Vamberto Luiz de Castro, funcionário público aposentado de 63 anos, morador de Belo Horizonte (MG), estava lutando contra o câncer desde 2017, tendo sido submetido à radioterapia e quimioterapia sem sucesso. Já em fase terminal e dependente de doses diárias de morfina, o paciente foi autorizado a receber um novo tratamento com células reprogramadas, sendo esse o primeiro teste a ser realizado na América Latina.

Em 9 de setembro, Castro deu entrada no Hospital das Clínicas em Ribeirão Preto, com muitas dores, perda de peso e dificuldades para andar. Segundo os médicos, quatro dias após a aplicação da nova terapia, o paciente já não sentia mais dores intensas e, depois de uma semana, ele voltou a andar.

O tratamento, conhecido como terapia de células CAR-T, foi testado por pesquisadores do CTC (Centro de Terapia Celular) da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto. A técnica consiste basicamente, em tratar o paciente com suas próprias células, porém modificadas em laboratório. Na maioria das vezes, uma única dose é o suficiente.

Primeiramente, são coletadas amostras de sangue do paciente para isolar um tipo de leucócito conhecido como linfócito T (um dos principais responsáveis pela defesa do organismo). A partir de então, com o auxílio de um vírus geneticamente modificado, um novo gene é introduzido no núcleo do linfócito T. Dessa forma, esse linfócito torna-se capaz de reconhecer e atacar as células tumorais.

Os leucócitos modificados são colocados em meio de cultura para se proliferarem e, posteriormente, serem introduzidos no paciente. Segundo a agência Fapesp, é necessária uma leve quimioterapia antes do tratamento para preparar o organismo.

Imagem: Agência Fapesp

Logo após essa infusão de células CAR-T, cerca de 24 horas, ocorre uma reação inflamatória que indica que os linfócitos estão se reproduzindo e agindo no tumor. Os sintomas incluem febre e queda acentuada da pressão arterial. Felizmente, Castro já superou essa fase crítica, apresentando crescente melhora. No entanto, os pesquisadores afirmam que somente após três meses é que poderão avaliar se a resposta à terapia foi total ou parcial.

O tratamento com células CAR-T foi inicialmente desenvolvido nos Estados Unidos, com custo aproximado de US$ 400 mil (mais de R$ 1 milhão), sem contar com os gastos com internação. Aqui no Brasil, o CTC foi capaz de desenvolver uma metodologia que custa cerca de R$ 150 mil e que, segundo a Fapesp, pode ter um custo ainda menor se passar a ser oferecido em larga escala.

O projeto vem sendo desenvolvido há quatro anos e conta com a participação de quase 20 pesquisadores, entre médicos, biólogos celulares e moleculares, e engenheiros especializados em cultivo celular em larga escala. Já o apoio financeiro foi oferecido pela Fapesp, CNPq, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Financiadora de Inovação e Pesquisa (Finep), Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e Ministério da Saúde.

Em comunicado da Fapesp, Rodrigo Calado, professor da FMRP-USP e membro do CTC, disse que, apesar de a metodologia desenvolvida ser específica para o tratamento de linfoma, ela também pode ser aplicada a qualquer tipo de câncer. “O custo da terapia de células CAR-T é muito próximo do valor que o SUS repassa para um transplante de medula óssea – hoje em torno de R$ 110 mil. Então o tratamento pode ser considerado acessível”, disse ele.

Renato Luiz Cunha, um dos responsáveis pelo estudo, recebeu em 2018 o prêmio da Associação Americana de Hematologia (ASH), nos EUA, para desenvolver a pesquisa aqui no Brasil. Em depoimento ao G1, ele disse que a expectativa é que, no futuro, esse tratamento esteja disponível a todos os pacientes do SUS.

Dado que a terapia com células CAR-T ainda está em fase de pesquisas e não foi liberada para a rede pública ou privada, o paciente Vamberto Luiz de Castro só pode ser atendido no hospital universitário após a aprovação de uma comissão ética. Afinal, apesar de promissor, o tratamento ainda pode trazer riscos para o paciente, considerando a forte baixa no sistema imunológico que ocorre após a introdução das células, e que pode ser fatal em alguns casos.

Dimas Tadeu Covas, coordenador do CTC, acrescentou, em declaração ao G1, que ainda não há previsão de quando o tratamento será expandido para outros centros hospitalares porque depende de laboratórios controlados com infraestrutura adequada. Além disso, por não ser um procedimento tão simples, ele só poderá ser realizado em unidades com experiência em transplante de medula óssea.

Antes de chegar ao SUS, a pesquisa também deverá ser avaliada pela Anvisa, observam os pesquisadores. Portanto, nos próximos 6 meses, serão realizados mais testes com cerca de 10 pacientes. Já Vamberto Luiz de Castro, após apresentar melhorias durante as semanas que esteve em observação, receberá alta amanhã (12).

[Agência Fapesp, G1, Jornal da USP]