O biólogo negro Charles Henry Turner fez pesquisas inovadoras sobre a cognição animal na virada do século 20, mas suas ideias nunca ganharam força por conta do racismo e de seu ponto de vista aparentemente radical. Muitos conceitos propostos por Turner agora são aceitos como consenso científico, e um grupo de pesquisadores diz que já passou da hora de dar crédito a quem merece — e de evitar os erros do passado.

Um ensaio na seção Perspectives da revista Science descreve as contribuições do biólogo Charles H. Turner (1867-1923), um zoólogo americano cujas “primeiras descobertas são esquecidas por todos os motivos errados”, de acordo com os dois autores do artigo, Hiruni Samadi Galpayage Dona e Lars Chittka, ambos biólogos da Queen Mary University of London.

O trabalho de Turner foi contra o discurso científico dominante da época, pois ele considerou e investigou a ideia de que muitas espécies animais eram capazes de comportamentos complexos envolvendo inteligência, resolução de problemas e até mesmo consciência. Hoje, muitos desses conceitos são unanimidade, mas a pesquisa de Turner sobre esses assuntos nunca obteve o reconhecimento que merecia.

“É deplorável que o campo da ‘personalidade animal’, que agora é bastante popular, tenha dado tão pouca atenção à abordagem pioneira de Turner”, escrevem eles.

Para os contemporâneos de Turner, era uma combinação de racismo e ceticismo em relação a suas teorias aparentemente bizarras. Suas “ideias visionárias sobre inteligência animal não ressoaram no campo”, escrevem os autores, “talvez porque estivessem simplesmente muito à frente do tempo”. Eles acrescentam que elas praticamente não recebem nenhum reconhecimento na literatura atual.

Um mergulho mais profundo no trabalho de Turner revela alguns insights e abordagens verdadeiramente inovadores. Nascido em Cincinnati em 1867 — apenas dois anos após o fim da Guerra Civil dos Estados Unidos — Turner obteve seu doutorado em 1907, enquanto estava na Universidade de Chicago.

Ele desenvolveu algumas abordagens experimentais inovadoras para estudar o comportamento e a cognição animal. Nas décadas anteriores, os biólogos Charles Darwin e George Wallace discutiram a inteligência animal, mas seu trabalho foi baseado predominantemente em observações de campo e inferência. Turner, além de observar animais na natureza, planejou experimentos controlados com animais não muito diferentes daqueles comumente feitos hoje.

De 1891 a 1917, Turner publicou mais de 70 artigos (!), incluindo três que apareceram na revista Science. Ele estudou as curvas de aprendizagem das formigas, fez uma anatomia comparativa dos cérebros das aves (encontrando semelhanças com os cérebros dos répteis), estudou a visão das abelhas, mostrou que os insetos (especificamente as mariposas do bicho-da-seda) podem ouvir, estudou os hábitos de caça das vespas Bembicini, fez experimentos em labirintos com baratas (nos quais ele afirmava que os insetos agiam com “vontade”) e documentou comportamentos de desvio em cobras selvagens (uma vez ele viu uma cobra pegar um lagarto escalando uma árvore vizinha para que pudesse atacar sua presa de cima).

Ele também estudou variação individual e inteligência em aranhas, como explicam os autores:

Ao contrário da visão ainda popular de que a construção da teia de aranha é um excelente exemplo de padrões de ação robótica e repetitiva dos invertebrados, Turner relatou a variação entre os indivíduos na adaptação de sua construção à geometria do espaço disponível e a funcionalidade na captura de presas: “podemos com segurança concluir que um impulso instintivo leva as aranhas de galeria a tecer teias de galeria, mas os detalhes da construção são produtos de ação inteligente”.

As observações e experimentos de Turner o levaram a propor teorias sobre os comportamentos intencionais dos animais, argumentando que eles são seres inteligentes e conscientes. Algumas dessas ideias não seriam consideradas novamente por mais de um século, incluindo a sugestão de livre arbítrio entre os insetos — uma ideia não revisitada até recentemente.

Na verdade, suas ideias eram altamente não convencionais; foi só em 2012, por exemplo, que um consórcio de cientistas assinou a Declaração de Cambridge sobre a Consciência, na qual eles admitiam que todos os animais têm consciência em algum grau.

Na era de Turner, a abordagem tradicional via os animais como criaturas dirigidas quase exclusivamente por instinto e sustentava que qualquer inteligência aparente poderia ser explicada por pura persistência, entre outros processos, como os autores descrevem:

Os primeiros etologistas, como Oskar Heinroth, Charles Whitman e Wallace Craig, concentraram-se, em vez disso, no comportamento inato e na impressão, uma forma simples de aprendizagem. Onde a solução de problemas foi observada, como quando os animais abrem caixas, comportamentalistas como Edward Thorndike propuseram que isso se materializou como resultado de tentativa e erro, e não insight ou compreensão da natureza do desafio. Nenhum desses cientistas estava interessado na variação individual de comportamento.

Turner, além de não receber o reconhecimento ou respeito de seus pares, foi recusado para um cargo na Universidade de Chicago. O motivo dessa afronta foi racismo, afirmam os autores. Turner tornou-se professor de ensino médio após obter seu Ph.D.

Isso limitou seu acesso a recursos que poderiam ter levado sua pesquisa para o próximo nível, como equipamentos de laboratório, textos, e assistentes de pesquisa; a falta deste último impediu que suas ideias passassem para a próxima geração de biólogos. Como os autores apontam para comparação, o cientista russo Ivan Pavlov (1849-1936), famoso por seus cães salivantes, treinou mais de 140 colegas.

Os autores “não podem deixar de se perguntar o que Turner poderia ter alcançado se tivesse recursos e mão de obra comparáveis”, já que “todo o campo da cognição animal pode ter se desenvolvido de forma diferente”.

Eles acrescentam: “Seria de se esperar que, hoje em dia, uma pessoa do calibre de Turner não enfrentasse adversidades semelhantes em termos de oportunidades de emprego acadêmico ou reconhecimento de longo prazo de sua contribuição para a ciência”, mas ainda hoje “muito poucos estudiosos em cognição animal, ou mesmo em outros campos da biologia, são negros.”

Turner morreu aos 56 anos de um problema cardíaco, mas não antes de fazer contribuições ao movimento dos direitos civis dos EUA, lutando por serviços sociais e educacionais entre os negros que viviam em St. Louis, Missouri, onde morava.

A história de Turner é tão intrigante quanto frustrante, uma triste lembrança das imensas contribuições feitas por pessoas que, ao longo da história, tiveram que suportar dificuldades impostas por discriminação sistemática.