e que o proprietário normalmente pode alterar esses termos a qualquer momento”, disse Ram.