Não é exagero algum se perguntar se o resultado da eleição presidencial no Brasil significa um game over para o planeta quando se trata de mudança climática.

Jair Bolsonaro venceu a eleição presidencial no domingo (28), com uma plataforma de xenofobia, homofobia e uma promessa de silenciar dissidentes políticos. Foi um dia sombrio para a nona maior economia do mundo e para os 47 milhões de brasileiros que votaram no candidato concorrente, Fernando Haddad, ou para os outros tantos milhões que não se identificam com suas visões. Mas seus planos para a Amazônia são o que mais irá reverberar para além das fronteiras brasileiras, com implicações no futuro.

“Bolsonaro quer massacrar nossa diversidade sexual, de gênero, cultural, racial e biológica”, disse Felipe Milanez, especialista em ecologia política da Universidade Federal da Bahia, em entrevista ao Earther. “Isso significa transformar a Amazônia em um enorme campo de soja e matar toda a diversidade.”

Washington Post noticia que Bolsonaro tem um plano de privatizar vastas faixas de floresta, entregando-as ao agronegócio e à mineração. Além disso, ele gostaria de expandir a energia hidrelétrica e nuclear para a região, tendo indicado que não deixará grupos ambientais externos terem muita influência sobre a preservação.

Suas políticas de violência ambiental e cultural podem funcionar em conjunto e ter um efeito devastador na Amazônia. A floresta já está enfraquecida, após décadas de exploração madeireira, extração e interesses do agronegócio cobrando seu preço. E, embora governos anteriores tenham feito promessas da boca pra fora de proteger a região, a degradação continuou.

O caminho que Bolsonaro decida trilhar poderá ter consequências importantes sobre a Amazônia e o seu povo. O Brasil é o lar do maior pedaço da maior floresta tropical da Terra, mas essa floresta se estende por outros oito países.

“As fronteiras de ecossistemas não seguem fronteiras políticas, da mesma maneira que a atmosfera não o faz”, disse Adrian Forsyth, fundador do Andes Amazon Fund, que passou décadas estudando a região, em entrevista ao Earther. “Se você represar a Amazônia ou perturbar a floresta, destruirá a base de alimentos para pessoas em outros países.”

E, dentro do Brasil, a desregulação e as reduções de orçamento que Bolsonaro prometeu implementar aumentam as chances de abusos de direitos humanos, que já são desenfreados. No ano passado, conservadores cortaram o financiamento da agência brasileira responsável por proteger os direitos e as terras de indígenas, levando a um aumento na violência e na apropriação de terras, segundo uma reportagem do Guardian.

“Terra, para nós, é nossa identidade, nossa vida, nossa existência”, disse Sônia Guajajara, coordenadora executiva da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), que representa 300 grupos indígenas, em entrevista ao Earther. “Sem nosso território, não temos meios de existir e sermos o que somos.”

A ameaça ao povo indígena provavelmente deve aumentar no governo Bolsonaro, que já expressou sua admiração pela antiga ditadura militar brasileira, parte de uma onda de sofrimento neoliberal que afligiu a América Latina na década de 1970. Aliás, Bolsonaro argumentou que a antiga liderança autocrática do Brasil não foi longe o bastante em sua violência contra os cidadãos. O regime militar matou pelo menos 500 brasileiros, torturando outros milhares.

Milanez apontou que Bolsonaro tem o apoio das Forças Armadas, o que poderia colocar mais pessoas em perigo. Ele também tem um conselheiro economista da Escola de Chicago, o futuro ministro da fazenda, Paulo Guedes, o que é notável, considerando o papel que os proponentes da privatização da escola tiveram na América Latina dos anos 1970 — e na violência que acompanhou essas políticas. A ameaça de violência pode ser sentida mais profundamente pelas minorias ou por aqueles que controlam as terras que Bolsonaro quer entregar para os grandes negócios.

“Nós (grupos indígenas) nunca fomos uma prioridade de qualquer governo anterior”, disse Guajajara. “O que está por vir de Bolsonaro nunca foi feito antes. É a primeira vez que, quando um candidato diz que cumprirá todas as promessas de campanha, a resposta é terror. Essa é uma agenda destrutiva que quer promover o genocídio.”

A ascensão de Bolsonaro ao poder foi marcada por violência, ameaças e até assassinato. Mas a violência pode em breve reverberar ao redor do mundo, em um sentido planetário. A Amazônia é comumente chamada de pulmão do planeta, porque absorve um quarto de todo o dióxido de carbono do ar da Terra a cada ano. No entanto, sua absorção natural de carbono parece estar diminuindo. Uma pesquisa publicada em 2015 mostrou que a Amazônia absorve um bilhão de toneladas a menos de carbono do que na década de 1990.

Parte disso pode ser devido à mudança climática, que está contribuindo para secar a Amazônia. Mas a degradação ambiental resultante do relaxamento das leis ambientais também tem um papel. “Sempre houve um problema na aplicação da regulamentação — e não falta de regulamentação”, afirmou Heike Doering, pesquisador de desenvolvimento econômico da Universidade de Cardiff, no País de Gales, em entrevista ao Earther.

O plano de Bolsonaro de transformar mais florestas em campos de soja poderia reduzir a absorção de carbono da Amazônia ainda mais. Isso significaria mais carbono na atmosfera, acelerando a mudança climática e acabando com o que restará de floresta. E, sem a Amazônia funcionando próxima de sua capacidade máxima, a humanidade tem pouquíssima esperança de deter a mudança climática acima dos dois graus Celsius dos níveis pré-industriais. Muito menos o objetivo ambicioso do 1,5 grau Celsius.

Ah, sim, como a ironia já morreu, o Brasil deve sediar a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP 25) em 2019.

Imagem do topo: Getty