O CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, e a diretora de operações, Sheryl Sandberg, falharam em aplacar uma coalizão de grupos de direitos civis que lideram um boicote à publicidade na plataforma. Nesta terça-feira (7) foi realizada uma reunião entre os executivos e os líderes do movimento. De acordo com o grupo, não foram feitos avanços na agenda e por isso o boicote deve continuar.

Os grupos que lideram a campanha #StopHateForProfit (Interrompa o ódio pelo lucro, em tradução livre) incluem a Anti-Defamation League, Color of Change, Free Press, a NAACP e o Sleeping Giants. Eles conseguiram a adesão de mais de 900 anunciantes.



As empresas estão participando em graus variados que nem sempre envolvem o desinvestimento total na plataforma e o boicote ainda não teve um impacto significativo nos resultados financeiros do Facebook. Apesar disso, o movimento teve um impacto na imagem da rede social, destacando seu contínuo jogo blindado que promete lutar contra o discurso de ódio, mas toma medidas ineficazes.

Durante a primeira metade do ano, o Facebook parecia cada vez mais pronto para se aliar à definição de “liberdade de expressão” favorecida pro grupos de extrema direita. Nos exemplos mais visíveis, Zuckerberg e sua equipe fizeram uma grande ginástica mental para justificar a não remoção de publicações do presidente dos EUA, Donald Trump, que espalhavam mentiras sem fundamento sobre fraude eleitoral e ameaçavam atos de violência contra manifestantes. O CEO até foi na Fox News para proclamar que o Facebook não seria o “árbitro da verdade”.

No mês passado, Zuckerberg repentinamente mudou seu posicionamento público sobre o assunto, em resposta ao boicote, aos protestos de funcionários e à crescente pressão política.

Mas falar é fácil. Em particular, Zuckerberg garantiu que os anunciantes voltariam “em breve”, chamou a situação mais de “questão de reputação e parceria” e alegou que o Facebook não cederia à pressão de terceiros.

Na manhã de terça-feira, Sandberg publicou uma longa carta afirmando que o Facebook faria mais para se posicionar “firmemente contra o ódio”, mas simultaneamente lançou as bases para que a empresa se livrasse de qualquer uma das recomendações do grupo, substituindo as ações por uma “auditoria independente de direitos civis” (encomendada, vale notar, pelo Facebook).

Na reunião, Zuckerberg e Sandberg não conseguiram atender a nenhuma das exigências da campanha de boicote, conforme afirmaram os grupos de direitos civis presentes.

Em uma declaração ao Gizmodo via e-mail, a campanha Stop Hate for Profit escreveu que “a única recomendação que [os executivos do Facebook] tentaram abordar foi a contratação de um cargo relacionado aos direitos civis”, mas que a empresa se recusou a se comprometer a fazer dessa posição um cargo de alta gerência (c-level). Não houve “nenhuma tentativa” por parte do Facebook de abordar qualquer outra recomendação, de acordo com a campanha.

Isso incluía parar de recomendar ativamente que usuários se juntasse a grupos extremistas e de ódio por meio de seus algoritmos, derrubar proativamente esses grupos, estabelecer uma infraestrutura de direitos civis, auditorias independentes realizadas por terceiros para avaliar os esforços anti-ódio e desinformação e ressarcimento de anúncios cujo as publicidades rodaram ao lado de conteúdos que violam os termos de serviço do próprio Facebook.

“Zuckerberg não ofereceu nenhum recurso automático para os anunciantes cujo conteúdo é mostrado ao lado de conteúdo de ódio”, escreveu o Stop Hate for Profit. “Ele não tinha resposta para o porquê de o Facebook recomendar grupos de ódio aos usuários. Ele recusou-se a concordar em fornecer uma opção para que as vítimas de ódio e assédio se conectassem com um representante ao vivo no Facebook.”

“Ele se recusou a adotar políticas e práticas de moderação de conteúdo de senso comum como as apresentadas pela coalizão Change the Terms, ou desenvolver um processo para assegurar que seus termos de serviço sejam aplicados de forma justa e não se curvem à conveniência política”, acrescentou o grupo. “E ele não ofereceu nenhum plano tangível sobre como o Facebook abordará a desinformação desenfreada e as conspirações violentas em sua plataforma.”

Em vez disso, a campanha disse que Zuckerberg ofereceu apenas “a mesma velha defesa da supremacia branca, anti-semita, islamofóbica e outros grupos odiosos no Facebook” e a “mesma velha retórica, reembalada como uma nova resposta […] Nada disso é difícil, especialmente para uma das empresas mais inovadoras do mundo, cujo fundador cunhou o termo mover-se rapidamente e quebrar as coisas. Mark Zuckerberg, você não está quebrando as coisas, você está quebrando as pessoas”, completou o grupo.

“Por mais de 2 anos, a NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor) entrou em diálogo”, disse o presidente da NAACP, Derrick Johnson, à CNN. “Vimos a conversa desabrochar em nada”.

“Esta não é a primeira vez que nossas organizações pedem ao Facebook para agirem corretamente”, Jessica González, co-CEO da Free Press, escreveu ao Gizmodo em uma declaração separada via e-mail. “Temos visto repetidas vezes como a plataforma fará qualquer coisa para se esquivar utilizando sua poderosa máquina de relações públicas e tentar fazer as notícias girarem a seu favor. Estamos ao lado da verdade e justiça e já passamos por isso vezes suficientes para saber quando o Facebook está tentando nos enganar.”

“[…] Isto ainda não acabou”, acrescentou González. “Vamos continuar a expandir o boicote até que o Facebook leve a sério nossas exigências.”

Em uma chamada após a reunião, segundo o New York Times, o chefe da Color of Change, Rashad Robinson, disse que “Eles compareceram à reunião esperando uma nota de participação. Só participar não é suficiente.”

Sobre o lançamento da auditoria de direitos civis encomendada pelo Facebook, Robinson disse na ligação que isso “é como ir ao médico, receber novas recomendações sobre sua dieta e depois não fazer nada a respeito e se perguntar por que você não está ficando mais saudável.”

Em uma declaração à CNBC, um porta-voz do Facebook disse que os grupos “querem que o Facebook esteja livre de discursos de ódio e nós também queremos. Por isso que é tão importante que trabalhemos para acertar. Sabemos que seremos julgados por nossas ações e não por nossas palavras e somos gratos a esses grupos e a muitos outros por seu contínuo engajamento.”